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O primeiro Teatro de Ópera do Brasil

Em 1762, o Marquês de Pombal, Secretário de Estado de D. José I, eleva uma parte do Brasil à categoria de Vice-Reino, e, em 1763, com sua peculiar e aguçada visão administrativa, transfere a capital desse Vice-Reino de Salvador para o Rio de Janeiro, mudando o eixo político da Colônia, do Norte para o Sul. Assim, resolvia dois problemas ao mesmo tempo: ficaria a capital mais próxima das Minas Gerais, centro do ciclo da mineração, então ainda ativo, e a metrópole acompanharia mais de perto as questões com a manutenção da Colônia do Sacramento e dos territórios em litígio ao Sul.

O Rio de Janeiro de meados do século XVIII era pequeno e acanhado. De Le Caille, astrônomo francês que aqui esteve no Rio em 1750, declara que a cidade tinha 50.000 habitantes. Cita Luiz Edmundo (1) as estatísticas oficiais publicadas em 1799 no almanaque do Rio de Janeiro, pelas quais nem nesse ano o Rio de Janeiro tinha tanta gente.

As ruas eram estreitas e irregulares, as casas não obedeciam a alinhamento algum e subiam morro acima, dando a quem via a cidade do mar uma ideia de beleza e de arejamento que se desfazia logo que se desembarcasse. Os únicos quarteirões mais ou menos regulares e com algum alinhamento das casas eram aqueles que hoje ficam nas proximidades da atual Rua 1º de Março, junto ao Paço da Cidade e à atual Praça XV de Novembro.

A improvisação e a pobreza da arquitetura eram flagrantes, as ruas imundas, a iluminação quase nenhuma, os esgotos insuficientes e abertos à vista de todos. Em suma, um violento contraste entre a beleza natural do lugar e aquilo que nele havia feito a mão do homem. Somente algumas igrejas, interiormente, ofereciam um ou outro aspecto belo ou curioso. Tão feio era o Rio urbano da segunda metade do século XVIII que, aqui chegando em 1808, D. João, em edital de 9 de julho, manda demolir várias casas julgadas detestáveis e “indignas da Civilização”.

A sociedade dominante era tão acanhada quanto a cidade, sem diversões, vivendo em regime patriarcal, dividida entre o trabalho, as atividades e jogos domésticos e a Igreja. Foi nesse Rio de Janeiro que, antes de 1747, foi construído um teatro, pertencente a uma misteriosa e curiosa personagem, chamada Padre Ventura, teatro esse que ficou conhecido como Casa da Ópera, situado na Rua da Ópera. A Casa da Ópera era também chamada de Ópera dos Vivos, indicando com esse nome que apresentava atores de carne e osso e não marionetes, então comuns em Portugal para as representações das peças de Antônio José, o Judeu.

Há controvérsias quanto à data de início das atividades dessa Casa da Ópera. Lafayette Silva (2) estabelece o ano de 1767, no que é acompanhado por Nélson Costa (3). Ayres de Andrade (4) cita a existência da mesma no ano de 1767.

Moreira de Azevedo dá “antes de 1747” como época da construção do teatrinho. Com efeito, cita esse autor que, no livro II do Tombo do Convento de Santo Antônio, vem mencionada, já em 1747, a Rua da Ópera, o quem é melhor elucidado por Elysio de Oliveira Belchior (5) numa de suas preciosas anotações à obra do clássico historiador do Rio de Janeiro: ”A denominação “Rua da Ópera dos Vivos” consta dos autos do inquérito procedido em 1748, no Convento de Santo Antônio, para apurar os milagres atribuídos a frei Fabiano de Cristo.”

Ficava este teatro, de construção simples mas de alguma beleza em seu interior, no Largo do Capim, outrora existente na Rua do Fogo, atual Rua dos Andradas, entre as ruas São Pedro e General Câmara, desaparecidas juntamente com o largo, para dar lugar à atual Av. Presidente Vargas, bem próximo de onde hoje fazem esquina essa avenida e a Rua Uruguaiana. Com o tempo, a rua onde ficava o teatro passou a chamar-se Rua da Ópera.

O Padre Ventura era um homem pardo, corcunda, de aspecto curioso e, às vezes, amedrontador. Acumulava funções de maestro e diretor de cena, tocava alguns instrumentos e costumava subir ao palco para cantar lundus e dançar.

Varnhagem conta que, em 1767, esteve no Rio de Janeiro um almirante francês de nome Bougainville (6), que conheceu a Casa da Ópera do Padre Ventura. No relatório de sua excursão, – Voyage autour du monde par la Frègate du Roy “La Boudeuse” et la flute “L”Etoille” en 1766, 1767, 1768 et 1769 – diz o visitante que, a convite do Vice-Rei Conde da Cunha, ali assistiu a um espetáculo: “Nous fumes dans une salle assez belle y voir les chefs-d”oeuvre de Metastasio, réprésentés par une troupe de mulãtres et entendre ces morceaux divins des grands maitres d”Italie, exécutés par une orquestre que dirigeoit alors un prêtre bossu en habit ecclésiastique.”

Pouco se sabe a respeito do que se representava nesta Casa da Ópera. Além das obras de Metastásio e dos trechos dos grandes mestres da Itália, apontados por Bougainville, representaram-se ali peças musicadas e óperas de Antônio José, como “O labirinto de Creta”, “As variedades de Proteu”, “As guerras do Alecrim e do Manjerona”, “A vida de D. Quixote”, “O precipício de Faetonte” e “Os encantos de Medea.” (7)

O que se pode acrescentar a essas poucas referências é que nessa Ópera, ou Casa da Ópera, havia de tudo que se pudesse levar a um palco – acrobacias, mágicas, danças, teatro de prosa, comédias musicadas e espetáculos de poesia. O nome Ópera não tinha o significado atual, mas sim um sentido muito abrangente, o que leva a grande confusão.

Vários espetáculos de prosa, com música incidental para orquestra ou para pequenos conjuntos de instrumentos e mesmo sem música especial eram chamados de ópera. Casa da Ópera, então, era o nome genérico que se dava a qualquer casa de espetáculos, mesmo àquelas que não utilizavam música nos mesmos, o que era raro.

Antes do teatro do Padre Ventura, espetáculos de música e drama religiosos eram encenados em palanques armados em qualquer praça ou adro das igrejas, motivo pelo qual é o Padre Ventura um legítimo pioneiro. A ele devemos o primeiro teatro do Rio de Janeiro. Face aos documentos existentes no Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro, que, já em 1747, se referem a uma Rua da Ópera, sinal evidente da existência de uma “Ópera”, ou seja, de um teatro a ela apropriado, foi o teatro do Padre Ventura o primeiro edifício específico para exibições teatrais no Brasil.

Com efeito, os outros teatros que poderiam requerer esta primazia não são objeto de documentação que comprove sua existência antes de 1747. Afonso Ruy (8), pesquisador do teatro na Bahia, aponta, como primeiro teatro no Brasil, o que passou a existir em 1729, funcionando no recinto da Casa da Câmara da Cidade de Salvador, demolido em 1734. No entanto, cita ele mesmo que tal teatro se compunha de “proscênio com bancada para os espectadores, em recinto fechado”, para o qual a “Câmara Municipal cedeu parte da grande sala de reuniões”. Não era, portanto, um edifício especificamente destinado a ser um teatro.

O Teatro da Praia, em Salvador, tem como ponto de referência ata da sessão da Câmara Municipal de 27 de novembro de 1760, em que se manda pagar a Bernardo Calixto Proença, seu edificador, a importância do custo da construção do mesmo, nada havendo sobre qualquer espetáculo ali levado antes daquela data. Os outros teatros de Salvador lhe são documentalmente posteriores.

A Casa da Ópera de Vila Rica é de 1770 e as representações teatrais naquela cidade até ali eram feitas em palanques e tablados armados em locais apropriados. Nas Minas Gerais há menção de várias atividades teatrais no Tijuco, em Sabará, sempre em salas de palácios e tablados, e referências nebulosas sobre datas bem antes “de tal ano”, “já no ano tal havia”, e por aí afora.

Em São Paulo, cogitou-se de construir o primeiro teatro em 1762. No Recife, a primeira Casa de Ópera tem como ponto inicial de referência a primeira peça ali levada, o que ocorreu em 1780. O primeiro teatro do Maranhão tem sua construção iniciada em 1776. É extrema a ambiguidade das exíguas fontes históricas que nos possibilitam estabelecer qual teria sido o primeiro teatro construído especificamente para tal no Brasil. A imprecisão das fontes leva à imprecisão da linguagem. A buscar-se, no entanto, no que existe a respeito, podemos afirmar que o teatro do Padre Ventura foi o primeiro no Brasil, construído especificamente, isoladamente, sem fazer parte de outra edificação, para a atividade cênica.

Em 1769, ou pouco depois, pega fogo e é completamente destruída a Casa da Ópera, durante a representação de “Os encantos de Medea” (9). Dizem a lenda e as más línguas que esse incêndio foi proposital, ateado por comparsas daquele que seria o dono do novo teatro a ser então construído. Como recordação do teatro do Padre Ventura, o povo passou a designá-lo como Ópera velha e daria ao teatro que viria logo após o nome de Ópera Nova.

Alguns autores põem em dúvida se o teatro do Padre Ventura, ou seja, a Casa da Ópera, seria o mesmo que deu nome à Rua da Ópera, entre eles Múcio da Paixão em sua fundamental obra “O teatro no Brasil”. Essa dúvida não tem razão de existir. O nome Ópera ou casa da Ópera era sempre dado ao maior e mais importante teatro da cidade. O Rio de Janeiro tinha, em 1748, uma Rua da Ópera, onde existia, portanto, um teatro importante; em 1767 um almirante francês se admirava de assistir às “obras primas de Metastásio e trechos divinos dos grandes mestres italianos”, executados por orquestras; não se tem nenhuma notícia de serem dois os teatros do Rio de Janeiro por aquela época; não se tem notícia alguma de outro teatro a não ser o do Padre Ventura.

Fica bem claro que o teatro da Rua da Ópera e a Casa da Ópera do Padre Ventura são a mesma coisa. Não é nem de leve plausível que o Rio de Janeiro, acanhado e atrasado daquele tempo, tivesse já duas “Óperas”.

(1) – Luiz Edmundo. “Recordações do Rio antigo”- 2ª edição, Rio, 1956, página 25.
(2) – “História do teatro brasileiro” – Rio, MÊS, 1938, página 19
(3) – “O Rio de Janeiro de ontem e de hoje” – Leo Editores, Rio, 1958, página 203
(4) – Volume I, página 83
(5) – Moreira de Azevedo – “O Rio de Janeiro, sua história, monumentos, homens notáveis, usos e curiosidades” – Livraria Brasiliana Editora, 3ª edição, anotada por Elysio de Oliveira Belchior, páginas 155 a 178
(6) – Varnhagem – “História Geral do Brasil”, 7ª edição – Editora Melhoramentos, SP, Tomo IV, página 186, anotação de Rodolfo Garcia
(7) – Lafayette Silva, op. Cit., página 20
(8) – Afonso Ruy – “O primeiro teatro no Brasil”, Salvador, Universidade da Bahia, 1955, página ½
(9) – É imprecisa a data da destruição do teatro. O Barão do Rio Branco, em “Efemérides Brasileiras, 1946, páginas 479/480, citado por Rodolfo Garcia, estabelece o incêncio em “depois de 1769”. Ayres de Andrade (op. Cit., vol. I, página 63) aponta que “já era transposto o ano de 1769”.

Autor Marcus Goes
em 8/3/2003

Marcus Góes
Musicólogo, crítico de música e dança e pesquisador. Tem livros publicados também no exterior. Considerado a maior autoridade mundial sobre Carlos Gomes.