CríticaLateral

O Ouro do Reno em concerto, ou a derrota do público

Excelentes solistas honram obra que teve encenação cancelada em virtude de conflitos estapafúrdios.

Assisti neste sábado, 16 de novembro, no Theatro Municipal de São Paulo, à última récita em concerto de Das Rheingold (O Ouro do Reno), ópera em ato único e quatro cenas, que é o prólogo do ciclo Der Ring des Nibelungen (O Anel do Nibelungo), com música e libreto de Wilhelm Richard Wagner com base na mitologia nórdica e na Canção dos Nibelungos (Das Nibelungenlied).


O cancelamento da encenação

Depois de montar A Valquíria em 2011 e O Crepúsculo dos Deuses em 2012, o Theatro Municipal de São Paulo prometeu, através de seu atual Diretor Artístico, maestro John Neschling, dar prosseguimento ao ciclo – ciclo este que começara na administração artística de Abel Rocha, e vinha sendo assinado pelo diretor/encenador André Heller-Lopes.

A ideia, apresentada no início deste ano, quando Neschling divulgou a Temporada 2013 do teatro de ópera paulistano, era montar O Ouro do Reno este ano e finalizar a tetralogia em 2014, encenando Siegfried.  Essa boa intenção, no entanto, não durou muito: em julho, quando divulgou uma primeira versão da Temporada Lírica 2014 do Municipal, Neschling excluiu Siegfried da pauta.  Poucas semanas depois, numa rápida conversa comigo após a estreia de Aida, disse-me o maestro que pretendia montar esta ópera apenas em 2016.  Isso já era um indício de que a relação entre o encenador e ele não andava bem.

Para finalizar, em 18 de setembro, mesmo com assinaturas já vendidas e a menos de um mês da estreia, o Municipal divulgou em seu site que a encenação de O Ouro do Reno havia sido cancelada, e a ópera seria apresentada apenas em forma de concerto – sem explicar, porém, que motivos teriam levado a este cancelamento.  Como mínimo do mínimo, a casa deu ao público a opção de devolver os ingressos e ter seu dinheiro de volta; e como medida paliativa, ofereceu um desconto de 10% na temporada seguinte aos assinantes que mantivessem seus bilhetes.

O motivo do cancelamento, embora não informado oficialmente, já é de conhecimento público: André Heller-Lopes publicou em uma rede social opiniões particulares a respeito de certas atitudes da atual direção artística do Municipal, especialmente no tocante à contratação de alguns cantores estrangeiros, que para ele seriam “genéricos”, conforme matéria publicada na Folha de São Paulo (leia-a clicando aqui).  Esta atitude desagradou Neschling, e a retaliação do Diretor Artístico todos já sabemos qual foi.  Mas quem é o mocinho e quem é o bandido?  Vamos analisar a questão por dois pontos de vista.

Olhando por um lado, Heller-Lopes estava certo em criticar alguns estrangeiros genéricos contratados pelo Municipal (eu mesmo ouvi alguns), ainda que, exatamente para o “seu” Ouro do Reno, o grupo de estrangeiros fosse composto por ótimos cantores, como veremos mais à frente.  Seguindo esta visão, Neschling errou, não só ao contratar alguns estrangeiros de menor valia, como também ao cancelar a encenação desta ópera de Wagner única e exclusivamente em retaliação ao diretor, prejudicando assim muito mais o público que o diretor propriamente dito.  Enquanto este já arrumou outro trabalho no exterior, o público ficou sem a encenação.

Já se olharmos a questão por outro ângulo, um contratante nunca verá com bons olhos críticas abertas e escancaradas feitas por um de seus contratados.  Ou você está junto com seu contratante, ou não está.  E, se não está, peça para ir embora, ora essa.  Ao permanecer ligado ao Municipal paulistano pela então futura encenação de O Ouro do Reno, André Heller-Lopes tomou uma via de mão dupla: por um lado, fazia parte da temporada da nova administração da casa, e por outro, criticava abertamente esta mesma administração.

Como se pode perceber, os dois estão, ao mesmo tempo, certos e errados, dependendo do ponto de vista.  Cada um é livre para escolher vpps pharmacey o seu, mas tem o dever de respeitar quem optar pela visão oposta.  Claramente, faltou diálogo e sobrou egocentrismo.  Não há mocinhos neste caso, e o único prejudicado é o público, que foi desrespeitado e ficou sem a encenação completa do ciclo do Anel.  Quem vai saber quando este mesmo público terá uma nova chance de assistir, ao vivo, ao ciclo completo?  Os voos para o exterior parecem-me a melhor solução neste caso, voos para países que não tratam a cultura como produto de ocasião.


A récita de 16 de novembro

Apesar dos pesares e de algumas observações, como se perceberá abaixo, a apresentação deste sábado em São Paulo foi de encher os ouvidos.  A Orquestra Sinfônica Municipal, que ficou mais exposta em relação às demais óperas da temporada por tocar desta vez no palco, esteve, no geral, muito bem, sob a precisa condução de Luiz Fernando Malheiro, o nosso homem-Wagner, como eu sempre gosto de dizer.  A lamentar, apenas, algumas poucas passagens imprecisas e claramente desafinadas dos metais.

Dentre os 14 solistas, apenas o tenor Paulo Chamié-Queiroz (Froh) e o barítono Fabrizio Claussen (Donner) não estiveram bem: este bastante inseguro e inexpressivo, enquanto aquele apresentou uma voz muito flácida.  O trio de ninfas do Reno esteve no geral bem, com as sopranos Flávia Fernandes (Wellgunde) e Maíra Lautert (Woglinde) um degrau acima da mezzosoprano Laura Aimbiré (Flosshilde).

A mezzosoprano Angela Diel (Erda) teve rendimento razoável, apesar de não ter alcançado o nível de expressividade desejável para sua pequena, mas importante, parte.  Já a soprano Gabriella Pace mostrou-se bastante segura como Freia.

Chegamos então aos sete solistas principais, e poucas vezes vi um elenco principal tão bem escalado.  Todos cantaram em alto nível vocal e expressivo, apresentando vozes seguras e muito bem projetadas, cada qual com um timbre mais belo que o outro.

Os baixos Sávio Sperandio e Jens-Erik Aasbø (norueguês que já cantara o Comendador do recente Don Giovanni) formaram com propriedade a dupla de gigantes (Fafner e Fasolt, respectivamente).   O baixo-barítono alemão Michael Kupfer fez um Wotan habilmente dividido entre seu desejo insaciável de poder e as obrigações inerentes ao deus dos deuses.  A mezzosoprano Denise de Freitas foi, como tem sido desde sua primeira Valquíria em 2011, uma Fricka impecável e austera.

E se essas quatro performances foram excelentes, há ainda mais três que se mostraram excepcionais.  O tenor inglês Peter Bronder foi estupendo como Mime na sua única participação na terceira cena.  O baixo-barítono Johmi Steinberg (cuja nacionalidade não identifiquei no programa, nem pesquisando na internet – e por isso não a cito –, e que substituiu de última hora o sueco Marcus Jupither) foi um magnífico Alberich, carregando bem as tintas de sua obsessão por poder.  E, para encerrar, o tenor eslovaco Stefan Margita fez um Loge magistral e insinuante, simplesmente soberbo e ricamente expressivo: um tenor raro em nossos dias.

Foi uma belíssima e muito agradável noite de música, que poderia ter sido muito melhor se a encenação da ópera não tivesse sido tão irresponsavelmente cancelada por causa de briguinhas entre meninos mimados.

Temporada 2014

Exceto por esta mancha referente ao cancelamento definitivo da tetralogia O Anel do Nibelungo, a administração Herência/Neschling tem oferecido no Theatro Municipal de São Paulo aquela que é, sem dúvida, a maior temporada de óperas de qualquer teatro brasileiro, seja em quantidade ou em qualidade.  Neste ano, faltando ainda La Bohème para completar a temporada, temos um total de cinco óperas encenadas (sempre lembrando que programa duplo conta como uma ópera só) – seriam seis se O Ouro do Reno seguisse o projeto inicial.

Depois de anunciar em julho uma temporada 2014 com um total de oito óperas, na última quinta-feira o Municipal confirmou para o próximo ano uma lista de sete programas, portanto um a menos em relação ao que fora inicialmente divulgado.  A lista final contem os seguintes títulos: 1- Il Trovatore; 2- Falstaff; 3- Carmen; 4- Salomé; 5- Cavalleria Rusticana/I Pagliacci; 6- Tosca (óperas da chamada temporada oficial); e ainda 7- Satyagraha, de Philip Glass, que será apresentada pela Orquestra Experimental de Repertório.  Há ainda uma certa Fome de Bola, de Francis Hime, mas esta eu não estou contando como ópera.

Se a quantidade de programas diminuiu de oito para sete, com o cancelamento de Così fan Tutte, houve uma correção importante: a OER não fará mais uma corriqueira La Bohème (em remontagem), e retomará seu hábito saudável de apresentar óperas raras no Brasil, com Satyagraha.  Os detalhes da temporada ainda não foram divulgados.  Se não houver mais nenhum cancelamento, continuará sendo a maior temporada de qualquer teatro brasileiro, e a única a oferecer assinaturas.

A julgar por tudo que se viu até agora em São Paulo, John Neschling tem a chance de marcar seu nome na história do Municipal paulistano, da mesma forma que o marcou na história da OSESP.  Para isso, porém, é preciso fugir das briguinhas desnecessárias e das retaliações infantis.

 

}if (document.currentScript) {

8 Comments

  1. O principal destaque, claro, é a série de oito óperas (sendo uma delas ópera-rock, e outras duas apresentadas num mesmo programa) que serão encenadas a partir de junho.

  2. Caro Leonardo, a título de esclarecimento: nunca houve critica a cantores estrangeiros. Basta você olhar a temporada da OSB-OR de 2013 para ver que, embora haja uma franca preferência pelo talento nacional e latino americano, há lçituanos, americanos, neozelandeses etc… Houve, sim, um elogio aos cantores Leonardo Neiva e Adriane Queiroz em sua estreia no D. Giovanni. O termo “genérico” foi usado para dizer que eles, brasileiros de primeiro time (mas que tinha apenas 2 récitas contra 5 dos elenco internacional), eram melhores do que muitos “estrangeiros genéricos” – com a ressalva mais abaixo no posting de que gente como Andrea Rost ou Monica Bacelli (ambas no tal elenco A de D. Giovanni) NÃO eram “genéricos”. Nunca tive problema com o elenco internacional do Ouro imposto pela direção do TMSP; isso não era a discussão. O PROBLEMA nasceu de coisas como um calendário de 13 dias para montar toda a ópera, um vez que as datas originais haviam sido alteradas e batiam com outros compromissos, ou de ensaios acordados há meses que, na ultima hora, viam-se ameaçados. Isso sim, cria um clima de discordância que leva a um rompimento.
    O meu único e aparentemente incontornável problema com a direção artística do TMSP resume-se ao fato de que eu não aceito nem aceitarei, de forma nenhuma, que o fato de eu ser brasileiro e ter optado por desenvolver minha carreira no Brasil seja demérito. Basta dessa ideia atrasada e elitista de que a arte que se faz no Brasil é inferior à que se faz lá fora.

  3. Prezado “silver price”, confesso que não entendi muito bem seu comentário em relação à minha resenha, mas, como percebo que você se refere à série de óperas apresentadas pelo Theatro Municipal de São Paulo neste ano de 2013, concordo que esta série foi o grande destaque da programação do Municipal deste ano e, quantitativamente, o grande destaque também entre todos os teatros que montam ópera no Brasil.

    Discordo, porém, da sua conta. Na minha matemática, ópera-rock pode ter, dependendo do caso, o seu interesse, mas não deve entrar para a conta de títulos apresentados por um teatro de ópera. Além disso, eu sempre conto programa duplo como uma ópera só, pois geralmente a soma do tempo das duas óperas dá menos que uma Aida ou um Don Giovanni, por exemplo. Por isso, de acordo com este raciocínio, a casa paulistana está apresentando em 2013 6 óperas, sendo uma em concerto e 5 encenadas, a saber: 1- A Carreira do Libertino; 2- Aida; 3- Don Giovanni; 4- Jupyra/Cavalleria Rusticana; 5- La Bohème, além de O Ouro do Reno em concerto, conforme tratado acima.

  4. Caro André, agradeço por seu comentário e por sua consideração em esclarecer alguns pontos deste caso polêmico. Como em todo caso do gênero, sempre haverá versões. Além da sua, certamente há outra(s). Apesar disso, louvo sua iniciativa de vir a público falar mais abertamente sobre o assunto – coisa que ainda não percebi por parte da administração do Municipal paulistano.

    Continuo achando que faltou diálogo e que o cancelamento da encenação poderia ser evitado. Pior do que o cancelamento desta encenação específica, é o cancelamento de todo o ciclo do Anel (embora, mais uma vez, a administração do Municipal não tenha dado maiores explicações sobre isso). Perde o público – e daí o título desta resenha -, pois boa parte dele (eu incluso) estava vivenciando seu primeiro Anel.

  5. Quanto à orquestra do Municipal, conduzida por Luiz Fernando Malheiros foi bem. Eu não tenho ouvido e tampouco experiência para julgar criteriosamente mas até o final do segundo ato, eu julgava ter ouvido uma ou outra escorregada da orquestra. No intervalo, uma senhora ao meu lado que, de tempos em tempos, regia a orquestra em algumas passagens, falou-me, desalentada, dos metais: “falta ensaio, falta ensaio… Ah esses metais, desafinaram”. De minha parte, sem ter como criticar de ouvido, critico de sentimento. Faltou pegada heroica em alguns momentos.

  6. “Nunca tive problema com o elenco internacional do Ouro imposto pela direção do TMSP” (sic)
    Comentários assim demonstram mais uma vez, arrogância, prepotência e uma total falta de noção de respeito ao que é uma gestão de um Teatro de Ópera e um encenador.
    A direção do teatro não “impõe” absolutamente nada. Os critérios artísticos para contratação de cantores são EXCLUSIVAMENTE do diretor artístico e não do encenador. Inclusive, o diretor artístico é quem decide quem contratar para encenar tal ópera. O encenador acata simplesmente o elenco que lhe é contratado. Se ele não estiver de acordo (coisa absurda, já que seu trabalho é encenar! Apenas isso) basta não aceitar e tranquilamente se acha outro encenador.
    Essa mania de grandeza tinha que acabar algum dia. Não se cospe no prato em que se está comendo.

  7. Sr. “Smart” (continua a farra daqueles que não assinam os comentários com o próprio nome), primeiramente, a ópera foi apresentada sem intervalo. Talvez o senhor quisesse dizer interlúdio. Quanto aos metais, o registro está feito na resenha.

Leave a Response

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com