CríticaLateralMúsica de câmaraRio de Janeiro

O último dos Romanov

Pianista russo Nikolai Lugansky faz extraordinário recital no Rio de Janeiro.

 

Há fascínio e boatos envolvendo a dinastia Romanov, última família de czares a governar na Rússia Imperial. Um dos mais famosos refere-se a Anastásia Nikolaevna, filha do último soberano russo, o czar Nicolau II e da czarina Alexandra Feodorovna. A jovem teria sobrevivido à Revolução Bolchevique, em 1917, e estaria viva. Houve boatos de que a Grã-duquesa Anastácia viveria – Maria Feodorovna, mãe de Nicolau II, exilada na Dinamarca, entrevistava mulheres que diziam ser sua neta grã-duquesa. Pelo menos sete supostas Anastásias surgiram em vários países, sendo a mais recente Natalya Bilikhodze, de 95 anos, em 1995, e a mais famosa, a Anna Anderson (1900-1984), cuja verdadeira identidade era Franziska Schanzkowska, uma operária polonesa.

Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas – o derradeiro representante da realeza russa, na verdade, é um músico vivo: o pianista Nikolai Lugansky. Aos 46 anos, o outrora menino-prodígio do piano abriu a série O Globo/Dell’Arte Concertos Internacionais com recital solo no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 20 de março.

Enquanto a Cinelândia se incendiava em justa manifestação pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, aos clamores de Marielle, presente! e Fora, Temer!, amantes da música clássica adentraram a suntuosa sala de veludos e dourados. As pesadas cortinas deixaram a quase insuportável realidade do lado de fora e conduziram a plateia a um território mágico de silêncio, no qual o belo pianista e seu instrumento estariam prestes a nos impelir a um mundo encantado.

Lugansky é um dos melhores pianistas da atualidade, dono de uma técnica assombrosa. Na primeira obra do programa – Kinderszenen, Op. 15 (Cenas Infantis), de Robert Schumann –, já se revelou a abissal profundidade de sua interpretação: contida, precisa, suave, intensa. A coleção de miniaturas musicais, de 1838 – descritas pelo próprio compositor como “concebidas para uma criança grande” como “recordações para pessoas que cresceram” –, é de uma graça simples, jamais fácil. Entregue sem pudores ao teclado, o pianista tocou-as com pungente delicadeza. Os acordes às vezes parecem quase inaudíveis, mas estão presentes e são fundamentais para a atmosfera intimista. Na famosa Träumerei (Devaneio), Lugansky parecia deixar as notas – e a atenta plateia – em estado de hipnótica suspensão, como o eco dos sons que vão, aos poucos, dissolvendo-se no ar.

O fraseado irretocável de Lugansky prosseguiu Romantismo adentro em Barcarola em fá sustenido maior, Op. 60, de Frédéric Chopin (escrita em 1846). Os arroubos pertinentes ao estilo estavam ali, mas expressos com grande elegância – o artista tem o dom de, com técnica precisa e fluente suavidade, abraçar com enorme refinamento as demandas estilísticas das obras que interpreta.

Sua leitura da peça seguinte do repertório – a Balada n. 4 em fá menor, Op. 52, também de Chopin, composta em 1842 – reafirmou essa característica do intérprete e foi além, revelando camadas de possibilidades interpretativas e acrescendo novas cores a essa partitura única, apaixonada e misteriosa, na qual melancolia e desejo se misturam em um turbilhão intenso de emoções. Nikolai Lugansky a tocou de forma arrebatadora.

 

Conterrâneos

Um breve intervalo e o rugido do mundo real se deixou entrever por entre as paredes do centenário teatro. No retorno à sala, pianista russo e compositor russo se encontraram. De Serguei Rachmaninov, foram apresentadas peças selecionadas dos Prelúdios, Op. 23 e 32 (compostas no começo do século 20 e integrantes do repertório do novo álbum de Lugansky, lançado este ano).

Temperamentais e líricas, as peças ganharam fraseado límpido e garboso nos dedos do artista da noite, que, virtuosisticamente, desenhou um mosaico multicor de imagens russas, de crescente complexidade. Pianista e compositor, unidos para além da nacionalidade, compartilham uma intensidade de sentimentos que nunca é sentimental – ao contrário, uma silenciosa melancolia que se expressa na música. A cada acorde martelado do Morceaux de fantaisie, Op. 3, n. 2, um suspiro de amor ardente ou de lancinante saudade.

Com impressionante técnica, o pianista venceu os desafios da partitura sem, por um minuto sequer, perder a intenção da música, sua essência, seu sussurro mais íntimo. Sozinho e concentrado na enorme ribalta, entregou-se a um verdadeiro tour-de-force musical, no qual as armas eram a memória, os dedos, a técnica e a emoção – sem perder uma gota de lirismo. Eletrizada, a plateia mal conseguia respirar – até que veio o acorde final e a ovação desmedida, calorosa, que trouxe o artista várias vezes de volta ao palco para agradecer. Nikolai Lugansky é, definitivamente, um dos últimos e mais verdadeiros representantes da nobreza russa.

 

Foto: Alexander Rodrigues

 

Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com