Artigo

O estigma de Mussorgsky

Uma das mais fascinantes figuras da história da música, Modest Petrovitch Mussorgsky (1839-1881), não foi apenas o expoente máximo da escola nacionalista russa, como também um dos mais criativos compositores de todos os tempos. Junto com Mily Balakirev, Alexander Borodine, César Cui e Nicolai- Rimsky-Korsakov, Mussorgsky constituiu o famoso  “Grupo dos Cinco”.

Este grupo empenhou-se na criação de uma arte musical especificamente nacional, cujas formas e temas  foram encontrados no riquíssimo folclore russo e nas  grandes figuras da história do país. A música de Mussorgsky tem sido caracterizada como realista mas, segundo ele próprio, “a pura e simples reprodução artística da beleza, é uma grosseira puerilidade, a primeira infância da arte”.

Mussorgsky se destacou  como o mais autêntico  nacionalista  desse grupo, mas sua vida não foi a de um homem feliz : a penúria econômica, a epilepsia, a dipsomania e talvez as  perturbações da sexualidade constituíram traços marcantes de sua existência. Entretanto, legou à música universal obras originalíssimas plenas  das lendas e costumes  do povo russo e sua criação mais representativa nesse sentido e mais famosa, é o seu poema sinfônico “Uma Noite no Monte Calvo”.

A maioria de suas geniais criações ficou em esboços e manuscritos truncados e repleto daquilo que seus contemporâneos consideravam imperfeições estéticas e de  técnica composicional. A critica moderna tem  procurado recuperar a forma original de suas partituras e, com esse trabalho,  evidenciou o fato de que seus “erros” eram, na verdade, soluções inovadoras. Tchaikovsky,  apesar de não gostar da música de Mussorgsky, reconheceu seu gênio criativo afirmando: “Não obstante a todos seus horrores, Mussorgsky fala uma língua nova. Ela não é bela, mas é nova”.

 

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Mussorsky jamais se casou e suas ligações com mulheres não passaram do nível platônico ou da simples amizade. Segundo M.D.Calvocoressi,  “ele jamais se interessou em expressar na música as emoções do amor”. Esse fato, ligado ao horror pelo casamento (atestado por amigos e  em várias de suas cartas), fez crescer a ideia de que essas emoções lhe eram estranhas. Segundo outro estudioso, Karatigin, em sua adolescência em Karevo, ele teria se interessado por uma prima e em cartas do crítico Stasov e Findeisen, teria se apaixonado durante algum tempo (provavelmente 1859/60), por uma brilhante dama da sociedade – Maria Shilofskaya – e depois por uma jovem cantora de ópera – A. Latischeva.

Mais tarde teria sofrido muito por um grande amor, provavelmente platônico, por Nadejda Opochinina, cuja  memória esta presente em seu admirável “Epitáfio” de 1875. Isso é tudo que se pode  dizer a respeito de suas afeições por mulheres. Uma certa delicadeza interior nunca  permitiu que ele tocasse em tais assuntos em suas cartas ou conversas e o levava a evitar  temas possivelmente escabrosos. Certa vez confessou a Balakirev que “tinha afundado na lama em um caso com uma mulher”, mas não deu pormenores.

 

UMA IMPOTÊNCIA PURA E SIMPLES

Por outro lado, Mussorgsky sempre foi ligado aos amigos com muitos dos quais  residiu e aos quais se referia calorosamente. Isso, junto ao seu insucesso com as mulheres, suas ideias sobre o  casamento  e a castidade, além de seu extremo apego à figura de sua mãe – falecida em 1865- levou alguns estudiosos desacreditáveis  a falar de um possível homossexualismo, o que, porém, jamais foi comprovado.

É provável que seus tormentos pessoais  decorressem  de uma impotência pura e simples, talvez resultante do  alcoolismo ou da consciência que tinha  de sua enfermidade. E foi o  alcoolismo, adquirido nos tempos da  escola de cadetes, onde  o comandante elogiava aqueles que voltavam  das farras  ébrios, carregados  por seus colegas, que o levou à morte, precocemente em 1881, aos  42 anos de idade.

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Aristides A. J. Makowich
Dedica-se à música desde quando freqüentou o Conservatório da Sociedade Dramático-Musical Carlos Gomes, de Blumenau. Há mais de 20 anos, está voltado à divulgação da música clássica no programa "A música dos grandes mestres" em Londrina. Publicou artigos sobre música clássica e seus compositores, nos jornais desta mesma cidade.