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O encantador Orfeu

A despeito de gestões pobres, narcísicas ou egoístas, o recalcitrante Theatro Municipal do Rio de Janeiro abre suas portas para uma atração notável: a estreia latino-americana da ópera Orphée, de Philip Glass, baseada no filme homônimo de Jean Cocteau, que, por sua vez, tem como base o ancestral mito grego do poeta Orfeu.

Lá se vão séculos desde que o herói tocador de lira surgiu nas artes. Um dos registros mais antigos está no século 6 a.C., mais precisamente na Quarta Pítica, do poeta grego Píndaro de Cinoscefale (c. 522 a.C-443 a.C.). O mito inspirou também a tragédia renascentista de Angelo Ambrogini, comumente conhecido como Poliziano (1454-1494), composta em 1480, que serviu de ponto de partida para Ottavio Rinuccini (1562-1621) escrever o libreto de Euridice (1600), ópera de Jacopo Peri (1561-1633) – a primeira ópera que nos chegou em sua totalidade.

Segundo Rosalind Halton, foram mais de 20 obras (óperas, balés, intermédios e mascaradas) sobre o tema compostas de 1599 a 1699. Entre elas está L’Orfeo, favola in musica (1607), composta por Claudio Monteverdi (1567-1643) sobre libreto de Alessandro Striggio, o Jovem (1573-1630) – uma das primeiras obras catalogadas como ópera. Mais de 400 anos depois, o mesmo tema mitológico encanta o compositor norte-americano Philip Glass (1937-), autor de Orphée, estreada em 1993 e ora em cena no Rio de Janeiro.

 

O poder do mito

Orphée, Les Enfants Terribles (1993) e La Belle et la Bête (1994) constituem a Trilogia Cocteau – obras calcadas em filmes do poeta e cineasta francês Jean Cocteau (1889-1963). Em dois atos e 18 cenas, a ópera de Glass tem como base o roteiro do filme de 1950, no qual Orfeu é uma celebridade das artes na Paris pós-guerra.

Em linhas gerais, é a história de um poeta exitoso, mas hostilizado por seus pares. Casado com Eurídice, ele fica fascinado pela Princesa – na verdade, a Morte –, figura sempre acompanhada por seu motorista Heurtebise. Quando Eurídice morre, Orfeu vai buscá-la no Reino dos Mortos. Como na obra de Cocteau (e em diversas das versões operísticas do passado), a ópera de Glass traz diversos desvios e reinvenções em relação à narrativa tradicional do mito grego.

Leonardo Neiva e Giovanni Tristacci rumo ao mundo dos mortos

 

São diversas e ricas as possibilidades de entendimento da força emocional e psicológica desse mito. Afinal, como dizia Roland Barthes, “le mythe est un système de communication, c’est un message” (Mythologies).

A começar por sua representação arquetípica do artista, já que o poeta e cantor grego era capaz de encantar as sereias e fazer moverem-se as rochas com sua voz e sua lira. Este instrumento, como uma varinha de condão, representa o encantamento que a fruição estética pode ocasionar.

Existe ainda a própria trajetória do herói em sua jornada de iniciação – a mesma que, pasteurizada, existe na base de tantas narrativas hollywoodianas. A pureza de Orfeu é confrontada com a iniciação de Eurídice (representada simbolicamente pela serpente que a picou, como picou a Eva, a fez distinguir o Bem e o Mal, e, assim, ser expulsa do Paraíso). Para desvendar os mistérios do mundo (e de si mesmo), Orfeu desce ao Hades e enfrenta o barqueiro Caronte (o preço que se paga pela jornada interior), o cão de três cabeças Cérbero (amálgama das questões sombrias que cada um esconde) e os três Juízes da Morte (que permitem o processo de autodescoberta).

O mito atravessa ainda a questão da plural (ainda que uns não admitam) sexualidade humana. Descobrir-se, no entanto, compreende ainda assenhorar-se de seus desejos. E se o olhar é a primeira forma de desejo, é notável que a Orfeu seja negado o direito de olhar para sua amada Eurídice após o resgate, durante o retorno ao mundo dos vivos. No mito original, o poeta não crê que seja realmente sua mulher que o segue e olha, fazendo-a desaparecer para sempre – há aventuramento sexual sem confiança? E mais: há versões da narrativa ancestral nas quais o herói, após perder definitivamente Eurídice, é destroçado pelas Bacantes porque se recusava a olhar para outras mulheres após a morte de sua amada (ou, para alguns, passou a relacionar-se com homens).

Por fim, de forma mais abrangente, o mito versa também sobre a dicotomia entre apolíneo e dionisíaco (vide Nietzsche em O Nascimento da Tragédia), isto é, o contraste entre o espírito da ordem, da racionalidade e da harmonia intelectual, representado pelo deus Apolo, e o espírito da vontade de viver espontânea e extasiada, representado pelo deus Dioniso. Há versões do mito nas quais Orfeu é filho do próprio Apolo (com a musa Calíope); em outras, foi o deus luminoso lhe deu uma lira, a qual aprendeu a usar com as musas. A mesma lira que lhe concede poder e glória há séculos.

 

O herói de mil faces

A montagem de Orphée em cartaz no Theatro Municipal do Rio de Janeiro evoca de alguma forma, por meio do filme francês, o arcabouço simbólico do mito e, ao mesmo tempo, demonstra uma saudável ousadia da casa lírica carioca.

Na ópera, a escolha pelo preto e branco em cenários e figurinos vai além de remeter à película francesa: na medida em que é uma estilização (o mundo não é PB), a opção parece evocar uma estilização que nos distancia da realidade e nos aproxima de um mundo onírico, irreal, mitológico.

A valsa de Leonardo Neiva e Ludmilla Bauerfeldt

 

Os cenários e figurinos respondem à direção de arte de Daniela Thomas e Felipe Tassara. Os costumes, de Marcelo Pies, são em branco, preto e cinza são elegantes e, discretamente, aludem ao filme e ao momento no qual a trama se passa. Nos décors, mobiliário branco e uso inteligente dos espelhos, fundamentais na obra de Cocteau. Os reflexos causam belo (e às vezes surpreendente) jogo cênico, sublinhados pela bonita iluminação de Beto Bruel.

A direção cênica de Felipe Hirsch foge do naturalismo, com maneirismos e soluções que causam bons resultados (à exceção da decisão de colocar a ação do meio do palco para trás, o que causou desequilíbrio entre o volume da projeção de alguns cantores e a sonoridade da orquestra na primeira metade do ato 1). Há gestos teatrais, coreográficos, repetitivos – um pouco como a música de Glass, calcada em células que se repetem. Contribui sobremaneira para esse bonito efeito da mise-en-scène a direção de movimento/coreografia de Priscila Albuquerque e Bruno Fernandes – uma das mais bem resolvidas recentemente vistas em produções da Casa lírica.

A formação camerística da Orquestra Sinfônica do TMRJ, sob a regência firme e graciosa de Priscila Bomfim, deu vida à partitura minimalista de Glass sem jamais perder o viço e o entusiasmo.

Como o poeta Orphée, o tarimbado barítono Leonardo Neiva cantou com musicalidade e sua habitual excelente projeção. A ele faltou, talvez, uma dose de arrebatamento em sua desenvoltura. A soprano portuguesa Carla Caramujo emprestou sua voz à Princesa. No primeiro ato, sua voz pouco furou a orquestra; mas sua performance melhorou ao longo da récita, chegando a um comovente final.

A soprano Ludmilla Bauereldt entregou-se totalmente à Eurídice. Apoiado em ótima técnica, seu canto expressou a doçura e a ponta de tristeza de sua personagem, e rendeu-lhe uma excelente participação. Tão notável quanto foi a atuação do tenor Giovanni Tristacci como Heurtebise. Voz irretocável e performance cênica eloquente e sagaz possibilitaram ao artista até mesmo momentos de discreto humor.

Os papeis coadjuvantes foram, na maioria, bem defendidos pelos solistas do Theatro Municipal. Respectivamente como Cégeste e Aglaonice, o tenor Geilson Santos e a mezzo Lara Cavalcanti mostraram maturidade artística e vocal. O baixo Murilo Neves carece ainda de um toque de clareza na emissão de sua potente voz. O baixo Patrick Oliveira (Comissário/Policial) e o tenor Ivan Jorgensen (Repórter/Vidraceiro) têm timbres agradáveis e suas atuações foram corretas.

 

Mito e transformação

Na noite de abertura (25 de outubro), na qual ocorreu a estreia latino-americana da obra, o Theatro Municipal parecia estar com metade dos assentos vazios. Isso, de alguma forma, revela o preço pago pelo arrojo de incluir na temporada uma ópera contemporânea, especialmente em uma casa na qual não há regularidade na programação. Os cariocas que não têm sua dose anual de Mozarts, Puccinis e Verdis parecem não se deixar seduzir pelo canto e pela lira do mito grego.

No entanto, em vez de demérito, reside nesta ousadia da direção artística do TMRJ o maior mérito da atração. Nada justifica a ausência dos grandes títulos líricos nos palcos do centenário Theatro com regularidade. Sim, deveria haver constância de Giovannis, Tannhäusers, Violetas, Aídas, Carmens e Rodolfos. Mas, como bem expressa o dito popular, “o ótimo é inimigo do bom”. Não é pela falta das óperas mais célebres com regularidade na programação que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro não tenha o dever de apresentar a seu público títulos novos ou pouco conhecidos. E é exatamente isso que faz com este encantador Orphée.

 

Fotos: Ana Clara Miranda

 

Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com