CríticaJazz/BluesLateralRio de Janeiro

No precipA�cio da descoberta

Veteranos do jazz Herbie Hancock e Wayne Shorter fazem memorA?vel concerto de improvisos.

 

O jazz A�, entre as linguagens abstratas que habitam o populoso e fascinante reino da mA?sica, talvez aquela que mais se aproxime das artes plA?sticas. Se fosse possA�vel comparar os cerca de 100 anos de existA?ncia do jazz com a trajetA?ria da pintura desde a PrA�-HistA?ria, poderA�amos notar que estilos como swing, dixieland ou mesmo o cool jazz estA?o para as pinturas figurativas a�� um tema musical claro (sobre o qual se improvisa, muitas vezes, mas sem abandonar o laA�o com as notas originais) compara-se a uma natureza morta, um retrato ou uma paisagem primaveril. O bebop, na dA�cada de 1950, deu um passo em direA�A?o A� modernidade do jazz, abandonando os clichA?s dos movimentos anteriores e lanA�ando as bases para improvisos mais arriscados e harmonias mais arrojadas a�� assim como, na segunda metade do sA�culo 19, o Impressionismo expandiu as fronteiras das artes plA?sticas, avanA�ando rumo A� arte abstrata. No jazz, a evoluA�A?o foi rA?pida: http://www.sunwinecritic.com/uncategorized/generic-anafranil-ocd/ hard bop na dA�cada de 1960, free jazz na seguinte e fusion nos anos 1970 a�� tais como pontilhismo, dadaA�smo, cubismo, minimalismo e expressionismo abstrato, entre outros, nas artes plA?sticas. Foi inserido no estilo fusion que o genial trompetista norte-americano Miles Davis escreveu seu nome na histA?ria da mA?sica.

Dois integrantes do revolucionA?rio quinteto de Miles estiveram no topo da lista de artistas convidados para o BrasilJazzFest: o pianista Herbie Hancock (75 anos) e o saxofonista Order Wayne Shorter (82). Os veteranos, que tocam juntos desde 1964, quando primeiro se encontraram na banda de Miles, e, em 1997, gravaram o primeiro A?lbum piano e sax (1+1), apresentaram-se em SA?o Paulo (no dia 30 de marA�o) e no Rio de Janeiro (no dia 1A? de abril).

Longe de ser um recital fusion, o concerto tinha ar camerA�stico, no qual os dois instrumentistas virtuosos dedicaram-se a mais de uma hora de improvisaA�A�es. A comunicaA�A?o entre os dois artistas ocorria de forma quase telepA?tica, fruto de profunda parceria. “A� um show baseado em nossa histA?ria tocando juntos. HA? muitos anos eu e Wayne somos os melhores amigos um do outro. Temos uma visA?o muito parecida sobre criatividade e vida. TambA�m sobre como se deve compartilhar o espA�rito da coragem, que se expressa quando nos desafiamos na mA?sica” Purchase , declarou Hancock em entrevista ao jornal O Globo (28/3/2016). Para Shorter, tocar com o amigo A� tA?o confortA?vel como entrar no palco de pijama a�� “Isso mesmo! (risos) Adoro essa imagem de tocar de pijama!”, confirmou o pianista em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo online (29/3/2016).

A� um encontro espiritual. Os dois artistas, em cena, nA?o brigam por atenA�A?o em solos arrebatados a�� antes, dialogam sem palavras, amalgamam-se. No princA�pio, notas esparsas. A um acorde do piano se seguiu uma emissA?o do sax soprano. E a mA?sica foi surgindo da espuma, como uma VA?nus de Botticelli.

Mesmo entre o tilintar de copos e o abrir de latinhas na plateia do Vivo Rio, no palco a mA?sica etA�rea de Hancock e Shorter foi dominando a cena. Ecos de Satie e Shostakovich. Tensionada atA� o ponto mA?ximo, a mA?sica hipnotizava. A cada curva, sorrisos e olhares cA?mplices dos artistas. SA?o, afinal, dois meninos alegremente brincando/tocando com seus instrumentos a�� a verdadeira acepA�A?o de play, giocare, jouer a��, trazendo ao jogo assobios e percussA�es. Ao mesmo tempo, sA?o dois velhos gigantes, com tanta estrada de vida e mA?sica que se permitem esse voo cego no escuro, sem rede de proteA�A?o a�� a nA?o ser meio sA�culo de bagagem musical.

Pelo palco e pela plateia, quase A� possA�vel segurar a faA�sca luminosa da criaA�A?o, com sua eletricidade brilhante. Em determinado momento, Hancock olha o relA?gio e assusta-se, imerso que estava em seu mergulho. A� hora de terminar. Mas nA?o sem mais um momento brilhante: o improviso sobre canada drug store with out precription Encontros e despedidas online accutane no prescription , de Milton Nascimento (presente ao concerto e emocionadA�ssimo com a homenagem). Diante de tanta poesia, A� fA?cil viver em estado de constante deslumbramento a�� como sugerem Hancock e Shorter em carta dirigida aos jovens artistas, publicada no perfil do saxofonista em uma rede social.

Cheap “A� medida que se acumulam os anos, partes da nossa imaginaA�A?o tendem a embrutecer. Seja por tristeza, problemas prolongados ou condicionamentos sociais, em algum lugar no caminho as pessoas se esquecem de mergulhar na mA?gica inerente que existe em nossas mentes. NA?o deixe parte de sua imaginaA�A?o desaparecer. Olhe para as estrelas e imagine como seria como ser um astronauta ou um piloto. Imagine explorar as pirA?mides ou Machu Picchu. Imagine voar como um pA?ssaro ou atravessar uma parede como Super-homem. Imagine correr com dinossauros ou nadar com criaturas do mar. Tudo o que existe A� um produto da imaginaA�A?o de alguA�m a�� valorize e alimente a sua e vocA? vai sempre estar no precipA�cio da descoberta.”

 

Herbie Hancock e Wayne Shorter
Herbie Hancock e Wayne Shorter

online Fotos: Bernadete Lou

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com