CríticaLateral

“O Barbeiro de Sevilha” ou “O Retorno de Roberto Leal”

Na década de 1970, não havia no Brasil quem não conhecesse o cantor lusitano Roberto Leal.

O carismático português vendeu milhões de discos que traziam sucessos como “A Dança do Tiro Liro” e “Arrebita”. Não, você não está lendo a crítica errada. É que o peculiar corte de cabelo de Roberto Leal foi utilizado, com bastante êxito, como um dos estratagemas empregados pelo Conde de Almaviva para se aproximar de sua amada Rosina na simpática produção de “Il Barbiere di Siviglia” (“O Barbeiro de Sevilha”), de Gioachino Rossini, levada a cabo na noite de 08 de novembro de 2014 no Theatro Carlos Gomes, em Vitória.

Com boa direção cênica de Francisco Mayrink Purchase Pills , que empregou recursos modestos mas eficientes e valorizou a interação entre os cantores, a montagem se destacou pelos numerosos momentos de grande comicidade. Menções à moqueca capixaba, diversas alusões a outras óperas nos recitativos (ouvimos passagens de “Lohengrin”, “Don Giovanni” e “Le Nozze di Figaro”) e momentos de comédia pastelão levaram o público ao delírio – como a inusitada peruca loira, utilizada por Don Basilio e posteriormente por Almaviva quando esse se disfarça de Don Alonso.

No que tange aos cantores, acreditamos ser difícil destacar apenas um nome. O Fígaro de Lício Bruno isoniazid price philippines , que cantou um excepcional “Largo al factotum”, foi o mais regular em cena. Dono de voz generosa, de timbre escuro,  homogênea e com adequada agilidade para o papel, Lício se saiu muito bem como o sagaz faz-tudo. Um desempenho irretocável. Seu humor foi, justificadamente, mais sutil do que o empregado pelo Bartolo de Márcio Marangon. Enquanto o barbeiro fez uso de discretas olhadelas, frases ditas em surdina e gestos velados, o velho tutor se caracterizou pelo histrionismo, pelo humor mais escrachado. Marangon é sem dúvida nenhuma um excelente “buffo na linha de Sesto Bruscantini, daqueles que podem cantar Uberto, Don Pasquale, Dandini e tantos outros papéis que pedem esta linha de interpretação. Se a voz não é tão rica em volume, possui o timbre picaresco e a versatilidade que devem se sobressair nos que interpretam personagens cômicos. Transpôs com coragem o rápido “sillabatoem “signorina,unaltra voltaquandoBartoloandràfuori Cheap ”.Uma grande atuação.

O casal apaixonado foi vivido por Luciana Bueno e Gilberto Chaves. A experiente cantora (em termos de repertório, pois ainda é jovem) tem sido uma escolha segura para alguns dos papéis mais desafiadores para mezzo-soprano, como Rosina e Cenerentola. Impressionante a conjunção entre a facilidade na emissão dos agudos e a projeção imponente das notas mais graves, bem como o domínio da coloratura. Extremamente convincente em cena como a esperta pupila de Bartolo, que dá nó em pingo d’água para burlar a vigilância do tutor. Por sua vez, o tenor – que recentemente estreou no Festival Amazonas de Ópera e no Theatro Municipal de São Paulo – evoluiu satisfatoriamente ao longo da récita. Técnica sólida, que lhe permitiu encarar sem temor as passagens mais ornamentadas da partitura e arriscar algumas notas sobre-agudas, emitidas com limpidez e que correram bem pelo teatro. Boa versatilidade ao adaptar o timbre quando encarnou o soldado bêbado e o falso mestre de música Don Alonso.

Os cantores locais também agradaram. Alessandro Santana cheap cytoxan drug , no papel de Basílio, apresentou uma boa rendição da ária da calúnia. Atento aos detalhes que caracterizam seu excêntrico personagem, não se intimidou ao contracenar com cantores de renome. Voz sólida, com timbre adequado para papéis como Sparafucile e o Commendatore. Igualmente adequada a participação de Isabella Luchi no papel de Berta, que foi muito aplaudida após cantar “Il vecchiotto cerca moglie”. Uma clássica voz de “soubrette”, com emissão de bom nível e agudos límpidos.

As participações dos demais comprimários (João Marcos Charpinel no papel de Fiorello e do Oficial, Marcos Stefani doxycycline for dogs for sale canada como o Notário e Júnior Rocha como Ambrógio), bem como do Coro e da Orquestra da Companhia de Ópera do Espírito Santo – COES, estiveram plenamente integradas ao contexto já apontado. Ofereceram excelente suporte cênico e vocal para os protagonistas, enriquecendo substancialmente os “finales”.

De altíssimo nível a regência de Leonardo David. Manteve o controle do conjunto com pulso firme e soube extrair significativa sonoridade da pequena orquestra, ao executar empolgantes “crescendi” ao longo da récita. Soube corrigir com rapidez e discrição os pequenos desencontros entre instrumentistas e cantores, corriqueiros em qualquer montagem de ópera. Compreensão e domínio do estilo rossiniano. Também foi magistral a atuação do cravista online Fábio Bezuti, responsável pelos recitativos. Muito boa a escolha das citações musicais, em especial aquelas que associavam o texto do “Barbiere” com o de “Le Nozze di Figaro”, segunda obra da trilogia de Beaumarchais. Também registramos aqui o nosso reconhecimento aos demais envolvidos na produção, capitaneados pelo diretor executivo forzest online bestellen Tarcísio Santório. Uma montagem honesta e divertida.

Um ponto negativo foi o comportamento do público durante a abertura da ópera. Em um evento gratuito, é compreensível que alguns espectadores ainda iniciantes no universo operístico façam comentários em voz baixa. Contudo, presenciamos casais conversando despreocupadamente, como se estivessem no sofá de casa assistindo a “Zorra Total”. Somente após a enérgica intervenção de uma senhora incomodada com a situação os ruídos cessaram. Há que se ressaltar que a conversa durante a ópera, além de incomodar os vizinhos de cadeira, também é um desprestígio aos artistas que tanto se dedicaram à preparação do espetáculo. Registramos aqui nossos agradecimentos à anônima cidadã que interrompeu o burburinho com um sonoro “shhhhh!”.

Em suma, uma iniciativa que deve ser alvo de elogios. Rossini, natural da litorânea e ensolarada Pesaro, certamente se sentiria em casa se estivesse na igualmente litorânea e ensolarada Vitória na noite do dia 8.  Esperamos que, nas próximas edições do Festival, novas montagens no mesmo nível sejam levadas aos palcos capixabas.

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Érico de Almeida Mangaravite
Delegado de polícia, formado em Odontologia e em Direito, com pós-graduação em Ciências Penais. Participou de corais, Frequentador de óperas e concertos. Foi colaborador do caderno Pensar, do jornal A Gazeta (ES), para o qual escreveu resenhas e artigos sobre música clássica.