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O país do “embrulha e manda”

Nós formamos mesmo o “pays non sérieux”, como disse De Gaulle, ou, se quiserem uma expressão mais chula, “o país do embrulha e manda”.

 

Vejam a que ponto chega a ignorância nacional: fazendo observações a meu respeito, em um site de arte, no qual se supõe uma certa where to order cialis pills correção gramatical, um analfabeto escreveu “eu acho ele um bom crítico etc…” Como argumentar com esse especialista em variações pronominais?

Outros insistem em dizer que o TMRJ foi construído para ser teatro de ópera, quando, desde o requerimento original de Sizenando Nabuco de Araújo, lido em 1879 na Câmara dos Deputados, passando pelo requerimento do vereador Malvino Reis enviado à Câmara Municipal em em 1884, pelo pedido do deputado Affonso Celso feito a seus pares em 1888, pelas  iniciativas de Pedro Américo, feitas em 1892, de Benjamim Constant, de Olavo Bilac e de todos os intelectuais da época, até chegar a  Arthur Azevedo, SEMPRE SE FALOU NA CONSTRUÇÃO DE UM “TEATRO NORMAL”, OU SEJA, DE ARTE DRAMÁTICA, DE UM “TEATRO REGULAR”, OU SEJA TEATRO DE PROSA, E NUNCA EM “TEATRO DE ÓPERA”. Para a ópera, o Rio de Janeiro contava com muitos teatros, como o Dom Pedro II, depois Teatro Lírico, com o São Pedro, com o Ginásio Dramático, com o Alcazar Lyrique, com a Fênix Dramática. Leiam “TEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO – CEM ANOS DE CISNES E TROVADORES”, Marcus Góes, 2009, Tiffany, único livro publicado e vindo a público no exato dia dos cem anos do TMRJ.

Em 1909, em um total de 50 espetáculos, 43 (!!) foram de teatro de prosa; em 1910, em um total de 140 espetáculos, 86 (!!!) foram de teatro de prosa e 17 de ópera, e assim por diante. NUNCA em sua existência o TMRJ levou ao público em cada  ano  um  número de óperas superior a concertos e recitais de orquestras como OSB, OSTMRJ, de pianistas como Rubinstein, Arrau, Brailovsky, Freire. Um dado estatístico exemplificador: uma temporada de ópera com dez óperas com quatro récitas cada uma, dá um total de 40 espetáculos. Em 1944, só a OSB deu 44 espetáculos !! Será o TMRJ um teatro de ópera?

Não se percebe que “opera”, quando há tempo se falava em casa de espetáculo, era um nome genérico. Em uma “opera”, que quer dizer “obra”, vinham ao palco mágicas, canções, danças, acrobacias, peças de  teatro, orquestras, equilibristas, instrumentistas  e até óperas.

Mas o ponto extremo do “embrulha e manda” está no que escreveu um fã incondicional em verbete da Wikipedia sobre o TMRJ. Definindo quais seriam as “personalidades ilustres” que até hoje se apresentaram no TMRJ, o estapafúrdio cidadão relacionou e declarou que “SE DESTACAM” os nomes de MARIA CALLAS, RENATA TEBALDI, ARTURO TOSCANINI, SARAH BERNHARDT (no TMRJ? ), BIDU SAYÃO, ELIANE COELHO,VILLA-LOBOS, STRAVINSKY, PAUL HINDEMITH e ALEXANDER BRAILOWSKY.

Não sei como chego a ter paciência para corrigir a relação. mas somando  valor artístico, fama, popularidade, importância para a música e para a dança, onde estão Nijinsky, Richard Strauss, Enrico Caruso, Fleta, Muzio, Gigli, Besanzoni, Warren, Pietro Mascagni, Pavlova, Erich Kleiber, Weingartner, Rubinstein,  Arrau, Heifetz, Casals, Rostropovsky, Lifar, Nureiev, Alonso, Fonteyn, Markova, Bernstein, Pavarotti, Thill,etc…etc…etc… ? E que me perdoem fãs e leitores e, com todo o respeito, mas relacionar Eliane Coelho ao lado de Toscanini, Callas, Stravinsky e Sarah Bernhardt não é piada de mau gosto, não. É burrice mesmo.

MARCUS GÓES – MARÇO 2013