CantoCríticaLateralRio de Janeiro

O Brasil que dA? certo e o que nA?o dA? certo

Em recital na Sala CecA�lia Meireles, tenor Atalla Ayan exibe voz poderosa e tA�cnica apurada.

 

Diariamente, ao ler os jornais, ouvir o rA?dio ou assistir ao noticiA?rio na TV, ou mesmo quando navegamos pela internet e pelas redes sociais, nA?s nos deparamos invariavelmente com mais notA�cias negativas que positivas. Nos A?ltimos anos, entA?o, com o advento da muito bem-vinda operaA�A?o Lava-Jato, que passou a desnudar a maneira vadia e corrupta como a polA�tica A� conduzida no Brasil, praticamente sA? nos deparamos com notA�cias ruins.

E ainda sofremos com o excesso de violA?ncia: o Brasil A� um dos paA�ses mais violentos do mundo, e as estatA�sticas estA?o aA� para provar que, aqui, hA? mais pessoas assassinadas que em muitos paA�ses que vivem em guerra. NA?o A� difA�cil concluir que a corrupA�A?o e a violA?ncia comeA�am e terminam na polA�tica, atravA�s das escolhas e atitudes erradas, ou no mA�nimo bastante questionA?veis, de nossos politiqueiros.

Entrando finalmente na nossa seara, tambA�m a total ausA?ncia de apoio irrestrito e consistente A� Cultura (com a consequente inexistA?ncia de polA�ticas culturais sA�rias e duradouras) A� tambA�m culpa da mediocridade da polA�tica brasileira. Na parte final deste texto, voltarei a abordar mais especificamente as nossas mazelas culturais. Por ora, abro um grande parA?ntese para falar de um pedaA�o do Brasil que dA? certo e que nos orgulha atravA�s da arte.

 

O paA�s que dA? certo…

Em recital neste domingo, 28 de maio, na Sala CecA�lia Meireles, no Rio de Janeiro, o tenor paraense Atalla Ayan, uma das vozes lA�ricas brasileiras de maior destaque internacional (se nA?o a�?aa�? de maior destaque) atualmente, ofereceu ao pA?blico um pouco de seus predicados.

Muito bem acompanhado pela pianista Priscila Bomfim, o tenor abriu o recital com uma impecA?vel Adelaide, de Beethoven, seguindo em frente com quatro canA�A�es de Vincenzo Bellini: Dolente immagine di fille mia; Vaga luna lexapro side effects in men ; Ma rendi pur contento; e Vanne o rosa fortunata. Se, em Beethoven, Ayan pA?de explorar a riqueza dos coloridos, em Bellini, exibiu, atravA�s do esmalte de sua voz, toda a delicadeza das melodias, obtendo especial rendimento nas duas A?ltimas peA�as.

A primeira parte reservava ainda duas A?rias: Una furtiva lagrima, da A?pera La��elisir da��amore, de Donizetti; e Order Il mio tesoro intanto, do Don Giovanni online , de Mozart. Atalla Ayan atacou a primeira de maneira magistral, fraseando lindamente e demonstrando porque merece a fama de que desfruta. JA? a peA�a de Mozart, se poderia exigir uma voz mais leve que aquela que o artista ostenta hoje, foi muito bem defendida, especialmente quando comparamos a interpretaA�A?o do tenor com a qualidade mA�dia com que Mozart costuma ser defendido em terras tupiniquins…

Para quem, como este autor, jA? conhecia Atalla Ayan de suas atuaA�A�es anteriores no Rio de Janeiro (Jaquino, em Fidelio; e Romeu, em Romeu e Julieta), nA?o foi surpresa constatar nesta primeira metade da noite toda a beleza de seu timbre viril, a qualidade A�mpar de sua projeA�A?o (aqui ressaltada ainda mais pela acA?stica impecA?vel da Sala CecA�lia Meireles), a riqueza de seus fraseados e a delicadeza com que o cantor colore e valoriza as peA�as que interpreta.

A segunda parte comeA�ou com a sempre irresistA�vel La Danza, de Rossini, e com ela veio o A?nico deslize perceptA�vel da noite, tanto da pianista, que escorregou brevemente na passagem solo do piano que separa as duas partes da peA�a, quanto do tenor, que acabou a�?comendoa�? uma ou duas palavras da letra da prestissima canzonetta. Apesar disso (e aqui A� preciso dizer que A� muito raro encontrar um intA�rprete que nA?o a�?comaa�? pelo menos uma ou duas palavras ao interpretar a canA�A?o), o espA�rito italianA�ssimo dessa peA�a deliciosa acabou superando qualquer exigA?ncia de crA�ticos chatos, e arrebatou o pA?blico, como jA? era de se esperar.

Se jA? estava mais do que demonstrada a tA�cnica primorosa de Atalla Ayan, faltava-lhe ainda oferecer ao pA?blico uma demonstraA�A?o maior de expressividade, e esta veio com a sA�rie seguinte de canA�A�es de Paolo Tosti: Ideale; Non ta��amo piA?;A�Vorrei morire; e http://unistick.ru/costco-celadrin-cream lithium how much does it cost La��alba separa dalla luce la��ombra (o verbo estA? grafado incorretamente no programa de sala). Aqui, o tenor caprichou nos recursos expressivos, especialmente na primeira canA�A?o, interpretada com requinte.

JA? no fim do programa oficial, ouvimos a conhecida canA�A?o napolitana Core a�?ngrato (a segunda palavra do tA�tulo tambA�m estA? grafada incorretamente no programa de sala), cantada lindamente a plena voz; e, por fim, a A?ria Pourquoi me rA�veiller, da A?pera Werther, de Massenet, outro belo veA�culo aproveitado pelo tenor para exibir sua capacidade expressiva.

Apesar de a canA�A?o napolitana Torna a Surriento, prevista no programa, nA?o ter sido interpretada, Atalla Ayan brindou o pA?blico com trA?s bis, comeA�ando com a A?ria Che gelida manina, de La BohA?me, de Puccini; seguindo com El dA�a que me quieras, canA�A?o de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, interpretada ao lado do cantor popular MA?rcio Gomes (amigo do tenor); e, encerrando a noite, desta vez pra valer, o tenor atacou a A?ria No puede ser, da Cheap http://bordereim.de/?p=5946 zarzuela La Tabernera del Puerto, de Pablo SorozA?bal. O primeiro e o terceiro bis, especialmente, interpretados com bravura.
NA?o posso encerrar esta anA?lise sem ressaltar, ainda, o belo conjunto formado pelo tenor e pela pianista. Se considerarmos que ambos praticamente nA?o puderam ensaiar (Ayan chegou ao Brasil na vA�spera do recital), o belA�ssimo resultado final pode ser creditado a um desses milagres da mA?sica, e tambA�m ao grande talento de ambos, naturalmente.

 

http://shop.befashionlike.net/?p=51985 … e o que nA?o dA? certo

Pouco antes de encerrar o programa inicial, dirigindo-se ao pA?blico, Atalla Ayan disse que estava com saudades de cantar na cidade, onde nA?o se apresentava hA? sete anos. Demonstrando simplicidade e sinceridade, o artista lembrou que foi no Rio que ele cantou pela primeira vez profissionalmente fora da sua BelA�m natal, a convite do entA?o diretor artA�stico do Theatro Municipal, maestro Silvio Viegas. E prestou solidariedade aos colegas do mesmo Municipal, que vA?m sofrendo com o sistemA?tico atraso de seus salA?rios.

Ayan confessou-se ainda apaixonado pelo Rio e disse que, se pudesse, moraria aqui. Sinceramente, creio que para um cantor lA�rico de carreira internacional, cada vez mais requisitado por grandes casas de A?peras, morar em uma cidade como o Rio, pelo menos sob o ponto de vista profissional, seria um atraso de vida: alA�m de o Brasil estar longe dos grandes centros da mA?sica clA?ssica e lA�rica (a Europa e os Estados Unidos) a�� o que lhe demandaria sempre longas e cansativas viagens se quisesse manter sua agenda internacional a��, nossas temporadas tA?m um carA?ter totalmente marginal, ou seja, estA?o A� margem (bem, bem A� margem) dos grandes centros supracitados, de forma que, aqui, Ayan cantaria pouquA�ssimas vezes ao longo de um ano, em comparaA�A?o com o que canta na Stuttgart em que mora e em outros lugares onde A� convidado.

Atalla Ayan, esta joia bruta que veio de BelA�m e que foi ao longo do tempo lapidando e aprimorando a sua arte, atA� chegar ao alto nA�vel em que se encontra atualmente, representa o Brasil que dA? certo, talvez por ser um brasileiro que tem o privilA�gio (merecidA�ssimo, registre-se) de desenvolver a sua carreira principalmente em lugares que sabem valorizar a sua arte, o seu talento e o seu esforA�o.

Aqui na terrinha, no Brasil que nA?o dA? certo, orquestras estA?o fechando, falindo, sendo diminuA�das ou corroA�das pela politicagem vagabunda de que todos somos vA�timas. Nossos teatros de A?pera quase nA?o montam A?peras: uns por pura falta de interesse, outros por falta de verbas, a maioria sequer sabe como se comeA�a a caA�ar patrocinadores, e quase todos ainda sofrem com a pequenez de seus administradores, incapazes de dialogar entre si. Aqui, nos A?ltimos tempos, trocam-se atA� os administradores de nossos teatros no meio do mesmo governo ao qual eles estA?o vinculados, sem qualquer benefA�cio claro, por pura politicagem.

Eu falei patrocinadores? Bem, por falar neles, as possA�veis empresas que aqui nA?o tA?m dinheiro para a Cultura, costumam ter para bancar campanhas de vagabundos via caixa 2, para corromper agentes pA?blicos etc., etc. Para isso nA?o falta dinheiro.

O tenor disse ainda, num papo coletivo depois de seu recital, que pretende cantar novamente no Theatro Municipal do Rio assim que possA�vel. Atalla Ayan pode ter a completa certeza de que serA? sempre bem-vindo ao Rio de Janeiro, e que o pA?blico carioca estarA? A?vido para aplaudi-lo, mas para vir cantar uma A?pera no Municipal serA? preciso primeiro combinar com os russos. Os a�?gestoresa�? do Municipal nA?o sabem nem o que a casa apresentarA? daqui a dois meses. E se sabem, nA?o contam para ninguA�m porque nA?o tA?m certeza se a coisa realmente serA? levada ao palco. O que dirA? achar uma brecha na agenda movimentada de um disputado cantor internacional. Para um recital atA� pode acontecer, como, aliA?s, se deu agora na Sala CecA�lia Meireles (e somente porque a instituiA�A?o contou com a completa boa-vontade do artista), mas para uma produA�A?o completa de A?pera, A� bem mais difA�cil achar essa brecha em cima da hora.

Enquanto as nossas casas de A?pera continuarem se pautando pela mediocridade administrativa, nossas temporadas continuarA?o a ser elaboradas da mesma forma que o sA?o hA? dA�cadas: na base do improviso e do nosso desgraA�ado a�?jeitinhoa�?.

 

Foto: Vitor Jorge

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com