CríticaÓpera

O triunfo de Nabucco

Produção de muito bom nível valoriza parceria entre importantes teatros.

Ópera em quatro atos e sete cenas de Giuseppe Verdi, sobre libreto de Temistocle Solera, com base no Antigo Testamento e no drama Nabuchodonosor, de Francis Cornue e Auguste Anicet-Bourgeois, Nabucco é a segunda ópera da temporada 2011 do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Verdi vivia um momento delicado em sua vida quando o libreto de Nabucco chegou às suas mãos.  Sua primeira esposa e seus dois filhos haviam morrido e sua segunda ópera, a comédia Un Giorno di Regno, fora um enorme fracasso.  Desgostoso e sem motivação, o então jovem compositor chegou mesmo a pensar em abandonar a música.  Tudo, no entanto, começou a mudar quando o empresário do Teatro alla Scala, Bartolomeo Merelli, sugeriu-lhe uma nova ópera sobre libreto de Solera.

Verdi inicialmente recusou a encomenda, mas diante da insistência de Merelli acabou aceitando musicar o libreto.  Nacionalista ferrenho, não resta dúvida de que aquele que se tornaria o mestre máximo da ópera italiana tinha se inflamado pela semelhança entre a situação do povo hebreu, escravizado por Nabucodonosor II, e aquela dos italianos, então sob domínio austríaco.

Nabucco, definitivamente, não é uma obra-prima.  Ainda assim, algumas características que marcariam a carreira de Verdi já podiam ser identificadas nesta ópera, como por exemplo a sua capacidade para criar melodias cativantes e a bem delineada caracterização psicológica de personagens, que aqui observamos sobretudo na figura de Abigaille.  E lá pelas tantas, no terceiro ato, quando o coro entoa o Va’, pensiero, qualquer dúvida por ventura ainda existente é dissipada: o gênio de Verdi definitivamente havia sido despertado – gênio que, mais tarde, daria ao mundo Rigoletto, Il Trovatore, La Traviata, Don Carlo, Aida, Otello, Falstaff e tantas outras joias.

O primeiro destaque da produção que ora sobe ao palco do Theatro Municipal do Rio é a parceria entre importantes teatros brasileiros, em especial o próprio Municipal e o Palácio das Artes de Belo Horizonte, gerido pela Fundação Clóvis Salgado e onde a ópera estreou em junho.  Tal parceria, que também envolve o Municipal de São Paulo na cessão de alguns figurinos, é a meu ver essencial num país como o Brasil, onde as produções líricas são quantitativamente bem inferiores a um mínimo aceitável.  Devido a esta parceria, segundo informações já divulgadas na imprensa, este Nabucco seguirá para Manaus e São Paulo no próximo ano.

A concepção atemporal de André Heller-Lopes para a ópera de Verdi, baseada mais nas relações humanas, é simples, mas ao mesmo tempo inteligente, criativa e funciona muito bem no palco.  Algumas poucas liberdades tomadas pelo diretor em relação a rubricas do libreto não comprometem em nada o entendimento da obra.  É bastante perceptível seu cuidado na direção dos solistas, e digo mais: uma simples comparação entre a boa movimentação do coro nesta montagem e a total falta de mobilidade em outras produções do próprio Municipal (Trovatore ou Lucia, para citar os fracassos cênicos mais recentes) mostra que quem está no comando entende alguma coisa de ópera – ao contrário de outros diretores de ocasião, que não entendem nada do assunto e só sabem inventar modas descartáveis.

Bom seria se esses tais “diretores” fossem conferir o Nabucco de Heller-Lopes.  Quem sabe não aprenderiam que a falta do luxo pode ser compensada, muitas vezes, com um mínimo de criatividade e inteligência.  E é bom frisar que criatividade não deve ser confundida com invencionice.  Enquanto esta se refere a ideias estapafúrdias provenientes da falta de conhecimento do assunto em questão, aquela está diretamente ligada à capacidade dos profissionais para encontrar soluções cênicas adequadas aos desafios que lhes são impostos.

Outro fator preponderante para o sucesso de uma produção são os bons profissionais que circundam o diretor.  Os cenários de Renato Theobaldo podem parecer bastante simples, mas ao mesmo tempo são funcionais, criativos e causam um efeito visual muito bonito quando enriquecidos pela luz precisa de Fábio Retti.

Os figurinos de Marcelo Marques seguem quase sempre bem a linha atemporal da montagem, obtendo melhor resultado nas vestes femininas que nas masculinas.  Apenas as máscaras utilizadas por soldados babilônios, sobretudo as pretas, destoaram do nível geral, causando efeito desagradável.

A produção de Heller-Lopes merece elogios ainda pela não contratação de um coreógrafo para uma ópera que não precisa de coreografia.  Talvez o leitor ache isso algo muito óbvio para merecer elogios, mas é que não é esta a tendência no Municipal do Rio.  No teatro de ópera do Rio de Janeiro, recentemente, coreógrafos foram pagos para ensinar o coro a dar passinhos para o lado, ou então para preparar figurantes sem função alguma para executarem gestos vazios e que não serviam para absolutamente nada.  Diante desta tendência, os elogios se fazem sim necessários.

Na récita do dia 21 de julho, o tenor Jacques Rocha (Abdallo) e o baixo Carlos Eduardo Marcos (Grão-Sacerdote de Baal), ainda que tenham enfrentado alguns problemas de projeção, não comprometeram.  Sempre bem esteve a soprano Celinelena Ietto (Anna).  Já o tenor Marcos Paulo foi um Ismaele correto e, sem grandes árias para enfrentar, foi bem nos números de conjunto.

Depois de tanto tempo longe das montagens cariocas, foi um enorme prazer receber de volta ao Rio de Janeiro a mezzosoprano Denise de Freitas, que compôs uma ótima Fenena.  Dona de uma voz quente, sempre bem projetada, Denise ofereceu no último ato uma linda interpretação de sua ária, Oh, dischiuso è il firmamento.

O barítono Rodrigo Esteves emprestou sua figura a Nabucco.  Com a voz segura e precisa que lhe é característica, o solista não teve maiores dificuldades como o protagonista.  Suas melhores passagens foram o dueto com Abigaille no terceiro ato, Donna, chi sei?, e ainda a ária e a cabaletta do quarto ato, respectivamente Dio di Giuda! e Cadran, cadranno i perfidi.

O baixo Sávio Sperandio teve excelente desempenho como o profeta Zaccaria.  Ainda que aqui ou ali o extremo de seu registro grave tenha sofrido um pouco, o desempenho geral do solista foi bastante satisfatório.  Convincente cenicamente, Sávio enfrentou bem, com sua habitual competência, esta que é uma das partes mais exigentes para o registro de baixo no repertório verdiano.

Outra parte extremamente exigente, aquela de Abigaille foi enfrentada pela grande soprano Eliane Coelho.  Por ser uma parte que exige desde passagens de agilidade até momentos extremamente dramáticos, é quase impossível encontrar uma cantora que dê conta de tudo isso e que esteja disponível no mercado.  No panorama das vozes brasileiras em atividade (lembro que a montagem não contou com convidados do exterior), não enxergo, no momento, ninguém mais qualificada que Eliane Coelho para interpretar Abigaille.

Por isso, apesar das dificuldades enfrentadas pela solista, sobretudo quando exigida em termos de agilidade (como na cabaletta do segundo ato, bactrim ds acne Salgo già del trono aurato), seu desempenho geral me pareceu satisfatório.  Impossível não se encantar com suas qualidades de atriz, demonstradas durante toda a récita.  Vocalmente, seus melhores momentos foram o dueto com Nabucco, já citado acima, e sua cena derradeira.  Ainda sobre Eliane, méritos para o diretor André Heller-Lopes, que, certamente em reconhecimento à sua importância e à sua história, mandou-a para frente da cortina para ser ovacionada pelo público.

Nesta verdadeira ópera coral que é Nabucco, o Coro do Theatro Municipal também é protagonista, e o conjunto não deixou a desejar.  Preparado por Maurílio dos Santos Costa (titular) e Jésus Figueiredo (assistente), o Coro da casa mostrou toda sua capacidade expressiva.  Desde Gli arredi festivi até Immenso Jehovah (este cantado junto com os solistas quase todo a cappella), o que se pôde apreciar no Municipal foi uma verdadeira exibição, cujo ponto máximo, como não poderia deixar de ser, foi o popular, inspirado, saudoso e melancólico Va’, pensiero.  Pena que o público, apressadinho, aplaudiu antes da hora, o que fez com que todos perdêssemos o refinado final desta pérola verdiana.

Acompanhando tudo com esmero, a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal brilhou em muitos momentos da récita de estreia, a começar pela Abertura da ópera, que reúne algumas melodias apresentadas ao longo da trama.  Os solistas da orquestra, quando exigidos, corresponderam à altura.  Conduzindo-a, a batuta precisa de Silvio Viegas, que interpretou com muita competência e talento essa música visceral, às vezes bruta mesmo, deste Verdi ainda jovem, mas nem por isso menos apaixonante.  A valorização da força rítmica da obra foi um dos pontos altos do trabalho do maestro.

A passagem mais emocionante da estreia, pelo menos para mim, não foi o célebre coro dos hebreus, mas o ensemble do segundo ato S’appressan gl’istanti, no qual todos, Coro, Orquestra, maestro e solistas tiveram um desempenho extraordinário.  Ficou na memória.

Pelo exposto, fica claro que Nabucco, em cartaz até o dia 31 do corrente mês no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, merece uma visita.  Depois deste Verdi, a próxima montagem lírica do Municipal será Tosca, de Puccini, com estreia prevista para 10 de setembro, ocasião para a qual foi anunciada a soprano Sondra Radvanovsky, nada menos que a última Tosca do Metropolitan.  A conferir.

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7 Comments

  1. Sr. Leonardo Marques, gostaria de parabenizá-lo por seu trabalho ao longo desses anos.
    É notória, analisando seus textos, a capacidade feliz que o senhor tem de elaborar críticas lúcidas e construtivas, imparciais, de verdadeiro conhecimento de causa.
    Infelizmente, nem todos os críticos procuram por essa lucidez e resolvem por algum motivo qualquer, seja frustração, infelicidade interior ou alheia, denegrir, ofender, desrespeitar a imagem do artista que está lá se empenhando ao máximo para levar ao público a sua arte.

    Eliane Lavigne

  2. Cara Eliane Lavigne, agradeço de coração por suas palavras. Imparcial é o que eu tento ser o tempo todo em meus textos, pois se assim não fosse, que valor eles teriam?

    O crítico também erra, eu já errei bastante, principalmente quando comecei a exercer essa função, talvez por inexperiência. Ao longo do tempo, tenho tentato cortar os excessos e me concentar no essencial, sempre pautando-me no respeito aos artistas, sem no entanto deixar de ser duro com os erros crassos, quase sempre cometidos por gente que só vai à ópera quando é para ganhar cachê…

    Um grande abraço e obrigado por seu comentário,

    Leonardo Marques.

  3. Estimado Sr.Leonardo Marques, foi com gratificação que li sua crítica. Sua avaliação sobre Nabuco é coincidente com a minha após ter assistido às duas récitas de quinta e sábado passados.
    Não sou artista, apenas apreciador de ópera, mas lamento sempre críticas desmedidas e destemperadas como a que li sobre Nabuco no segundo caderno de O Globo.
    Nesta apresentação de Nabuco, saí do TM de alma lavada com a beleza da montagem e desempenho de todos os artístas, cantores, e músicos!

  4. Prezado Marcelo, agradeço por seu comentário e suas palavras. Fico feliz que você tenha concordado com a minha análise. Por questões éticas, prefiro não comentar a crítica do jornal O Globo.
    Aproveito a oportunidade para registrar que assisti a mais uma récita nesta quarta-feira, dia 27, ocasião na qual o público apreciou o “Va’ pensiero” até o finalzinho, só aplaudindo depois que o maestro desarmou, encerrando a passagem. Além disso, o famoso coro foi bisado, repetindo o que já ocorrera na récita anterior, conforme relatou Sergio Casoy aqui mesmo no Movimento.com, e na montagem de 1999.
    Bisar o “Va’ pensiero”, parece, é tradição carioca, embora eu não seja exatamente um partidário do bis em ópera.

  5. Parabenizo o conteúdo com grande elegância demonstrado aqui, elevando sempre a arte. Deixo meu registro, pois sou uma artista e sei bem como funcionam dentro de nós as criticas: são importantes para amadurecimento artístico, mas às vezes nos depreciam. Fico feliz em ler este post e ver o bom profissional que és. Não assisti ao Nabucco e somente discordo de uma coisa: no Brasil existem vozes sim para o papel de Abigail, basta apenas uma visão maior e oportunidades, que estamos tendo fora desta nossa terra. Deixo meu abraço e in bocca al lupo para o seu trabalho sempre
    Ana Paula Brunkow – opera singer

  6. Oi, Ana Paula.

    Não tenho dúvidas de que cantores brasileiros podem ter mais oportunidades em outros países do que no Brasil, com nossas temporadas mínimas. O meu comentário citado por você sobre a parte de Abigaille deveu-se, claro, às sopranos brasileiras que já ouvi. Talvez haja alguma realmente capaz, mas eu ainda não tive a oportunidade de ouvi-la.

    Um abraço e obrigado pelo comentário.

  7. Oi Leonardo, eu é que agradeço, espero que possamos nos encontrar ainda, um abraço e novamente digo que precisamos de críticos como você, que sabem escrever com elegância e respeito ao artista!!! Queria deixar aqui registrado meu profundo respeito por esta artista maravilhosa Eliane Coelho!!!
    Abraços

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com