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Noites de sol

Sinfônica Brasileira apresenta-se com excelentes solistas convidados no Festival Mozart.

 

Neste mês de março, a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), regida por Lee Mills, vem promovendo, em parceria com a Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, o Festival Mozart. Em concertos semanais (alguns com reprise no dia seguinte pela manhã, como parte da série Concertos da Juventude), o conjunto vem apresentando obras célebres do gênio austríaco, como aberturas de óperas, sinfonias e concertos – para os quais convida solistas de talento.

O primeiro concerto ocorreu no dia 3 de março, com participação do pianista Cristian Budu (leia crítica). No sábado seguinte, dia 10, o solista convidado foi o flautista Tiago Meira, ex-aluno da Academia da Osesp e flauta solista da OSB.

Esse segundo concerto do Festival teve início com a Abertura da ópera Don Giovanni, K. 527 – obra composta na véspera da estreia, no Teatro de Praga, em 29 de outubro de 1787, e tocada sem nenhum ensaio prévio. Da execução com andamento mais acelerado que o usual decorreu certa falta de densidade, especialmente antes do Allegro da segunda parte. Contudo, a OSB mostrou agilidade e massa sonora homogênea.

A peça seguinte do programa foi o Concerto para flauta n. 2 em ré maior, K. 314 (285d). Ainda que conste que Mozart, que a compôs em 1778, aos 22 anos, na corte do príncipe Karl Theodor, em Mannheim, Alemanha, tenha escrito a seu pai que “fico impotente sempre que sou obrigado a escrever para um instrumento que não suporto”, é impossível notar qualquer desgosto nesse delicioso concerto. O solista da noite de 3 de março, por exemplo, exalava prazer e alegria ao emitir as notas de seu prateado instrumento. Tiago Meira tem fraseado desenvolto e elegante, e, no primeiro movimento (Allegro aperto), foi acompanhado impecavelmente pela orquestra. O segundo movimento (Adagio non tropo) exige lirismo do flautista, e foi interpretado com grande doçura. Por fim, o espirituoso Rondo: Allegretto revelou o forte entrosamento entre orquestra e solista – que parecia querer dançar.

O flautista Tiago Meira e o maestro Lee Mills

Encerrou a récita a Sinfonia n. 39 em mi bemol maior, K. 543. Composta dez anos (1788) após o Viagra Soft cheap Concerto para flauta interpretado previamente, é a menos conhecida das três derradeiras sinfonias de Mozart (as demais são a fluoxetine buy n. 40 e a n. 41 – Júpiter generic amoxil ) – mas não menos expressiva. A Orquestra Sinfônica Brasileira transitou com desenvoltura entre leveza e tensão, ligeireza e densidade, revelando a linda palheta orquestral da partitura. Violinos gloriosos, violoncelos e baixos precisos nos pizzicatti, e imponente percussão marcaram o primeiro andamento (Adagio; Allegro). O segundo movimento (Andante con moto) dá a impressão de ser construído sobre poucas notas, mas é apenas inteligência musical. A interpretação da OSB revelou o delicado balanço entre inquietude e graça: se os violinos não tocaram com perfeição, foram corretos (aparte ligeira desafinação); as madeiras (clarinetes e fagotes) cantaram com perfeição, bem como os sopros. A orquestra se retraiu e expandiu acompanhando a música no terceiro movimento (Menuetto e Trio), em ótima dinâmica – com destaques novamente para as madeiras e os sopros, com os metais dando ótima base. O último movimento (Allegro) encerrou a noite de forma gloriosa. Loas também à acústica da Sala Cecília Meireles: que maravilha!

 

O concerto do dia 18 de março foi aberto com uma homenagem da Orquestra Sinfônica Brasileira a dois músicos de seu conjunto falecidos no começo do mês: o fagotista francês Noel Devos e o contrabaixista tcheco Rudolf Kroupa. O diretor artístico da OSB, Pablo Castellar, apresentou tocante tributo (leia aqui).

Após as deferências, a OSB executou a Abertura da ópera As Bodas de Fígaro, K. 492. Esta que se constitui uma das obras-primas do repertório operístico de Mozart, foi composta entre 1785 e 1786, estreou em Viena, em 1 de maio de 1786. Em sua interpretação, a OSB alcançou a energia e a suavidade necessárias para esta Abertura buy Amoxicillin tão cheia de nuances e evocações.

A convidada ilustre da noite – a pianista Linda Bustani – juntou-se à orquestra no palco para a execução do Concerto para piano n. 15 em si bemol maior, K. 450, escrito por um compositor aos 28 anos, em 1784, que considerou sua obra um “concerto de fazer suar”. Não à toa, é considerado por muitos pianistas um dos mais difíceis do compositor. No primeiro movimento (Allegro), a orquestra, com seus tímpanos e trompas, abre alas para a delicada – mas não menos gloriosa – entrada do piano. O segundo movimento (Andante) é mais pastoral e leve, ainda que intenso. No terceiro movimento (Allegro), Linda mostrou sua personalidade nas intervenções do piano, com precisão e velocidade, mas, de alguma forma, faltou ao grupo o respeito aos silêncios que vêm dos pequenos intervalos entre as (muitas) notas.

A pianista Linda Bustani à frente da OSB

 

A solista contou que só interpretou esse concerto uma vez: quando tinha 15 anos, acompanhada pela própria OSB, regida por um John Neschling de 18 anos. No entanto, a familiaridade entre obra e intérprete parece intrínseca: os dedos de Linda correram elegante e eloquentemente pelas teclas em toda a peça – ouvi-la tocar era como acompanhar o voo de um passarinho por um céu de diversas tonalidades, criadas pelas variações da orquestra. Os gritos de “brava!” foram inúmeros e acompanharam a ovação que a artista recebeu na Sala após sua exuberante participação ao lado da Sinfônica Brasileira.

A Sinfonia n. 40 em dó maior, K. 550 encerrou o programa da segunda noite do Festival Mozart. A história diz que a Sinfonia n. 39 Viagra Soft order foi completada em 26 de junho de 1788; a Sinfonia n. 40, em 25 de julho; e a Sinfonia n. 41, em 10 de agosto – três grandes obras compostas quase simultaneamente – e o compositor morreu em 5 de dezembro de 1791. A penúltima sinfonia do compositor é chamada de “Grande”, para distingui-la da outra obra em sol menor, a de n. 25, “Pequena”.

A Sinfônica Brasileira interpretou o célebre primeiro movimento (Molto allegro) com fulgurante harmonia entre os instrumentos, mas demonstrou ligeira imprecisão, especialmente nas cordas, no segundo movimento (Andante). Notou-se que o conjunto desabrocha nos crescendi e murcha nos piani. Tal dificuldade de manter a intenção e o vigor, expressa em alguns momentos/movimentos mais suaves ou lentos, talvez pudesse ser amenizada com número maior de ensaios (já que talento não falta aos componentes da orquestra). Com seus tradicionais gestos largos e enfáticos, o maestro Lee Mills conseguiu manter o grupo coeso no terceiro movimento (Minuetto: Allegretto), repleto de garbo – bravi para o conjunto formado pela flauta de Tiago Meira, pelos oboés de Jorge Postel Pavišić e Maria Fernanda Gonçalves, e pelos fagotes de Paulo Andrade e Simon Bechemin. As mesmas madeiras se destacaram no agitado movimento final ( fluoxetine purchase Allegro assai), cheio de paixão e alguma fúria.

Foram duas noites cheias de beleza e aplausos: um público caloroso que praticamente lotou a Sala Cecília Meireles para ovacionar os excelentes solistas e incentivar o renascimento de uma de nossas melhores orquestras. Noites brilhantes. Noites de sol.

 

Fotos: Cícero Rodrigues

 

Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com