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O Beijo partido

Musical O Beijo no Asfalto, em cartaz no Rio de Janeiro, é irregular e dilui dramaturgia rodrigueana.

 

Escrita em 1960 e incluída entre as tragédias cariocas do dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980), o clássico O Beijo no Asfalto foi encomendada pela companhia Teatro dos Sete e encenada pela primeira vez em 1961, com direção de Gianni Ratto e estrelada por Fernanda Montenegro, Sérgio Britto, Ítalo Rossi, Francisco Cuoco e Suely Franco, entre outros. A trama é inspirada em um fato verídico – o atropelamento de um repórter no Rio de Janeiro. O moribundo pede um beijo a um jovem que o acudia. Mais de meia década depois da estreia, a peça transforma-se em musical com composições de Claudio Lins e direção de João Fonseca.

Também produtor, Lins encabeça o elenco como Arandir, cuja vida é infernizada após o inocente beijo na Praça da Bandeira. Sua atuação é verdadeira e seus talentos como cantor são conhecidos. Como sua esposa, Laila Garin é o grande achado do elenco. Sua Selminha tem um toque trágico e, como cantora, ela imprime às canções enorme dramaticidade. O ar austero imposto a Aprígio, o pai, por Gracindo Júnior é bastante interessante. Yasmin Gomlevsky convence como Dália, a irmã mais nova, ainda que não alce altos voos. Thelmo Fernandes dá vida ao jornalista Amado Ribeiro de forma bastante visceral e com assustadora crueza.

No entanto, em meio a ótimas atuações, alguns trabalhos destoam. Claudio Tovar pesa na caricatura do Delegado Cunha e, a seu lado, Jorge Maya é completo equívoco ao tentar fazer graça com o ajudante Aruba. Em papeis secundários, Janaína Azevedo (D. Mathilde), Gabriel Stauffer (Werneck), Pablo Áscoli (o morto), Ricardo Souzedo (Pimentel), Juliane Bodini (Viúva) e Juliana Marins (D. Judith), em geral, alcançam o desempenho esperado.

Laila Garin (foto de Felipe Panfili)
Laila Garin (foto de Felipe Panfili)

 

Diretor tarimbado inclusive em dramaturgia rodrigueana, tendo ganho o prêmio Shell, ao lado de Antonio Abujamra, pela direção de O Casamento, com o grupo Os Fodidos Privilegiados, Fonseca mantém o texto original, ao qual são acrescidas as canções de Lins. Apesar da qualidade das composições, que remetem, na maioria, à musicalidade dos anos 1960 de Vicente Celestino e Dolores Duran, as canções, muitas vezes, são redundantes à narrativa e, com isso, represam a fluidez da prosa rodrigueana. À exceção de momentos brilhantes, como Não foi o primeiro beijo e Toda noite, densas e integradas à emoção dos personagens, as composições diluem a tensão ao comentarem os acontecimentos, sem nada acrescentar, ou – pior – divergem completamente da atmosfera do espetáculo, como o funk que abre o segundo ato.

No aspecto técnico, tudo funciona a contento. A direção musical de Délia Fischer é rica. A cenografia de Nello Marrese vai enchendo a cena de jornais e mais jornais, causando bom efeito estético, com auxílio da boa luz de Luís Paulo Nenén. Os figurinos de Claudio Tovar são bem criados e funcionam com o visagismo de Marcia Elias.

O talento do diretor João Fonseca é inquestionável – basta olhar para sua vasta carreira e, se não, à sua recente Electra, uma das melhores peças de 2015. Porém, em O Beijo no Asfalto – O Musical, algumas soluções cênicas enfastiam e/ou não funcionam, como a repetição ad aeternum do momento do ósculo e a desastrosa cena do enterro, à qual se tentou imprimir humor pastelão. A questão mais incômoda é a chocante irregularidade da montagem: há ótimas cenas e cenas completamente infelizes; há canções memoráveis e outras absolutamente dispensáveis. Apesar da competência de todos os envolvidos, a nova abordagem em formato musical em nada contribui para a genialidade da peça de Nelson Rodrigues – ao contrário, dilui o texto e o enfraquece. Esse é um beijo que não tem gosto de quero mais.

 

Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com