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Ópera Curta – uma base para o futuro

Tudo começou com uma inquietação minha e de Rosana Caramaschi baseada na necessidade concreta de difusão da ópera.


Há algumas semanas, na turbulência de ensaios e preparação de estreias, o Antônio Rodrigues me propôs que escrevesse um texto para o Movimento.com apresentando a Ópera Curta e, claro, por respeito ao espírito do blog e aos seus leitores, jamais poderia enviar um extrato dos releases e materiais de divulgação típicos de projetos deste porte. Daí o hiato, com a tal apresentação somente após o início da temporada de 2012, e tão tardios os agradecimentos pelo espaço concedido.

A Ópera Curta já está numa fase de pré-adolescência, considerando que suas origens já têm alguns anos e que de continuidade efetiva já se vão quatro anos de trabalho intenso.

Como sabemos, a ópera é um gênero historicamente presente no Brasil o que é confirmado pela infraestrutura instalada em praticamente todas as capitais e inúmeras cidades do país para a apresentação de espetáculos desta natureza, sendo inúmeros os registros históricos de temporadas durante longos períodos nos estados. Considerada a extensão territorial e o número de municípios, percebe-se que a ópera está longe de ser uma prioridade nacional, muito embora sejam muitos os teatros construídos com esta afinidade.

Novos teatros municipais e privados, de um modo geral, buscam contemplar a possibilidade de se realizar ópera e outros tipos de espetáculos. Esta perspectiva deixa claro que outros fatores não estruturais intervieram no processo em determinado momento histórico, reduzindo a atividade regular da ópera no Brasil, no século XX, pretendendo-se hoje novas possibilidades futuras de expansão e desenvolvimento.

O que melhor caracteriza a ópera é o fato de se tratar de um espetáculo de teatro musical ao vivo que se viabiliza utilizando todo o conhecimento relativo às demais artes, do teatro propriamente dito à literatura, passando pela dança, pintura, escultura, pelo circo e outras artes performáticas, pela arquitetura, cenografia, artes decorativas, cinema. Para a conclusão de um espetáculo são necessárias intervenções profissionais de várias áreas do conhecimento o que também transforma a ópera em efervescência de ideias e virtuosismo à disposição de inúmeras atividades culturais e não culturais.

O conteúdo teatral nos espetáculos de ópera remete basicamente ao comportamento humano, ora trabalhando mitos e lendas, ora as relatividades sociais e de costumes, ou ainda a vida cotidiana com suas dificuldades afetivas, de relacionamento, em que preponderam as atitudes mais comuns tais como a inveja, o ódio, intrigas. O ser humano é desnudado na ópera por inúmeras circunstâncias. São as relações políticas, sociais, psicológicas que determinam seu conteúdo e, ao mesmo tempo, refletem hábitos e costumes de determinados períodos históricos, permitindo ilações que ampliam o conhecimento e o escopo do saber cultural.

Além disto, através da sua música, a ópera é forma de expressão presente em diversas manifestações artísticas e culturais tais como cinema, novelas, aberturas de programas de rádio e de televisão, filmes, além de possuir forte presença na publicidade, sendo, portanto, um conteúdo cultural cotidiano que, muito embora não seja reconhecido como tal por uma gama complexa de razões, é assimilada como instrumento formador da identidade. Na publicidade, por exemplo, são incontáveis os anúncios que se apropriam de temas de ópera (sinfonias, aberturas, árias, duetos, etc.) para venderem os mais variados produtos, do primeiro sutiã à pizza congelada.

Sempre que a publicidade deseja criar uma atmosfera de sofisticação, inteligência, bom gosto, exclusividade e paixão exacerbada, tem a ópera como uma ferramenta criativa adequada. Ao mesmo tempo, no cinema, o teatro de ópera é um tradicional ponto de encontro sofisticado e, apropriando-se da sua característica mais popular, é durante os espetáculos de ópera que nos roteiros se acentuam as tramas políticas, os assassinatos dos chefes de estado, as traições e fugas espetaculares. Não é à toa que um dos musicais mais populares de todos os tempos, O Fantasma da Ópera, tenha como tema central os porões da Ópera Paris-Garnier.

Tudo isto e mais representam ideias e informações que precisam ter acesso facilitado, sabendo que a Cultura é um dos Direitos Fundamentais do Homem ao lado da Educação, Saúde e Meio Ambiente em equilíbrio.

Ao mesmo tempo em que estas questões – digamos históricas e de realidade incontestável – se afirmaram como primárias para uma proposta de futuro, outras se impuseram  a partir da avaliação subjetiva e da observação do conteúdo disponibilizado ao público em geral.

Além dos espetáculos de ópera limitados a São Paulo, Rio de Janeiro, ao Festival de Manaus e algumas poucas iniciativas em fase de desenvolvimento, o gênero se distribui nos recitais, vesperais líricas, as chamadas ópera-estúdio e as “pocket opera” nada parecidas com a companhia de Donald Pippin criada em 78 ou a companhia inglesa (93), apenas emprestando o nome, bem ao gosto tupiniquim.

Os recitais são corriqueiramente baseados em ensembles de instrumento(s) e canto, para iniciados na sua maioria. Convenhamos que não é simples assistir a um recital quando não se conhece a linguagem.

As vesperais, óperas-estúdio e as “pocket opera” são variações de um mesmo tema, ora para preencher horários ociosos de teatros ocupando os corpos estáveis, ora desenvolvendo projetos práticos para alunos de escolas de música, ou, finalmente, com espetáculos reunindo cantores, com piano, com certa estrutura de figurinos, ocupação de espaços, alguns objetos de cena.  Todas iniciativas necessárias e algumas bem sucedidas quanto aos objetivos.

Repensando os recitais, criamos uma série inicialmente denominada Música Com Texto, com espetáculos de teatro musical envolvendo cantores, músicos e atores, com cenários, figurinos, legendas e projeto de luz, trabalhando texto de apresentação de compositores e do ambiente criativo à sua volta, destacando poetas, escritores, pintores, filósofos etc. Para a direção musical dos espetáculos convidamos Luís Gustavo Petri que não só viabilizou transcrições quando necessário, como também acrescentou achados sofisticados da história da música que ampliaram o conceito original.  Os primeiros espetáculos trabalhavam a visão do Moderno a partir de Debussy, Mallarmé, Oscar Wilde, Toulouse-Lautrec, elaborando o acesso às canções, às árias de ópera e operetas, às czardas húngaras. Esta série permitiu uma experiência inovadora com o apoio do SESC-Santana (São Paulo) e, reformulado e ampliado, nesta nova fase, é um instrumento importante de formação e educação para as artes.

Cientes de que o desenvolvimento da ópera no Brasil somente será possível se houver aumento de demanda de espetáculos e, por consequência, a reativação de espaços já existentes, acrescidos da construção de novos teatros, identificamos a necessidade estratégica de facilitar o acesso à informação do que é ópera e criar um formato palatável para as plateias em formação e que não colidisse com as ideias dos amantes do gênero, muitas vezes conservadoras. Assim, nasceu a série Ópera Contada e Cantada, uma espécie de subtítulo aos nomes dos espetáculos de teatro musical baseados em óperas famosas, que denominamos de Ópera Curta.

Estas duas séries são o guarda-chuva dos espetáculos de uma tour company denominada Companhia de Ópera Curta organizada como decorrência do modelo de espetáculos criado por mim e por Rosana Caramaschi e com a participação intensa de Luís Gustavo Petri, convidado a assinar a direção musical.

O primeiro espetáculo da Companhia foi baseado na ópera Madame Butterfly. Sempre insistimos na difusão do conceito de que a Ópera Curta não é um espetáculo de ópera, mas de teatro musical baseado na ópera. Isto, porque essencialmente são espetáculos de difusão da linguagem e não queremos que o público, que tenha acesso às nossas produções, tenha a falsa ideia de que viu a ópera. Além disto, os espetáculos têm como característica uma dramaturgia própria.

Ao criarmos os espetáculos, procuramos introduzir elementos que conduzam ao entendimento do que é a ópera original e acrescentar informações que também interessem aos aficionados que conhecem o gênero. Para isto, são utilizadas as mais diversas referências que contribuam para o resultado final, sejam a literatura que deu origem à ópera, as questões geopolíticas correlacionadas, aspectos psicológicos e comportamentais dos personagens.

É propósito da série contribuir para o que chamamos de alfabetização para as artes e para isto é natural que cruzemos informações obtidas nas artes plásticas, na literatura, na filosofia e outras fontes de pensamento, incluindo estas possibilidades seja na dramaturgia, na cenografia ou mesmo nos figurinos do espetáculo.

Na produção original de Madame Butterfly – a ópera contada e cantada, a personagem Suzuki é quem contava a história da jovem Cio Cio San. Depois disto, já criei uma nova versão, ainda não encenada, sob o ponto de vista do filho de Butterfly, contando a história da mãe, os preconceitos que viveu nos Estados Unidos antes e após a morte do pai e sua mulher Kate Pinkerton num acidente de carro.  A trajetória do jovem Jonathas Pinkerton funcionará perfeitamente para a narrativa da tragédia de sua mãe.

Em Carmen – a ópera contada e cantada, tudo acontece num bar temático (Bodega Lillas Pastia) em Sevilha, no século XXI, onde o jovem Lillas, 6ª geração dos Pastia, clientes e empregados contam a história da cigana e sua relação com D. José, utilizando mesas, cadeiras e toalhas para modificarem os espaços, criarem cadeia, montanha, ruas da cidade.

Na versão de La Traviata, um novo personagem – um pintor – interage com os demais personagens, favorecendo a introdução da pintura de Balthus, Van Gogh, Vermeer. Convivem aqui o tradicional e o contemporâneo.

Finalmente, em La Bohème – a ópera contada e cantada, a nossa produção de 2012, que circula em conjunto com Carmen e La Traviata, todos os personagens, de um modo ou de outro, interferem, comentam a história, dão seu ponto de vista.

Ao criar o texto de La Bohème e propor os cortes musicais do original, por exemplo, procurei estabelecer uma relação íntima entre o humor de Puccini, a dramaticidade de Murger (Scènes de la vie de bohème) e reflexões próprias acerca das relações afetivas impressas no texto e subtexto da ópera. O conjunto criado com Rosana e, posteriormente, acrescido da escrita brilhante de Luís Gustavo Petri para piano, violino, cello e flauta, ganha ainda a cenografia que utiliza algo em torno de 130 elementos, o figurino arrojado com mais de 80 peças que o compõem (lembremos que são vestidos 4 cantores, 2 atores, 4 músicos e 3 técnicos), a  iluminação que inclui os novos refletores de Led e subtítulos projetados em português.

Tudo isto é conceitual dos espetáculos de ópera curta. Como é conceitual trabalhar com profissionais experientes, sem deixar de avançar com outros em fase de desenvolvimento de carreira. Há uma ênfase muito forte na preparação dos cantores, exaustivamente desenvolvendo suas capacidades como intérpretes da música e do texto teatral. Desta maneira, por exemplo, são impagáveis em La Traviata os monólogos de Sebastião Teixeira ou Leonardo Pace como Germont, ou a “resposta ao pai” como chamamos, de Miguel Geraldi e Jean Nardoto. Ou mesmo o trio Gilberto Chaves(tenor), Vinicius Atique (barítono) e Alvize Camozzi (ator) em La Bohème.

É natural, no grupo, o convívio de Magda Painno, Laura Aimbiré, Taís Bandeira com Manuela Freua, Gabriella Rossi, Laryssa Alvarazi, Massami Ganev, Marina Considera: experiência e qualidade servindo de modelo para mais experiência e mais qualidade.

Claro que uma iniciativa desta natureza só foi possível sendo realizada pelo Governo do Estado de São Paulo através de pessoas que compõem a sua Secretaria de Cultura e que compreenderam a proposta apoiando-a incondicionalmente.

Em junho de 2012, inauguramos uma exposição (Expópera) na Galeria 1500 do Instituto Pensarte, a OS que executa o projeto de Ópera Curta para a Secretaria de Cultura. Criamos a exposição para contar a história da Ópera de forma resumida, a partir dos seus compositores e alguns fatos relevantes em paralelo, concluindo-a com imagens dos 4 anos de realização dos espetáculos de ópera curta.

Nesta temporada, estamos nos apresentando em mais de 30 cidades do Estado de São Paulo e esperamos que o futuro permita consolidar e ampliar este trabalho que, a nosso ver, é estratégico para o desenvolvimento da ópera e, em paralelo, para o aperfeiçoamento de jovens profissionais da área.

Cleber Papa, diretor e cenógrafo.

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A seguir, alguns vídeos do Youtube, elucidativos.

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1 Comment

  1. Parabéns, Cléber Papa, pelo belo texto sobre a ópera no brasil e pela sua participação nesta história.
    Ajunto apenas que a exposição ‘expópera’, na galeria 1500 metros, sede do Instituto Pensarte, sob sua curadoria, segue até o dia 10 de agosto próximo e que, sem dúvida alguma, vale uma visita.
    Saudações, px silveira!

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Cleber Papa
Dirige e desenvolve projetos e espetáculos de música popular e erudita, teatro, fotografia e de design. Produz e cria espetáculos e festivais de ópera, teatro e concursos de canto. Dirigiu e produziu óperas no Brasil e no exterior. Criou e dirigiu o Concurso Internacional de Canto Bidu Sayão, o Festival Amazonas de Ópera (1999 e 2000), o Festival de Ópera do Theatro da Paz (de 2002 a 2006).