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O ocaso de Carla Camurati no TMRJ – tréplica de Leonardo Marques

Leonardo Marques comenta resposta do Theatro Municipal a seu artigo.

 

O debate é salutar. Portanto, prossigamos com o debate. O Theatro Municipal do Rio de Janeiro dignou-se responder a um artigo (“O ocaso de Carla Camurati no Theatro Municipal do Rio”) que publiquei aqui no Movimento.com em 24 de julho. Passo, pois, a comentar a réplica do Theatro, que esclareceu algumas questões, mas deixou outras tantas sem resposta.

Por tópicos, para facilitar o entendimento, vejamos os pontos principais do meu artigo original e as justificativas do Municipal.


Poucas óperas em relação a teatros de mesmo nível

Iniciei o artigo comparando a quantidade de óperas, balés e concertos (produções próprias) apresentados pelo TMRJ em sua temporada 2014 com a quantidade dos mesmos tipos de espetáculos apresentados por teatros de mesmo porte que o Municipal do Rio (o Teatro Colón, de Buenos Aires; o Municipal, de Santiago do Chile; e o Municipal, de São Paulo). Fiz esta comparação para demonstrar claramente o quanto a temporada artística do teatro de ópera do Rio de Janeiro é pobre.

A quantidade de óperas do TMRJ representa apenas a metade dos títulos apresentados pelos teatros chileno e paulistano, e é inferior à metade dos títulos apresentados pelo teatro argentino. E ainda (dados não constantes do artigo original): a quantidade de óperas do TMRJ é inferior à quantidade de óperas apresentadas pelo Theatro São Pedro-SP e pelo Festival Amazonas de Ópera 2014; e é idêntica à quantidade apresentada pelo Festival de Ópera do Theatro da Paz – sendo que o Theatro da Paz apresenta em dois meses o que o Municipal leva o ano inteirinho para apresentar.

Além disso, a discrepância no número de concertos com programas diferentes é uma surra que nem vale a pena recapitular, lembrando que a quantidade informada no artigo refere-se à temporada oficial de concertos de cada teatro, sem considerar programas de formação de plateia e/ou alternativos, tais como o “Domingo a 1 Real”.

Em sua resposta, o TMRJ nada disse sobre esta comparação quantitativa. Aqui, a ausência de resposta é até compreensível, pois não dá para discutir números inquestionáveis. A triste conclusão é que, em sete anos à frente do Municipal, Carla Camurati não conseguiu melhorar em nada a programação da casa, que mantém a mesma média paupérrima de títulos líricos apresentados antes de sua gestão, como o próprio Municipal reconhece em seu Buy website. A média de Camurati é inferior a 3 (2,66) óperas apresentadas por ano de gestão (a contar de 2008, mas desprezando-se 2009, e considerando apenas óperas encenadas).

Enquanto outros teatros (como o São Pedro, por exemplo) evoluem, a programação do TMRJ fica parada no tempo, sem qualquer perspectiva de evolução.


Organizações Sociais X Modelo atual

O artigo prosseguiu citando uma declaração não muito feliz de Camurati ao jornal Valor Econômico sobre os artistas do Municipal, e questionando por que o governo do Estado não investe dignamente na programação do TMRJ, já que poderia fazê-lo através do modelo de OS, como sugere a reportagem do referido jornal.

O Municipal não se pronunciou sobre esse assunto.


Fábrica de Espetáculos
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Em sua réplica, o TMRJ defendeu a criação da Fábrica de Espetáculos, nome pomposo para a nova Central Técnica de Produções da casa, e esclareceu os motivos da transferência da CTP de Inhaúma para a zona portuária.

Deveria ser do conhecimento do Municipal e de sua Assessoria de Imprensa que, em dezembro de 2012, escrevi o que se segue ao final da crítica de on line pharmacies canada Buy A Viúva Alegre:

“O projeto de tirar a Central Técnica de Produções do Theatro Municipal de Inhaúma, trazendo-a para o zona portuária, como foi publicado na Revista O Globo, do jornal homônimo, no último domingo, é sem dúvida um projeto importante que merece apoio. No entanto, muito me preocupa uma declaração de Carla Camurati ao jornal. Disse ela: ‘Não podemos nos preocupar exclusivamente com a programação’.

“Realmente, há outras coisas importantes dentro da estrutura do Municipal com as quais deve se ter preocupação. A capacidade de produção da Central Técnica é uma delas. A única pulga que ficou atrás da minha orelha, e para a qual Camurati deve estar muito atenta, é que ela não pode se preocupar somente com a programação, mas DEVE se preocupar TAMBÉM com a programação, e não só com obras…”.

Portanto, resta claro que não tenho, nem nunca tive, nada contra uma nova e moderna CTP para o Municipal. O que eu questionei no meu artigo e continuo questionando é se a Fábrica de Espetáculos “vai mesmo produzir espetáculos? Se o Theatro não produz quase nada, essa ‘fábrica’ vai ‘fabricar’ o quê afinal? ‘Fabricará’ para terceiros?”

Essas perguntas o TMRJ não respondeu.


Parceria com The Royal Opera House

O Municipal deu uma resposta satisfatória ao meu questionamento quanto à parceria entre a instituição e The Royal Opera House, a prestigiada casa de ópera de Londres. Mas, como o meu nível de exigência é um pouquinho maior que o dos administradores do Municipal, seria muito bom ver essa parceria se expandir para o palco. Poderíamos ter, por exemplo, uma produção londrina de ópera no Rio de Janeiro – como, aliás, tivermos no ano passado uma bela produção chilena. Por que não?

Porque o governo não tem dinheiro para a programação do Municipal (a verba anual da programação, uma mixaria, é de pouco mais de R$ 5 milhões), mas tem para torrar com publicidade e propaganda. Segundo dados da Secretaria de Fazenda do Estado do Rio de Janeiro, somente em 2014 o governo estadual já gastou cerca de R$ 46,2 milhões com a rubrica “Divulgação das Ações do Governo”.


Pagamento a coreógrafo de balé cancelado

O TMRJ esclareceu o pagamento que fez ao coreógrafo contratado para o balé Chico Rei. O pagamento se justifica se considerarmos, por exemplo, que a coreografia já estava em gestação quando o balé foi cancelado.

Esse fato, no entanto, só vem reforçar um dos principais problemas do Municipal: o cancelamento sistemático de espetáculos. Geralmente o Municipal cancela óperas, desta vez cancelou um balé. Na gestão Camurati, somente o ano de 2011 não teve espetáculos cancelados.   Um ano de programação não cancelada é muito pouco em sete anos de administração.


Isaac Karabtchevsky

Por tudo que já foi exposto, não restam dúvidas de que o TMRJ é um teatro pobre, incapaz sequer de manter uma programação que poderíamos chamar de “aceitável” em termos quantitativos. É daí que vem a minha crítica ao valor que o Municipal paga a Isaac Karabtchevsky. Não se discute a qualidade artística de Karabtchevsky, que é um grande regente, mas observem: um teatro que não tem dinheiro para montar quase nada paga, em dois anos, quase R$ 1 milhão a um único artista. Isso não faz o menor sentido!

O Theatro Municipal já tem outro regente de qualidade (Sílvio Viegas) à sua disposição, que poderia elaborar sua programação e reger suas óperas. Por ser um funcionário cedido ao TMRJ pela UFMG, e não um músico contratado por cachê, Sílvio Viegas recebe bem menos do que vale, apesar de trabalhar bem mais que Karabtchevsky no que diz respeito às atividades artísticas e administrativas específicas do TMRJ.

E, além disso, como eu disse no meu artigo original, até o Zé das Couves “elabora” uma temporada com Carmen e Butterfly. O Municipal não precisava pagar uma fortuna a seu Isaac para isso…


Direção de cena da Butterfly

O TMRJ esclareceu que Carla Camurati não receberá nada além de seu salário de presidente da Fundação Teatro Municipal para dirigir cenicamente a ópera Madame Butterfly. Que bom, pois, como eu disse no artigo original, “o povo do Estado do Rio de Janeiro já paga muito dinheiro a dona Carla pelo pouco que ela lhe devolve em forma de programação artística”. Pode até ser que a culpa maior seja do governo do Estado, mas, ao continuar presidente do Municipal, ao não arredar o pé do Theatro, dona Carla demonstra concordar com a “política cultural” do governo do qual faz parte.

Aliás, o Municipal poderia ter aproveitado a ocasião para esclarecer também se, nas óperas anteriores em que se autoescalou (Romeu e Julieta e Tosca Order ), Camurati recebeu ou não cachê, mas a casa não tocou no assunto.


Escalação de elencos

No dia seguinte à publicação do meu artigo, no qual também critiquei o costumeiro descaso do TMRJ para divulgar com a devida antecedência a escalação de elencos das suas óperas, o site do Municipal foi atualizado com a escalação das duas sopranos que se revezarão no papel de Salomé.

Convenhamos, a casa deveria ter esta iniciativa por conta própria e a divulgação deveria ocorrer antes do início da venda dos ingressos, para que o público pudesse escolher qual soprano gostaria de ouvir.


Butterfly

Só para constar: poderei assistir a alguma récita de Madame Butterfly online somente na sua segunda semana de apresentações. Na primeira semana, estarei em São Paulo, vendo três óperas no intervalo de poucos dias.

Não é que a direção do Municipal faça questão de receber um crítico cri-cri que não somente avalia o resultado artístico de suas produções, mas também considera a qualidade da administração da casa. Não é também que eu faça tanta questão de ver uma corriqueira Pills Butterfly. Como eu disse, foi só para constar… que a vida musical paulistana está anos-luz à frente da vida musical carioca.


Conclusão

Terminei meu artigo original listando algumas qualidades e/ou atitudes que o futuro presidente da Fundação Teatro Municipal deverá ter se quiser realmente “presidir” uma instituição cultural que produz de verdade espetáculos de ópera e balé, além de concertos. É difícil crer, porém, que algo de bom ocorrerá. Os candidatos ao governo do Estado são cada um pior que o outro. Difícil enxergar luz no fim do túnel.

Ao que tudo indica, exceto por alguma surpresa inesperada, em 2015, o carioca que quiser assistir a uma temporada de ópera de verdade, terá que continuar viajando, como muito bem observou o leitor Mário Confort, em um comentário bastante pertinente que deixou no fim do meu artigo.

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2 Comments

  1. Caro Leonardo Marques, primeiramente, obrigado pela menção ao meu comentário. E fico feliz pelo TMRJ ter se manifestado pelo movimento.com. No entanto, ao ler a réplica, também senti falta de justificativas a respeito do que mais me interessa: melhoria na programação.

    Espero que o TMRJ, a Sra. Carla e o Maestro Karabtchevsky não tenham levado as críticas para o lado pessoal. E se por acaso eles estiverem cansados com tais críticas, imagina o quanto nós, frequentadores desse mesmo teatro, estamos em fazê-las? Mas não se pode desistir.

    Criticamos pelo simples fato de não aceitarmos que uma cidade do porte do Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, um dos centros culturais do Brasil, conhecida no mundo todo, ponto turístico mundial, com mais de 6 milhões de habitantes, sede do maior evento do planeta em 2016, dentre tantos outros predicados, tenha uma casa lírica que se conforme em oferecer uma programação muito aquém dessa grandeza. Muito aquém da grandeza do próprio TMRJ, uma joia incrustada no lugar mais bonito do Centro do Rio, cheia de grandes músicos! Ninguém pede que o TMRJ tenha uma programação da Ópera de Viena ou do Metropolitan de NY, mas que não perca de lavada para os outros Teatros da América do Sul.

    E quanto à justificativa de encenar uma ópera que lotou a casa em 1999, por que então outras, que lotam a casa sempre, também não são encenadas, ao lado da Butterfly? Ou por que ficaram tantas décadas fora da programação? Aída e A Valquíria são exemplos emblemáticos que sempre gosto de citar: montadas em 2013, ficaram cerca de, respectivamente, 30 e 50 anos fora do teatro. Por que Wagner ficou ausente da casa por 10 anos? E por que já já Mozart também atingirá essa triste marca?

    Por fim, sem dúvidas, a verba é curta, mas certamente não tem a necessidade de ser estratosférica para garantir um TMRJ minimamente pujante e digno da cidade e do estado que o hospeda. É preciso parar de pensar pequeno!

  2. Mário, mais uma vez obrigado por seu comentário, sempre muito claro e pertinente. Tão bom que eu o considero um complemento à minha tréplica.

    Gostei muito quando vc disse “Ninguém pede que o TMRJ tenha uma programação da Ópera de Viena ou do Metropolitan de NY, mas que não perca de lavada para os outros Teatros da América do Sul”. Ninguém quer que o TMRJ se torne referência mundial de produções de ópera ou coisa parecida, mas que apresente uma programação minimamente aceitável e comparável a teatros do mesmo porte, como os demais sul-americanos citados. Se eles podem e conseguem desenvolver uma programação digna, por que só o TMRJ não o faz? O que o TMRJ não tem que os outros têm?

    Verba específica para a programação certamente é uma das respostas, mas não me parece a única. Faltou durante sete anos a esta administração (como já havia faltado a outras administrações também) esforço para melhorar a programação do Municipal. Dona Carla demonstrou algum esforço com relação a obras (reforma do TMRJ e criação da Fábrica de Espetáculos – que aliás não sabemos se estará 100% pronta até o fim do ano), mas não pareceu mover um músculo para melhorar a programação.

    Ela adora encher a boca para dizer que melhorou a arrecadação do TMRJ durante sua gestão. Então por que não percebemos esse aumento de arrecadação na programação? Essa é mais uma pergunta que eu duvido que o Municipal se digne responder.

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com