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O sonho de cantar da Broadway

Entrevista com Pedro Coppeti, um dos mais relevantes nomes brasileiros do Teatro Musical em Nova Iorque.

Formado em Teatro Musical pela AMDA (American Musical and Dramatic Academy) em Manhattan, Pedro tem se apresentado nos mais destacados locais de concerto da capital norte-americana, como Town Hall – um palco de concertos da Broadway localizado na Times Square – 54 Below, Lincoln Center, Carnegie Hall, entre outras.

CONFIRA A ENTREVISTA!

Pedro, és hoje um dos mais destacados nomes nacionais do Teatro Musical no exterior, fala um pouco da tua trajetória antes de ir para Nova Iorque.

Comecei meus estudos de canto com o barítono Carlos Rodriguez, em 2009, e dou continuidade a essas aulas até hoje. Toda vez que volto ao Brasil, para visitar ou a trabalho, certifico-me de marcar uma lição com ele. Passei a estudar Canto Lírico na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde trabalhei com a professora Caroline Abreu e tive a oportunidade de participar de diversas masterclasses líricas com instrutores diversos como Linus Lerner, Carla Maffioletti e Carlo Colombara.

Em 2012, tive a minha primeira experiência com o teatro musical quando interpretei José, um dos personagens principais, no musical “Brasil em Revista”, produzido por Cynthia Geyer com a escola Estação Musical. Nessa jornada, tive a oportunidade de trabalhar com o diretor Miguel Briamonte e com a atriz Samantha Caracante.

Em 2013, fui selecionado para ser solista do espetáculo Nativitaten, do Natal Luz de Gramado, e, após o ocorrido, fui convidado a me apresentar com a Orquestra Sinfônica de Gramado diversas vezes. Em 2014, fui convidado pelo maestro e compositor Arthur Barbosa para interpretar o personagem Aureliano no musical “Chimango”, acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, no Theatro São Pedro.

Conta-nos como foi o curso de Teatro Musical da AMDA (American Musical and Dramatic Academy, em Manhattan, no qual te formaste. Qual a importância deste curso no cenário local e o que ele inclui como formação para o artista deste gênero?

INTENSO é a palavra para descrever esse curso! Houve dias em que eu tinha 8/10 horas de aulas e, após isso, tinha que ficar no conservatório por mais algumas horas ensaiando os requerimentos dos professores para as aulas do dia seguinte. Era obrigatório chegarmos com as cenas/músicas de uma forma mais polida na próxima aula. Então, foram muitas noites mal dormidas e poucos fins de semana de folga…ahahahaha!

Acredito que o curso da AMDA me moldou como um bom profissional e também para os costumes norte-americanos. Um exemplo de discrepância que percebi com a nossa cultura brasileira é a pontualidade. Se um aluno chegasse 10 segundos atrasado para a aula, ele ficava para fora, e a nota final dele caía uma letra instantaneamente (de A para B, B para C, etc.).

Isso era um regulamento porque aqui, caso você chegue atrasado para um compromisso no campo, como uma audição, você não vai ser visto. E, provavelmente, nunca mais vai conseguir um horário com o mesmo diretor de elenco para outra audição na qual o mesmo estará atrás da mesa avaliadora. Regra da AMDA: se você chegou cedo você está no horário, se você chegou no horário você está atrasado, se você chegou atrasado você está demitido!

Sim, nos meus tempos de Europa era parecido com isso… Pedro, tu representaste a AMDA no concerto “Broadway Rising Stars 2016”, evento ocorrido no Town Hall, um palco de concertos da Broadway localizado na Times Square, onde te apresentaste com outros 17 selecionados das melhores universidades dos Estados Unidos, entre elas, Juilliard, NYU, Marymount, Carnegie Mellon. Conta pra nós como foi essa experiência. O que cantaste?

Foi incrível a sensação de estar me apresentando no mesmo palco que já foi cenário de concertos de vários dos meus ídolos do teatro musical. Andrew Lloyd Weber, Jason Robert Brown, Stephen Sondheim, Jonathan Groff, Ramin Karimloo, Corbin Bleu, Shoshana Bean, Norm Lewis, Megan Hilty, Jessie Mueller, Kelly O’Hara, Jeremy Jordan, Audra McDonald e muitos outros usaram aquele mesmo microfone! Loucura pensar nisso e saber que fui o primeiro gaúcho a solar naquele palco.

Todo ano os chefes de departamento da disciplina de teatro musical de cada universidade/conservatório selecionam de 10 a 15 alunos que se destacaram durante o curso para audicionar para o evento Broadway Rising Stars. Eu fui um dos 15 alunos nomeados pela AMDA e acabei passando na audição e sendo selecionado, por Scott Siegel, junto a Rachel Dickson e Caleb Adams para representar a escola, no Town Hall.

Apresentei a música “I am Aldolpho”, do musical “The Drowsy Chaperone” e fechei o primeiro ato da noite. O concerto comemorou sua décima edição naquele ano e contou com a participação de outros 14 atores de teatro musical selecionados e vindos de outras instituições. Foi uma experiência inesquecível para todos nós e para a plateia de 1.500 pessoas que lotou aquele teatro belíssimo.

Que fantástico! Parabéns pelo grande feito! Seguindo tua trajetória, foste solista convidado pela Terra Symphony Orchestra, em concerto no qual outro brasileiro também estava presente como regente da orquestra: o maestro Arthur Barbosa, compositor do musical Chimango. Como surgiu esse convite? O que cantaste neste concerto?

Essa foi uma experiência muito legal, pois foi a primeira vez que eu tive a oportunidade de cantar música brasileira nas terras norte-americanas. Como mencionado antes, fui um dos solistas do musical Chimango, escrito e regido por Arthur Barbosa em 2014, e naquela época trabalhamos muito bem juntos e ele se tornou um amigo muito querido.

Certo dia ele me mandou uma mensagem falando que iria reger um concerto com a Terra Symphony Orchestra aqui em NY, no Dimmena Center for Classical Music, e me convidou para ser o convidado especial da noite. Claro que eu disse sim! Acabei cantando “Faz Parte do Meu Show”, do Cazuza e “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso e também interpretado por Caetano Veloso, João Gilberto e Gilberto Gil.

O maestro Arthur Barbosa, além de violinista da nossa sinfônica e regente da Ospa Jovem, é um dos mais prolíficos compositores do nosso Estado atualmente. Pedro, em 2017, tu recebeste uma indicação para o prêmio de melhor ator coadjuvante por “Occasion for Sin”. Conta pra nós como foi isso?

“Occasion for Sin” foi um musical original, com música e direção musical de Oriente Lopez (vencedor de vários prêmios Grammy), no festival “Planet Connections”, de NY. O show trata da história da inquisição espanhola e sua relação com o Peru. Passei na audição para o show e fui escolhido pelo próprio Oriente pra fazer o personagem Vega, o herói da história.

Foi um show muito legal de se fazer. A música era ótima e o elenco era supertalentoso! Recebi um e-mail da direção do musical com a notificação de que eu havia sido indicado pela equipe organizadora do festival para o prêmio “Planet Connection” de Melhor Ator Coadjuvante. Quando vi a reportagem, no site broadwayworld.com, fiquei sem palavras. Foi uma honra e totalmente inesperado!

Deve ser maravilhoso e muito enriquecedor poder viver um pouco da cultura de outros países hermanos da América do Sul! Além do Town Hall, tu também te apresentaste em outras casas de prestígio, como 54 Below, Lincoln Center, Carnegie Hall. Fala um pouco sobre essas experiências.

O 54 Below, sem sombra de dúvida, é um dos meus lugares favoritos para me apresentar. Já fiz diversos shows lá! É o local em que grande parte de cantores e atores bem-sucedidos da Broadway acabam gravando seus CDs e DVDs para comercialização – conheci muitos deles cantando lá!

Minhas experiências no Lincoln Center e no Carnegie Hall também foram incríveis. Nesses dois casos especificamente, cantei como parte do coro para fazer a base das apresentações de estrelas da Broadway que atuaram como solistas! Foi uma honra incrível ser chamado para fazer parte desses projetos. Lembro que, quando eu entrei no Carnegie Hall, só pensei “Uau”.

Nossa, pisar no palco de dois templos maiores da música mundial é um marco na vida de qualquer um! Pedro, tu também estiveste em turnê nos EUA cantando em “A Bela e a Fera”, em 2017, e “You’re a Good Man, Charlie Brown”, em 2018. O primeiro já é um musical bastante conhecido, mas o segundo, que imagino tenha a ver com o famoso cachorrinho Snoopy, é uma produção mais moderna. Fala um pouco sobre os dois musicais e tua participação nos mesmos.

Passei na audição para a turnê educacional de “A Bela e a Fera”, uma versão readaptada para crianças e adolescentes, com uma visão mais moderna da sociedade atual. Apresentamo-nos em várias escolas e teatros em diversos estados do sul do país, como Louisiana (Nova Orleans), Georgia, Mississipi, Alabama e mais. Foi uma experiência muito legal, porém cansativa, pois normalmente ficávamos apenas um dia em cada cidade e viajávamos durante as madrugadas.

Quanto ao segundo, você está certo! Ao lado de Snoopy e Charlie Brown, eu interpretei o personagem “Linus Van Pelt”, o nerd que não larga de chupar o dedo e do seu cobertorzinho azul. O musical, originalmente, já contava com adultos, como Kristin Chenoweth, interpretando as crianças e fez parte de uma das temporadas da Broadway, vencendo vários prêmios Tony. Foi muito gratificante fazer um papel tão importante em um show de roteiro tão simples, porém com vários significados e verdades escondidas pela comédia. Participei dessa produção no estado de Maine, no norte do país.

Toda vez que ouço falar em Maine, lembro do consagrado autor de livros de terror Stephen King – ele é natural de Portland e criou a fictícia cidade Derry (ambas situadas neste Estado), na qual se passa boa parte de suas histórias…mas aí já me desviei da nossa conversa…ahahahaha! Também foste a voz de Tom Jobim no musical Tap&Tom, espetáculo que combinou os maiores clássicos da música de Jobim e sapateado. Como se deu esse convite? Como foi a repercussão do espetáculo em Nova Iorque?

O Tap&Tom foi um espetáculo produzido pelo sapateador Felipe Galganni, originalmente de São Paulo, mas que atualmente reside em NY. Sendo ele um grande fã de Tom Jobim, teve a ideia de unir suas duas paixões – as composições do maior músico popular brasileiro em referência internacional e o sapateado. Em parceria com Carlos Bauzys, diretor musical que já conquistou o maior prêmio do teatro brasileiro, o famoso Bibi Ferreira, procurou os talentos brasileiros que residiam em NY e achou o meu perfil no site “Backstage”.

Após isso, mandaram-me um e-mail com a proposta, falando que o meu material e currículo se destacaram e me convidaram para fazer a voz masculina do show. O show foi executado no teatro Off-Broadway “Players Theatre” e tivemos reportagem sobre o show no Brasil, aqui e até no Japão! Meus amigos que assistiram, brasileiros ou não, sempre me perguntam se o Tap&Tom vai acontecer novamente.

E por falar em musicais brasileiros, contas com mais um na tua lista: “Out Of Water”, o primeiro musical brasileiro traduzido para a língua inglesa, no qual fizeste o papel de Charles, em 2019. Como foi essa experiência? Como se deu o convite?

O “Out of Water” foi um processo de audição. Eu estava no Brasil quando vi uma publicação que iriam produzir o “Cargas D’Água” em inglês, em formato Off-Broadway, em NY. Estavam procurando um menino e uma menina para os papéis de Charles e Pepita, com o requerimento de que o ator fosse brasileiro e que residisse nos Estados Unidos.

Mandei um vídeo de audição e algumas semanas depois recebi um e-mail me chamando para o callback. Vários atores e atrizes brasileiros, que eu conhecia ou não, estavam lá. O estúdio estava cheio e o português bombando! Todo mundo querendo se conectar. Começaram os cortes do callback e no final me ofereceram o papel masculino.

Como não conseguiram se decidir entre as duas meninas finalistas, acabaram contratando Maitê Zakya e Helora Dana pra dividir as datas como Pepita. Eduardo Medaets produziu o show de Vitor Rocha, também vencedor do prêmio Bibi Ferreira, e interpretou o papel de Kid.

O show se localizou no TA DA Theater e foi um sucesso tanto aqui quanto no Brasil! Inclusive tivemos a presença do dramaturgo nas duas últimas sessões. Esse projeto foi, acima de tudo, muito emocionante para mim. Se o “Cargas D’água” passar pela sua cidade, ou se você estiver em São Paulo, vá assistir!

 

Poxa, tu tens muita história para contar, então vamos deixar um pouco para a coluna que estará sob teu comando na Agenda. Quais são os planos para 2020? Quais os projetos que estão por vir?

Tenho cantado bastante nas casas 54 Below e Green Room 42. Estou pensando em produzir meu próprio show contando a história de como é ser um imigrante em NY. Acredito que muita gente se identificaria e é nesse ponto que quero tocar! Também tem uma possibilidade de eu vir para o Brasil como participante de um projeto em junho, mas ainda não posso falar sobre isso! Hahaha! Vamos esperar tudo se concretizar melhor. Estou empolgado para ver o que 2020 e essa década vão me trazer!

Isso seria fantástico! Com certeza contribuiria muito para impulsionar carreiras, além de servir de estímulo para os jovens cantores do gênero. Para encerrar, qual seria tua mensagem a quem busca fazer carreira na área?

Estude muito, pois a concorrência é muito grande e está cada vez maior. Precisa ser o melhor para conseguir algum espaço nesse meio. Não ter vergonha/medo de arriscar e fazer coisas a que você não está acostumado. E, por fim, aprender a ouvir a palavra “Não” e não desistir com isso.

Bom, Pedro, encerramos essa prazerosa conversa com nossa gratidão por teres disposto teu tempo para nós. Agradecemos também por aceitares o convite de ser nosso colunista mensal, nos dando a honra de receber de ti as mais recentes notícias sobre a área do Teatro Musical em Nova Iorque, além de teus conhecimentos sobre o gênero e atualizações sobre tuas performances. Um grande abraço e sucesso sempre! Até breve…

 

Pedro Coppeti  – (Brasil – EUA)

Pedro Coppeti

Pedro tem 23 anos. Começou a estudar música aos 8 anos. Fez aulas de técnica vocal com o barítono Carlos Rodriguez (Brasil – Holanda). Estudou bacharelado em canto lírico na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob orientação da professora Caroline Abreu.  Lecionou técnica vocal e interpretação da canção na Academia de Música Compasso Musical.

Atuou como um dos cinco cantores solistas do espetáculo Nativitaten do Natal Luz de Gramado em 2013/14, sendo o mais jovem solista a ser selecionado para o evento. Atuou como um dos protagonistas do musical “Chimango”, de Artur Barbosa, acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Porto Alegre – OSPA – no Teatro Sao Pedro em 2014.

Recentemente graduou-se com honra no conservatório intensivo de Teatro Musical da American Musical and Dramatic Academy (AMDA) – Nova Iorque. Pedro foi nomeado, junto a aproximadamente 600 alunos graduandos de teatro musical dos Estados Unidos, para audicionar para o show Broadway Rising Stars e acabou sendo um dos 18 selecionados, tendo a oportunidade de cantar para uma platéia de 1500 pessoas no Town Hall. Consequentemente, sendo o primeiro gaúcho a solar em um palco da Broadway, no coração da Times Square.

Após o evento, Pedro participou de um musical Off-Broadway chamado Summer Rock, no qual interpretou o personagem herói. Ainda devido a visibilidade do evento no Town Hall, Pedro teve a oportunidade de se apresentar em casas muito reconhecidas de Nova Iorque como o 54 Below e o Metropolitan Room.

 

Agradecimentos ao site “Agenda lírica” de Porto Alegre, que nos cedeu esta matéria.

Antônio Rodrigues
Apaixonado por música coral, é um dos fundadores e mantenedor do movimento.com.