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O templo da música de câmara: Wigmore Hall

Inaugurada em 1901 como Bechstein Hall, em homenagem ao grande fabricante de pianos alemão, Friedrich Wilhelm Carl Bechstein.

Esta sala de concertos ficava ao lado do “show-room” da filial da companhia, em Londres. Em seus primeiros anos, a sala apresentou os músicos mais famosos da época: Enesco, Sarasate, Caruso, Melba, Maggie Teyte, Artur Schnabel, Artur Rubinstein, Saint-Saens, Thomas Beecham, e muitos mais. Rapidamente, a sala ganhou a mais alta reputação, e passou a incluir na programação quartetos de corda e um grande número de recitais de cantores.

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, tudo mudou, e os bens de muitas companhias alemãs foram confiscados e leiloados, inclusive os dos Pianos Bechstein. Em 1916, a sala de concertos foi a leilão, e os 137 pianos do “showroom” foram leiloados. No ano seguinte, a sala retomou sua atividade de concertos, agora com o novo nome de Wigmore Hall, o nome da rua onde está localizada, Wigmore Street, no centro do West End de Londres. Naquela mesma temporada, o pianista Solomon se apresentou, aos 15 anos de idade. Ele voltaria a se apresentar ali, seis anos mais tarde.

Nesta nova fase, e depois de terminada a guerra, as temporadas apresentaram Cortot, Gieseking, Serkin, Casals, Segovia, Lotte Lehmann, Conchita Supervia, Elisabeth Schumann, o Quarteto Busch, o Quarteto Húngaro, e muitas outras celebridades, hoje lendárias. Seguiram-se premieres de obras de Bartók e Elgar, e apresentações de Prokofieve Hindemith.

Depois da Segunda Guerra Mundial, o Arts Council assumiu o contrato da sala, em 1946, inaugurando, assim, uma terceira fase. Nos próximos quinze anos, os artistas, hoje antológicos, ofereceram seus recitais, dentre eles Dinu Lipatti, Francis Poulenc e Pierre Bernac, Joan Sutherland, Christa Ludwig, Victoria de los Angeles, Elisabeth Schwarzkopf, Benjamin Britten e Peter Pears, o Amadeus Quartet, o Beaux Arts Trio, e Daniel Barenboim aos quinze anos, de calças curtas. E muitos jovens artistas desconhecidos. Alguns, galgaram a fama. Outros, desapareceram, sem deixar vestígios.

Em 1966, iniciando a quarta fase, que iria até 2003, o australiano William Lyne dirigiu a sala, introduzindo muitas inovações, incluindo concertos com temas, e concertos dedicados à obra de compositores específicos, Fala-se até hoje, por exemplo, da série de 22 concertos dedicados à obra camerística e vocal de Gabriel Fauré. Os concertos matinais de domingo, são populares até hoje.

Mais celebridades viriam a se apresentar: András Schiff, Graham Johnson e os cantores Felicity Lott, Ann Murray, Anthony Rolfe Johnson e Richard Jackson; Olaf Bär, Geofrey Parsons, Matthias Goerne, Thomas Quasthoff, Margaret Price, Jan Bostridge, Cecilia Bartoli, os Quartetos Lindsay, Takács, Hagen e Emerson. Para celebrar o centenário da sala, Lyne organizou um festival de 52 concertos, e um outro festival, de 43 concertos, para marcar sua própria jubilação.

Aposentado, Lyne foi substituído por John Gilhooly, o atual diretor, que comanda a quinta fase na história da sala. A primeira coisa que ele fez, foi comprar um contrato de longa duração, dentro dos moldes imobiliários britânicos, liberando, assim, o Wigmore Hall de pesados e onerosos contratos de locação. Dentre suas inovações, inclui-se uma série dedicada a compositores contemporâneos, uma seleta série de CDs, chamada “Ao Vivo, no Wigmore Hall”, vendida em muitos países.

E mais: a série de concertos de jazz, a série de concertos à meia-noite, um compositor residente, um quarteto de cordas residente, uma expansão na programação, com maior número de concertos, que aumentaram consideravelmente o movimento da bilheteria, grande aumento de adesões contribuintes aos Amigos do Wigmore Hall, um apelo à inclusão nos testamentos de benfeitores. Ele também substituiu as poltronas, modernizou a iluminação, instalou ar condicionado, ampliou o restaurante, assinou com a BBC um contrato de retransmissão, atualizou a tecnologia de gravações, e intensificou as campanhas de levantamento de fundos.

No plano artístico, Gilhooly tem promovido talentos novos, alguns dos quais se tornaram grandes nomes internacionais, tais como os cantores Alice Coote, Bernarda Fink, Mark Padmore,  Soile Isokoski, , Christopher Maltman, Joyce DiDonato, Gerald Finley, Simon Keenlyside e Iestyn Davies, os instrumentistas, Paul Lewis, Till Fellner, Alina Ibragimova, Alison Balson, Janine Jansen e Angela Hewitt, e os quartetos de cordas Arcanti, Belcea, Doric, Jerusalem e Artemis, e muitos outros nomes. Basta dizer que todo jovem cantor, pianista e camerista almejam se apresentar no Wigmore Hall.. E, geralmente, lá se apresentam.

O programa educativo é amplo e intensivo, tanto para adultos como para crianças. O status jurídico da entidade é Wigmore Hall Trust, entidade de benefício público, sem fins lucrativos, com diretoria, conselho consultivo e conselho fiscal. O novo projeto de apoio, está sendo a criação de “Os amigos americanos do Wigmore Hall”. Os projetos relevantes são: o comissionamento de novas obras por compositores contemporâneos, a competição de quartetos de cordas, e a competição de canções de arte, todos eles projetos internacionais. A temporada vai de setembro a julho, com quase 700 concertos. Agosto é o mês de férias.

A sala, com 600 lugares, tem, além da plateia, um balcão, no fundo, ao alto, e é famosa por sua acústica perfeita. Ela é um projeto do premiado arquiteto Thomas Edward Collcutt (1841-1924), também designer de móveis, hoje no acervo dos grandes museus. Autor de projetos antológicos, este é dos seus melhores. A cúpula sobre o palco foi concebida por Gerald Edward Moira (1867-1959), que trabalhou com Collcutt em vários projetos. A bela pintura da cúpula foi feita por F. Lynn Jenkins, e simbolisa “A humanidade que almeja chegar à grande voz da natureza”, que tem em suas mãos o Gênio da Harmonia, uma bola de fogo eterno, cujos raios iluminam o mundo. As paredes da sala são painéis de mógno, os pilares e a escadaria são de mármore da Sicília, e o corrimão, de alabastro.

Por todas essas razões, o Wigmore Hall é uma entidade ímpar, um verdadeiro templo da música de câmara, e da canção de arte.

 

Este artigo só foi possível graças à pesquisa histórica de de Julia MacRae. A ela, meus agradecimentos.

 

Para mais informações, acessem http://www.wigmore-hall.org.uk/

 

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José Neistein
Formado em Filosofia na USP e em Viena. Conferencista em universidades da Europa e das Américas. É membro das associações nacional e internacional de críticos de arte, com vários livros publicados. É crítico de arte, música, literatura, teatro e ópera.