Crítica

Noite ensolarada na Cinelândia

Orquestra Sinfônica Brasileira prova brilho e maturidade em concerto impecável, no qual as cordas resplandeceram.

Os ornamentos dourados, as sólidas paredes, as grossas cortinas vermelhas e os assentos de veludo banharam-se, na noite do dia 19 de outubro, com a ofuscante luz do sol que brilhou na Cinelândia e invadiu cada recôndito secular do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A fonte de tamanho brilho e calor foi a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) que, sob a regência do carismático Roberto Minczuk, apresentou na casa um concerto impecável.

O recital foi aberto com i ran out of my aciphex um golpe seco da percussão, ao qual se seguiram os acordes dramáticos da Abertura Leonore 3, op. 72b, do alemão L. van Beethoven. Composta em 1805, integraria a ópera que o autor pretendia chamar Leonore, mas acabou sendo Fidélio. Muitos consideram esta abertura um poema sinfônico, por, mesmo sem palavras, contar a trama que envolve a protagonista. A sala de concertos se iluminou com a música perfeita, como que sob um céu cheio de nuvens dramáticas que vez ou outra escondem os raios do sol. O naipe de cordas (em especial os violinos, estrelas da noite) brilhou absoluto nas belas passagens, mas a luz fulgurou também nos belos solos de frases curtas dos metais (trompa, trompete), bem como nas delicadas intervenções das flautas. No grandioso final, o sol se revelou em todo o seu esplendor e o público carioca orgulhosa e calorosamente aplaudiu sua orquestra.

Os caudalosos cachos loiros da jovem solista holandesa Simone Lamsma aumentaram o brilho da sala tanto quanto as notas de seu instrumento, responsável pelo impecável solo do Concerto para violino em ré maior, op. 35, do austríaco (naturalizado norte-americano) Erich Korngold. Como um sol da tarde, enigmático e melancólico, a música invadiu os ouvidos da plateia como uma onda irrecusável de lirismo. Os gestos largos e performáticos da irrepreensível solista brilharam acima de uma orquestra grandiosa, cujo brilho dourado transcendeu os vernizes dos violinos e os metais das trompas, e deitou-se também sobre a harpa e a celesta, instrumentos que deram muita contribuição à beleza da peça.

Silêncio… Após o intervalo, o impacto da obra 4’33”, concebida em 1952 pelo norte-americano John Cage. O rito do gestual performático da orquestra, em absoluto silêncio, sublinhou as risadas nervosas e o desconforto da plateia (mesmo uma simpática e leve como a carioca) diante do inusitado de uma obra que desafia nossa reflexão tanto quanto uma tela totalmente em branco em uma exposição de artes plásticas. A vontade era de, em resposta, aplaudir sem encostar as mãos e gritar “bravo!” sem emitir som algum.

A Sinfonia no 3 em mi bemol maior, op. 97 – Renana, de R. Schumann, encerrou a noite e afirmou com categoria a maturidade artística da OSB. Uma peça que não é excepcionalmente difícil ou particularmente exuberante (sem deixar de ser belíssima e heroica) refletiu o talento e o trabalho árduo e constante dos músicos em busca do aprimoramento do conjunto, que respondeu com presteza e intensidade às demandas musicais do maestro. Todos resplandeceram, mas a récita revelou os brilhos luminosos das cordas (em especial, os violinos, reis do concerto) e dos metais (vide o lindo solo de trompa neste Schumann). São poucos os cabelos brancos e muitos os rostos juvenis entre os músicos que formam essa jovem orquestra de mais de sete décadas de existência, e que, ano após ano, torna-se cada vez mais objeto do respeito e do orgulho do público carioca. Mesmo após as cortinas cerradas, ainda resplandeciam na sala vazia os ecos da fulgurante e crescente luz dourada que emana a nossa OSB.

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2 Comments

  1. Adorei esta resenha, muito bem escrita e plena de metáforas bonitas e totalmente pertinentes.
    O texto criou a vontade de ter estado lá, participando de tudo aquilo e me fez lamentar, porque não fui uma das privilegiadas.
    Parabéns, Fabiano.

  2. Que legal que você gostou e deixou seu comentário, Rebeca. Me deixou muito contente. Um abração e obrigado!

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com