CríticaLateralÓperaRio de Janeiro

O mundo A� um moinho

Bela produA�A?o da A?pera Purchase Dom Quixote, em cartaz no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, celebra A� altura os 400 anos da morte de Miguel de Cervantes, com intA�rprete talhado para o cA�lebre protagonista.

 

Sua fama jA? tem mais de quatro sA�culos. Foi em 1605 que sua triste e longilA�nea figura apareceu pela primeira vez, nas pA?ginas de El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha, romance burlesco escrito pelo espanhol Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616) e considerado uma das maiores obras-primas da literatura mundial. Em 1904, subiu ao palco por meio da peA�a Le Chevalier de la Longue Figure, escrito pelo francA?s Jacques Le Lorrain a�� obra que inspirou o libretista Henri Cain a escrever o texto de Don Quichotte, A?pera que ganhou mA?sica de Jules Massenet (1842-1912) e estreou em Monte Carlo em 1910. No Brasil, sua estreia ocorreu em 1926 (no Rio de Janeiro e, em seguida, em SA?o Paulo). Noventa anos depois da estreia nacional a�� e para marcar os 400 anos da morte de Cervantes a��, a A?pera Dom Quixote chegou, em 13 de abril, A� cena do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Produzida em parceria com o Theatro SA?o Pedro, em SA?o Paulo (onde foi previamente apresentada a�� leia crA�tica de rA�cita paulista), a montagem tem concepA�A?o e direA�A?o cA?nica do experiente Jorge Takla. “Eu nA?o conhecia a A?pera quando fui convidado a assinar a direA�A?o. EntA?o fiz como dizia Callas, quando lhe perguntavam de onde tirava suas interpretaA�A�es. ‘Escute a mA?sica’, ela dizia. Descobri uma mA?sica sublime, linda, ponde estA? toda a dramaturgia da histA?ria a ser contada. A� fascinante ver o encontro de Cervantes e Massenet”, declarou o diretor ao jornal O Estado de SP (2/3/2016). Na direA�A?o musical, o maestro Luiz Fernando Malheiro, para quem Pills “datas comemorativas normalmente sA?o desculpas para que faA�amos o que jA? desejA?vamos hA? tempo, e esse A� o caso com Quixote”, disse ao site UOL (2/3/2016).

A exuberante e fluida mA?sica de Massenet, se fosse um odor, seria algo almiscarado: um tanto exA?tica; levemente adocicada; marcante, por certo. Ela enche o salA?o com sua presenA�a hipnA?tica, A� qual se somam ventosA�da Espanha em alguns momentos. Em toda a partitura, a habilidade do compositor de criar belas orquestraA�A�es e momentos sutilmente emocionantes, que revelam a alma dos personagens.

 

Um louco sublime

Alma das mais nobres, aliA?s. Fidalgo, sonhador, valente, romA?ntico, lunA?tico, valoroso, ingA?nuo, poeta, Quixote A� uma das mais memorA?veis criaA�A�es da literatura. Para encarnA?-lo na A?pera, o baixo norte-americano Gregory Reinhart (que mora na FranA�a desde a dA�cada de 1980) preparou-se nA?o apenas vocalmente: desgrenhou seus cabelos brancos, afinou a jA? esguia figura de aproximadamente 1,90 m, deixou crescer barba e bigode atA� enrolarem as pontas. Viver Quixote A� um de seus projetos de vida desde que se deparou com uma partitura de 1911, autografada por Massenet, em um antiquA?rio. “Eu disse: ‘Isso precisa ser meu, esse papel vai ser meu um dia”, contou o baixo ao jornal Folha de SP (2/3/2016). O resultado vai alA�m do perfeito physique-du-rA?le. Sua interpretaA�A?o do cavaleiro A� de plena entrega, cheia de filigranas e olhares expressivos, repletos de incompreensA?o das coisas desse mundo, e, ao mesmo tempo, com uma graA�a inspirada em Charles Chaplin e Lucille Ball. “Chaplin consegue uma delicadeza, ao mesmo tempo em que A� cA?mico ou trA?gico, e Lucille, um A�cone da comA�dia que se mantinha humana e vulnerA?vel”, explicou o cantor ao EstadA?o. Sua voz A� cheia de potA?ncia e beleza, carregada de emoA�A?o particularmente em momentos como a serenata Quand apparaisent les A�toiles, no primeiro ato; no terceiro ato, diante da pungA?ncia da A?ria Je suis un chevalier errant, A� fA?cil entender porque os bandidos cedem e pedem sua bA?nA�A?o; ao fim, em todo o quinto ato, a performance de Reinhard derrama ternura e melancolia nas derradeiras horas do personagem, coroando com louros uma atuaA�A?o impecA?vel. Poucas vezes vimos um intA�rprete encaixar-se tA?o bem ao personagem: com sua grandeza vocal e delicadeza de intenA�A�es, Gregory Reinhart era como um gigante oferecendo-nos uma pequena flor.

Ao seu lado, em uma caracterizaA�A?o igualmente perfeita, o barA�tono Eduardo Amir http://www.eloconsultoria.com/blog/buy-aldara-online/ encarna Sancho PanA�a com a exata mistura de tolice, fidelidade e bom coraA�A?o. AlA�m da divertida pantomima corporal, o cantor e sua A?tima voz respondem com dignidade A�s demandas da partitura, com excelentes intervenA�A�es, especialmente ao defender seu amo no quarto ato (A�a, vous commettez tous un acte A�pouvantable). No ato final, pura emoA�A?o no dueto de despedida com Dom Quixote (O mon maA�tre, A? mon grand!).

Gregory Reinhart e Eduardo Amir em "Dom Quixote"
Gregory Reinhart e Eduardo Amir em “Dom Quixote”

 

A mezzo-soprano Luiza Francesconi deu vida a uma personagem que existe apenas na A?pera. Se, no romance de Cervantes, Dulcineia aparece apenas nos relatos de Quixote, na obra de Massenet ela ganha (bela) forma, em um misto de cortesA? e mulher A� frente de seu tempo. “Foi um processo interessante pensar de forma concreta uma personagem que, em essA?ncia, representa o ideal, o sonho”, declarou o diretor ao EstadA?o. A intA�rprete responde muitA�ssimo bem, tanto no aspecto vocal como cA?nico. SA?o notA?veis suas mudanA�as de semblante, revelando as emoA�A�es da personagem a�� exemplo disso A� a expressA?o de surpresa logo apA?s a proposta de casamento de Quixote. A bela voz encaixa-se sob medida A�s bonitas passagens da partitura. JA? encanta desde o comeA�o com Quand la femme a vingt ans online , no primeiro ato, e enfeitiA�a em Alza! Ne pensons qua��au plaisir da��aimer, no quarto ato (acompanhada pela guitarra flamenca de Luciano CA?mara). Transita com desenvoltura e graA�a entre sentimentos como sarcasmo (Me marier, moi!, no quarto ato) e afetuoso lirismo, expresso nos arrebatadores duetos com Quixote: tadalafil alternative Order Vous A?tes, monseigneur (primeiro ato) e, particularmente, Cheap Oui, je souffre votre tristesse (quarto ato).

Os cantores escalados para os papA�is secundA?rios tambA�m fizeram A?timo trabalho. As soprani Marianna Lima (Garcias) e Roseane Soares (Pedro) executaram bem suas pequenas participaA�A�es. O tenor AnA�bal Mancini (Rodriguez) ocupou todos os espaA�os possA�veis de seu pequeno personagem com voz brilhante e muito bem projetada. O barA�tono AndrA� Rabello (Juan), apA?s um primeiro ato vacilante, cresceu atA� uma boa atuaA�A?o no quarto ato (isso quanto A� voz; o aspecto cA?nico acusou certa falta de verdade emocional). Por fim, como lacaios da taberna, o tenor Ricardo Tuttmann e o barA�tono Ciro D’AraA?jo foram irretocA?veis. Por fim, eficiente como de costume, o Coro do Theatro Municipal do RJ, preparado por JA�sus Figueiredo, exibiu a rica sonoridade habitual.

 

Que a alegria perfume os caminhos

Uma A?tima ambientaA�A?o cercou esses intA�rpretes de alto quilate. A comeA�ar pelos cenA?rios do argentino Nicolas Boni. A partir das clA?ssicas ilustraA�A�es de Gustave DorA� para o livro de Cervantes, o cenA?grafo conseguiu criar um ambiente funcional e expressivo a�� desde uma praA�a mais realista (nos atos I e IV) a uma montanha mais estilizada (no terceiro ato). Com diversos planos, permitiu A?timo aproveitamento cA?nico do amplo palco do Municipal carioca. Merece destaque ainda a lA?dica concepA�A?o cenogrA?fica para o cavalo Rocinante e o burrico Rucio. Em grande parte do tempo, os cenA?rios receberam bonita luz de Ney Bonfante, com palheta de ocres aos violetas que harmonizavam com os figurinos e adereA�os (especialmente no quarto ato).

TambA�m inspirados nas gravuras de DorA�, os figurinos de FA?bio Namatame continham traA�os estilizados nas estampas dos aldeA�es. Os costumesA�de Dom Quixote e Sancho PanA�a aproximavam-se do realismo. O grande equA�voco, entretanto, foram os vestidos de Dulcineia: um branco no primeiro ato e um preto no penA?ltimo, ambos bordados de lantejoulas como trajesA�de festa a�� ainda que elegantes e inspirados nos trajes das damas espanholas, mostravam-se bastante descontextualizados do conjunto e da abordagem estilA�stica (o vestido preto, por exemplo, parecia figurino de O Beijo da Mulher-Aranha).

Luiza Francesconi cercada por AnA�bal Mancini, Roseane Soares e AndrA� Rabello
Luiza Francesconi cercada por AnA�bal Mancini, Roseane Soares e AndrA� Rabello

 

Excelente foi a contribuiA�A?o da coreA?grafa espanhola Nuria CastejA?n na criaA�A?o dos balA�s flamencos que ocupam a cena nos dois atos que se passam na praA�a diante da casa de Dulcineia. No cA?mputo geral, a concepA�A?o e a direA�A?o de Jorge Takla foram de soluA�A?o simples e bastante eficientes e inspiradas (ainda que tenha faltado uma pitada de criatividade para a cena de Quixote e Dulcineia no primeiro ato), abrindo espaA�o para a mA?sica, as interpretaA�A�es (belo trabalho com o elenco) e a histA?ria em si. “A mA?sica A� linda e diz tudo, entA?o pra que inventar, fazer uma encenaA�A?o pseudomoderna, dizendo que A� outra coisa?”, declarou Takla A� Folha de SP.

TambA�m se curvou A� bela partituraA�de Massenet a direA�A?o musical do maestro Luiz Fernando Malheiro (regente na rA�cita do dia 13). A� frente da Orquestra SinfA?nica do Theatro Municipal, fez um bom trabalho, com momentos brilhantes especialmente nos interlA?dios entre os atos a�� o que antecede o quinto ato foi particularmente brilhante, para o que contribuiu sobremaneira o esplA?ndido lamento do violoncelo de Pablo Uzeda, levado ao palco apA?s a rA�cita e ovacionado pelo pA?blico.

Pairando em torno da inebrianteA�mA?sica de Jules Massenet, soberbamente executada por mA?sicos e pelo trio central, Dom Quixote traz ventos perfumados com valores nobres (e um pouco esquecidos em nossos dias), como honra, fidelidade, inocA?ncia, dignidade e respeito. Mesmo que as pedras de mA? insistam em triturar alguns dos nossos sonhos mesquinhos e reduzir nossas ilusA�es a pA?, os gA?nios da arte continuarA?o a soprar em nossos rostos o que verdadeiramente importa nessa nossa existA?ncia.

online Fotos: JA?lia RA?nai

Leia tambA�m a crA�tica de Leonardo Marques

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com