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Ópera “O perigo da arte”, de Tim Rescala

Conta a história de um jovem talentoso artista plástico nascido numa periferia e que faz um trabalho desconcertante.

Enquanto prepara a trilha sonora da nova novela de Luiz Fernando Carvalho, “Meu pedacinho de chão” que começa a ser rodada em janeiro para o horário das 18h.,  Tim Rescala esteve em Buenos Aires onde estreou a ópera “O perigo da arte” no último dia 12 de outubro.

A ópera em 1 ato foi composta por encomenda da Secretaria de Cultura de Presidencia La Nación para o Núcleo de Ópera Contemporânea da Argentina. Tim Rescala foi o primeiro compositor brasileiro a receber o convite já oferecido a outros compositores da américa latina.

3 cantores, 7 músicos e um regente nos contam essa história, bastante familiar aos 2 países. O libreto – também assinado por Rescala- foi escrito em espanhol e português para que seja montada no Rio de Janeiro, provavelmente, em 2015.

 

Sinopse

O jovem artista plástico Fulano, embora de origem muito simples, oriundo de uma comunidade carente e violenta, surge como um talento promissor das artes plásticas, realizando trabalhos desconcertantes, sobretudo performances, utilizando os materiais mais improváveis. Começou a se expressar inicialmente através do grafite, mas logo absorveu outras técnicas, sempre de forma auto-didata. Sob a influência de sua namorada e maior incentivadora, Valquíria, socialite vinte anos mais velha do que ele, encantada com seu charme selvagem, espontâneo e inconformista, vai à casa de Felipe Tricano, o maior crítico de arte do país.

Felipe é a pessoa mais influente na área, pois é também diretor do Museu de Arte Moderna, curador, professor e consultor ordering propecia online dos maiores museus do mundo. Mas, sem que ninguém saiba, é também marchand, pois usa sua influência para elevar ou abaixar a cotação dos artistas no mercado da arte.

Valquíria tem com Tricano, seu ex-marido, um relacionamento amigável, embora recheado de cinismo. Depois de muito insistir com Fulano, ela o leva para conhecer Felipe num jantar em sua casa, pois sabe que só com a ajuda dele a carreira de Fulano pode deslanchar, inclusive internacionalmente. Ela vê que é muito melhor ter Tricano como amigo do que como inimigo,  pois conhece sua influência no mundo da arte. Mas ela sabe também que não conseguirá isso sem dar algo em troca, pois conhece muito bem a capacidade que Felipe tem para negociar, não só com obras de arte, mas com tudo.

Felipe os recebe com a altivez que lhe é característica, esbanjando classe e cultura, sempre de forma a diminuir seu interlocutor ao falar sobre qualquer assunto, mas se mostra curioso pela figura de Fulano, pois sabe que ele pode lhe ser útil e lhe render um bom dinheiro negociando suas obras, embora as considere um lixo. A ironia e a falsidade dão o tom do jantar. Apenas Fulano parece se mostrar do jeito que de fato é, rude, grosseiro, mas sempre sincero.

Valquíria logo  apresenta seu namorado como um jovem gênio, mas Felipe o trata com desdém e deboche, ironizando seu nome artístico. À medida que ela mostra o portfólio de Fulano para o crítico e marchand, com várias fotos de trabalhos do artista, Felipe trata de analisar cada um deles, comparando-os a trabalhos já existentes de artistas famosos, como se eles não tivessem originalidade nenhuma e fossem apenas reflexos de uma manifestação artística espontânea, mas ingênua,  amadora e até anacrônica.

Fulano, que já havia relutado muito a ir lá, reage com agressividade aos comentários de Felipe. Valquíria usa então de toda a sua capacidade de persuasão para acalmar Fulano e não sair daquele encontro de mãos vazias. Quando Fulano anuncia que vai embora, Felipe contemporiza, deixando bem claro que é, sobretudo, um homem de negócios. O fato dele não gostar do trabalho de Fulano não quer dizer que não possa negociá-lo ou mesmo falar bem dele. Isso deixa o jovem artista ainda mais revoltado, mas Valquíria gosta do que ouve, pois sabe que está ali para fazer negócios.

Valquíria consegue aplacar a ira de Fulano, enquanto Felipe serve-lhes um vinho, sem deixar de aproveitar a oportunidade para caçoar da ignorância de Fulano sobre a bebida, chegando a oferecer cerveja só para ele. Sempre sedutora e interesseira, Valquíria elogia o bom gosto de Felipe , dizendo que ele mudou para melhor desde que se separaram, com o que Felipe concorda totalmente, com o cinismo de sempre. Os dois comentam sobre seu passado, como se Fulano não estivesse presente, deixando-o cada vez mais desconfortável e incomodado, sempre tratado como alguém a ser ensinado, orientado, enfim, como um selvagem a ser domado.

Mencionando que Felipe ainda não havia escrito nada na imprensa sobre o trabalho de Fulano, e como isso seria bom para sua carreira, Valquíria se surpreende, pois Felipe responde ao seu questionamento apresentando um texto crítico sobre o trabalho dele. Empolgadíssima, Valquíria lê o texto, deixando até mesmo Fulano satisfeito ao constatar que, apesar do que havia dito, Felipe não só entende o seu trabalho, como o considera  uma das maiores promessas da arte atual.

Felipe, no entanto, diante da satisfação dos dois, é frio e implacável. Conta que aquele texto já estava pronto há dez anos, pois havia sido escrito, sob encomenda, para apresentar um jovem artista em sua primeira exposição individual fora do país. Mas, como ele não pagou o valor cobrado, o texto foi engavetado e o artista devidamente expurgado do mercado depois da  crítica avassaladora que Felipe escreveu.

O implacável crítico e marchand demonstra assim como tudo é muito relativo no mercado de arte e na vida. O que importa, na verdade, não é o trabalho e nem a sua aceitação pelo público, mas sim a opinião de alguém como ele, que pode ou não avalisar uma obra, seja ela boa ou ruim.

Fulano se sente ultrajado e tem que ser contido por Valquíria para não avançar sobre Felipe. Ela, no entanto, entende muito bem o recado, sabendo ser também uma negociante fria e calculista. Ela pergunta então qual seria o preço para que o grande marchand e crítico colocasse sua influência no mundo da arte em favor de Fulano e não contra ele. Felipe diz que agora a conversa passou a ficar de mais interessante, mas que antes, iria servir o jantar.

Diante das lagostas servidas com estilo pelo marchand, devidamente acompanhadas dos talheres necessários para degustar a iguaria, começa a negociata. Fulano já não exibe mais a rebeldia que demonstrou quando lá chegou. Estava quase catatônico, não só por não saber se comportar à mesa, mas, principalmente, por estar assistindo a um negócio  tendo como produto a sua obra, razão da sua vida.

Sem nunca perder sua fleuma, exibindo total domínio da arte de preparar e comer lagostas, Felipe apresenta um primeiro item a ser pesado na balança, a pensão altíssima que paga a Valquíria. Mas ela, que não fica atrás em termos de elegância à mesa, descarta essa possibilidade, pois não pode abrir mão de seus luxos, visto que está demasiadamente acostumada a eles.

Felipe, não se esquecendo nunca de servir o seu convidado e possível “cliente”, cujo prato, porém, se mantém intacto, passa para outro item. Já que o dinheiro não estaria em jogo, a primeira alternativa a seguir seria a casa onde Valquíria mora, que era de Felipe. Mas a ex-mulher do marchand, sem nunca perder a pose, também descarta essa possibilidade, pois não poderia abrir mão de sua casa com cinco quartos  e piscina, localizada no melhor bairro da cidade.

O marchand passa então para a alternativa seguinte. No lugar de algo, a moeda de troca poderia ser então alguém. Fulano, de catatônico, começa a ficar transtornado.
– Como assim, alguém?-, indaga ele. Valquíria entende o recado rapidamente, mas demonstra surpresa, pois comenta-se nos círculos mais íntimos que Felipe, ao se separar dela, teria mudado sua preferência sexual. Felipe, nunca perdendo o bom-humor e a ironia, esclarece que, na verdade, não mudou de preferência sexual, apenas a ampliou.

Fulano, diante da evolução da conversa, já não vai mais demonstrando qualquer emoção diante do que ouve, apenas mantendo seu olhar fixo nas lagostas que estão à mesa. Valquíria, que assim como Felipe não se interessou em saber como Fulano estaria recebendo essas propostas, adianta-se, dizendo que tudo isso é muito novo para ele, que o seu namorado ainda não estava ainda preparado para esses novos hábitos. Felipe acha uma pena, pois achava que eles poderiam se divertir bastante em trio, principalmente tendo um jovem selvagem e viril como Fulano.

Felipe então não vê outra alternativa que não seja uma compensação em termos de porcentagem em cada negócio realizado. Normalmente esta costuma ser de 50%, mas diante da impossibilidade de negociarem com outros ítens, a única alternativa que lhe resta é trabalhar com um percentual de 80% para ele e 20% para o artista.

 Um pequeno silêncio se faz na mesa. Valquíria então se vira para Fulano para saber o que ele pensava da proposta. Sem ouvir resposta, ela argumenta que, aparentemente, ela não parece vantajosa, mas que, com o tempo, principalmente com as vendas internacionais, ela será um bom negócio. E ela abriria mão de seu percentual para torná-lo possível.

Sem voltar seu rosto para Valquíria, Fulano, no lugar de responder sobre a proposta vil, apenas pergunta a Felipe, que é um expert no assunto, como é que se prepara aquela comida tão diferente. Mesmo achando a pergunta um tanto descabida e fora de hora, o marchand discorre rapidamente sobre o preparo do crustáceo.

Tricano diz que uma lagosta bem preparada, seguindo as normas da boa cozinha de nível internacional, deve ser cozida viva. – Viva? -, pergunta Fulano, surpreso-. – Sim, viva, responde Tricano-. Depois de mais um novo silêncio, sem olhar para Felipe e Valquíria, Fulano diz apenas: – Vocês dois agora terão a oportunidade de participar do meu último trabalho como artista plástico. A minha maior obra, o meu trabalho mais radical, que não poderá ser comparado a nenhum outro, de artista nenhum. Ninguém jamais ousará copiar este meu trabalho e ninguém jamais dirá que ele se parece com qualquer outro-.

Diante das palavras de Fulano e do olhar terrível que ele dirigia ao prato de lagostas e, sobretudo, aos talheres, Valquíria fica estática. Mas Tricano, embora também bastante incomodado, fala apenas. – É mesmo? -. Depois de mais uma pausa, Fulano, sem desviar o seu olhar, confirma. – É.

O que se segue então é uma verdadeira carnificina. Fulano, até o momento um artista que tentava se encaixar nas regras vigentes para se inserir no mercado da arte e na sociedade como um todo, segue apenas o seu tão cultuado instinto, mas apenas a sua parte mais selvagem e bárbara. Ele mata Felipe e Valquíria, matando-se em seguida.

Desde então o mercado de arte nunca voltou a ser o mesmo e passou-se a considerar que até na arte existe perigo. E este perigo pode ser fatal.

 

Encenação

A ação se passa inteiramente na casa de Felipe Tricano, onde várias obras de arte dividem espaço com livros, uma mesa de jantar, um sofá e uma poltrona de designer moderno.

A cena final, quando Fulano mata Felipe e Valquíria, será feita em vídeo, com imagens desfocadas, quase abstratas, como se fosse um grafite feito por Fulano. Após a carnificina, os três personagens cantam seu epitáfios :

Felipe : “Aqui jazz Felipe Tricano, grande crítico de arte e marchand, morto de forma bárbara e inexplicável. Eternas saudades de seus artistas, alunos e amigos

Valquíria: ” Aqui jazz Valquíria Tricano, alma boa e generosa, cuja vida foi ceifada tão cedo, de forma brutal. Saudade de seus amigos e parentes

Fulano: “Aqui jazz José da Silva, vulgo Fulano”

 

Personagens e vozes

Fulano (tenor)  –  Jovem com cerca de 30 anos. Forte, viril, de traços e  comportamento rudes.

Felipe Tricano (barítono)  – Intelecutal brilhante, mas ardiloso, maquiavélico e  manipulador. Tem cerca de 60 anos.

Valquíria (soprano)  – Fogosa, sedutora, gosta de luxo e de emoções fortes. Tem cerca de 50 anos.

 

Os músicos (7 + regente)

– Violino, viola, violoncelo
– Flauta, clarinete e trompa
– Percussão (vibrafone, caixa, prato, bombo, triângulo, 1 wood-block, 2 ton-tons)

 

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