Artigo

Não somos todos críticos?

Somos humanos e racionais e, por isso, mesmo que não tenhamos muita consciência, sempre temos uma opinião sobre algum acontecimento ou evento.

Especialmente em nosso site, sempre acontecem divergências entre o que escrevem os comentaristas e os usuários, que, graças a Deus, não se esquivam de colocar as suas opiniões divergentes ou não.

Obviamente, este é um assunto de difícil concordância geral, mas podemos filosofar um pouco em torno disso. Com as opiniões que os leitores colocarão aqui, podemos terminar por obter conceitos bastante interessantes. Tomem este artigo como um ponto de partida.

Quem acompanha o www.movimento.com ou quem tem lido os comentários que de vez em quando escrevo sobre algum evento, há de se lembrar que é uma preocupação constante tirar dos comentários que aqui se colocam este caráter de “crítica”, como normalmente se entende, e que é o que a palavra quer dizer mesmo. Desde o início do site, a intenção era justamente de termos este espaço destinado a opiniões não somente técnicas, mas também emotivas. Já publicamos aqui no site 2 e até 3 opiniões do mesmo espetáculo, por  pessoas diferentes.

A nosso ver, um crítico é um profissional que trabalha nisso e ganha com isso. Seu conhecimento e seu pensamento são voltados para este mister e ele tem uma maneira de escrever e de se colocar, diferente de outra pessoa que, simplesmente, tenta passar a outrem aquilo que sentiu ao assistir a um determinado espetáculo. Supõe-se que ele tenha conhecimento técnico e profundo sobre aquilo que vai comentar.  Se é uma ópera, por exemplo, que ele a conheça bem, que saiba da sua história, que já a tenha visto e/ou ouvido em várias versões, para poder criar um parâmetro bem interessante. Um crítico profissional não trabalha de graça e, por isso mesmo, não vai escrever no nosso site, a não ser em algumas ocasiões especiais, a seu critério.

Claro que estas 2 posturas diferentes nem sempre são antagônicas. Também, isso não quer dizer que sempre o “crítico” há de fazer comentários melhores do que a outra pessoa que não tem esta profissão. O crítico, tanto quanto outra pessoa, poderá tecer críticas maravilhosas ou não. Por outro lado, alguém que não seja um crítico profissional, pode entender demais, por exemplo, de ópera. Pode ter ouvido e visto muitas versões e muitos cantores e pode ter, por isso mesmo, parâmetros bastante desenvolvidos.

E o que será uma crítica “maravilhosa”? Será aquela que concorda com a opinião de todos (impossível) ou da maioria? Ou será aquela, tecnicamente perfeita, repleta de expressões e ideias, dirigida apenas a um seleto número de “conhecedores”? Ou será aquela que consegue, sabe Deus como, transmitir aos leitores (coisa difícil) a emoção, seja de decepção, seja de encanto, seja qualquer outra, que sentiu durante o espetáculo? Normalmente, dada a diferença extraordinária do público, nunca haverá unanimidade.

O leitor está percebendo como é difícil “ser crítico”. Ele não está ali para arrasar ninguém, mas tem também que passar uma opinião verossímil e coerente com ele mesmo, caso contrário o seu texto não fará sentido algum. Essa é uma grande dificuldade, pois, a exemplo dos artistas que estão sob o seu foco, ele também estará sob o foco dos leitores, que, por sua vez, são seus críticos.

A opinião de uma pessoa não é resultado de uma combinação de fatores aritméticos: colocou x + y = z. Não é nada disso. Quando uma pessoa escreve, a sua inteligência e a sua verve estão a serviço do texto, para transmitir sua opinião técnica ou a emoção sentida. Entretanto, ela tem uma formação adquirida, tem gostos determinados, tem crenças enraizadas, tem amizades, tem inimizades, tem problemas do dia-a-dia, tem dias bons e ruins, tem uma série de variáveis e de “nuances” que irão influenciar o que está escrevendo e a maneira como está vendo as coisas.

Assim como o artista (e eu já vi muito disso), que tem seu dia bom e seu dia infeliz, também a pessoa, que emite uma opinião sobre um evento, torna a sua atuação pública e fica exposta a tê-la colocada sob a luz de holofotes (que são os leitores) de diversas cores ou intensidades. A visão de cada leitor, até pela maneira como recebe o impacto do texto, torna-se absolutamente particular e pode receber aquilo que o comentarista pretendeu expor ao público de uma maneira totalmente diversa do que ele, crítico, quis passar. Isso acontece também com a visão dele, crítico, quando percebe a realidade que está comentando.

Bom, direis, então: para que se perde tanto tempo e espaço, escrevendo coisas que, no fundo, não são verdadeiramente reais? Ora, este pensamento, se levado a efeito, acabaria, na base, com todas as filosofias e enterraria de vez todos os pensadores maravilhosos que este mundo produziu. Claro, existem dezenas de opiniões, emitidas por esses clássicos da filosofia ou do romance, perfeitamente diferentes e até contrárias sobre o mesmo assunto. Isso invalidou os pensamentos divulgados ou cerceou a criatividade destas pessoas? Por acaso, por causa disso, milhares de pessoas deixaram de ser tocadas por esses autores?

Nem poderia, pois esta riqueza é que traz a possibilidade das pessoas se encontrarem e de se agruparem, dentro de conceitos parecidos com os seus. Esta é a diversidade que, graças a Deus, temos neste mundo. Não há cristãos, não há muçulmanos, não há budistas, não há judeus, não há ateus que se entendem? Não há compradores e vendedores que chegam a um termo? Claro que há e o que é mais importante: eles se entendem, porque se respeitam e respeitam a “diferença” do outro.

Todo este palavrório é para dizer que os críticos têm que pesar suas palavras, ao emitirem seus conceitos, especialmente quando se referem aos artistas envolvidos, pois não estão criticando uma pedra ou uma estátua de bronze: são entes falíveis, são pessoas interessantes de uma maneira ou de outra, são personalidades sensíveis, são profissionais ou não, batalhando por um sentido na sua vida, são, enfim, artistas e são humanos.

Também do outro lado, os críticos, profissionais ou não, estão expostos e devem ser olhados com a mesma ótica com que devem olhar os artistas, pois, a exemplo daqueles, também são humanos, com todas as “nuances” que são parte indelével do caráter e do conhecimento da criatura humana.

Penso que o artista criticado, para bem ou para mal, também não deve simplesmente ignorar ou se enlevar com o conceito emitido sobre sua atuação. Ouvi ainda ontem, de uma pessoa pública e não lembro quem, que, quando recebe uma crítica ruim, simplesmente deixa que entre por um ouvido e saia por outro, como se diz. Penso que o artista deve rejeitar, isso sim, aquilo que não o respeita como pessoa. Quanto ao conceito emitido, não deve ignorar, mas deve pensar sobre ele, meditar, ler outros comentários, rever sua atuação, se possível, e dali tirar o máximo proveito no caminho do aperfeiçoamento.

As pessoas para quem são escritas as críticas – os leitores – devem ter em mente que a sua situação espiritual do momento também vai influenciar a maneira dele receber o texto. De qualquer modo, o importante é que este leitor não tenha nenhum preconceito, apenas porque quem escreve não enumerou uma série de títulos.

Conheço pessoas que não são críticos profissionais e, no entanto, entendem muito de música, de ópera e outras matérias…  mas entendem muito mesmo. Uma pessoa pode ser cantor, pode ser industrial, pode ser escritor, pode ser geógrafo, pode ser vendedor e entender muito de ópera, de música coral e de música sinfônica, assim como de outros assuntos. Não nos deixemos levar pelo preconceito. Devemos nos ater ao que a pessoa tenta nos transmitir e exercer o nosso senso crítico sobre o texto apenas.

O debate é importante e não deve ser evitado. Estamos aqui para isso e o www.movimento.com sente muito orgulho de ter, entre seus leitores, pessoas que sentem uma força irresistível para tecerem comentários sobre aquilo com que concordam ou não, e o fazem. Isso é vida…

Isso é bom e sempre estaremos abertos a esta prática: até porque, ao final de cada texto, lá está a chance de você fazer o seu comentário respeitoso. É com isso que contamos para enriquecer as opiniões. Alguém pensa diferente de mim? Vou ler e tentar entender a ótica da outra pessoa. Isso só vai nos dar, de graça, uma riqueza impensada: o alargamento de nossos horizontes e o desenvolvimento do respeito ao próximo. Não comecemos a leitura de alguma opinião com o pé atrás, só porque sempre discordamos daquela pessoa. Podemos nos surpreender de vez em quando.

Nota: Vamos fazer um exercício: escrever uma crítica de algum evento a que assistimos…

Devemos assistir a um espetáculo qualquer, de que gostemos ou não, e devemos, ao final, em casa e calmamente, escrever uma crítica. Será muito bom conseguir passar para o papel aquilo que sentimos e analisamos. De uma maneira geral, todas as pessoas são críticas, pois sempre saem de algum evento com uma opinião formada, mesmo que não definitiva ou extremada. Já pensaram em passar isso para o papel? É um ótimo exercício. Não deixem de fazê-lo.

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4 Comments

  1. Sou professora de música diplomada pelo Conservatório de Paris e assídua frequentadora de teatros aqui e no exterior onde tenho amigos cantores de ópera. Gostaria de acrescentar algo ao excelente artigo acima. Assisti ao Nabucco no Theatro Municipal do Rio e li as críticas e comentários postados neste site sobre esse evento e achei muito estranho o modo como alguns artistas se comportaram diante de uma crítica! O artista vive usando as críticas sobre seu trabalho em seu currículo, em sua mídia, em sua trajetória. Mas nem sempre sua performance é boa e quando isso ocorre a crítica negativa é repudiada por ele, quando ele deveria considerar a crítica negativa abalizada como aprendizado para seu crescimento como artista. Afinal, os artistas públicos, que recebem um público pagante para vê-los, devem se sujeitar a todas as opiniões, não só as dos críticos, mas as do público também. Escrevo isso pois me senti muito incomodada com a reação de certos artistas às críticas desta ópera, quando em minha opinião a performance de alguns deixou muito a desejar. Parabéns ao artigo acima que esclarece muito bem a função da crítica em geral.

  2. Contrário à opinião desta senhora acima, considero este artigo além de muito longo, prosaico. Me admiro que o Sr. Antônio, dono de um blog que se destina à música clássica, sugerir que nós, que gostamos e assistimos a tais espetáculos, somos capacitados a dar opiniões críticas oficiais sobre o assunto. Segundo ele podemos escrever sobre obras de Stravinsky, Beethoven, balés do Kirov, concertos de Bach, etc, esquecendo-se de que existem pessoas gabaritadas que estudam e se aprimoram durante uma vida para analisar e esmiuçar a parte artística destas obras de arte e seus intérpretes. Este artigo nos faz pensar melhor sobre a filosofia deste blog e analisá-lo melhor para saber se as opiniões nele contidas são de pessoas que realmente entendem do assunto ou se são apenas “seres humanos”, “críticos por excelência”! Criticar uma obra baseado em detalhes domésticos não acrescenta e ensina nada a ninguém. Me desculpe o Sr. Antônio, não consideraria digna de crédito, uma crítica de um espetáculo com obras de Kurt Weill escrita pela minha vizinha costureira que mal fala o português!!
    PS.: A propósito, eu sou restaurador de obras de arte e já vi muito amador que admira tais obras, destruir um patrimônio histórico por botar as mãos inexperientes e a cabeça sem estudo em uma tela ou em uma peça de Aleijadinho.

  3. Realmente, o artigo é um pouco longo, mas o assunto é bastante controverso e tentei não deixar nenhuma corda solta.
    Parece-me que o William não entendeu bem o espírito de minha recomendação para que as pessoas escrevam críticas após assistirem a algum espetáculo.
    Não quis dizer que as pessoas escrevam para publicar e sim que escrevam para poderem tentar colocar fisicamente os seus sentimentos em relação àquele espetáculo.
    Mesmo porque, para escrever para o nosso site, é necessário mostrar que tem algum conhecimento sobre o que pretende escrever.
    Infelizmente, pelo que entendi na última parte da sua opinião, alguém colocou a mão nas obras que descreveu e as estragou. Foi isso?
    Mais um mal entendido do amigo. Não recomendei que pessoas não gabaritadas tentassem reger uma orquestra, ou fazer algum papel numa ópera, ou cantar sem ter adequada preparação. Uma coisa é “botar as mãos”, como você mesmo diz e outra é tentar passar para um papel, para sua própria satisfação, as sensações que sentiu.
    Tente fazer isso e você vai ver como é bom.

  4. Caro Antonio, muito bom teu artigo, mas tenho umas considerações sobre este assunto. Eu me permito dizer que ninguém é obrigado a gostar de um artista ou de sua performance no palco. O crítico tem o direito de expressar a sua opinião profissional, mas qualquer crítica perde o seu valor real quando o crítico é parcial e, de alguma forma, comete ofensas pessoais ou não tem respeito ao que artista representa ou pode representar, sem levar ainda em consideração todo um histórico de vida. É inadmissível!
    Alguém pode dizer que estou exagerando ou interpretando de forma errônea, entretanto eu posso dizer que conheço os pormenores, os detalhes, as histórias paralelas, as histórias anteriores. Quem afinal pode criticar o crítico?? Ele tem destaque total no artigo dele e as respostas dos leitores nunca tem a mesma ênfase. E mesmo que existam opiniões contrárias dos leitores, o formador de opinião sempre tem liberdade total para escrever o que quer para se defender, argumentar ou se retratar, por exemplo. Resta-nos o caminho eventual da justiça, se for necessário.
    No frigir dos ovos, é muito fácil cometer injustiças e fazer estragos e, depois do leite derramado, torna-se sempre mais difícil desfazer os erros. Sou contrário a uma opinião colocada pela leitora, na qual ela diz que o artista tem que se sujeitar à crítica. Não, não tem que fazer isso. Filtrá-la sim, aproveitá-la se possível, mas nunca se sujeitar. Muitos deles nunca estiveram no palco, nunca cantaram, nunca estiveram na pele do artista, nunca estiveram sob pressão.
    Deixo aqui no ar uma pergunta: como evitar estas injustiças? Eu pensei muito antes de escrever essas linhas e somente o fiz para ficar em paz com minha consciência. Agradeço a oportunidade de poder expor o que penso.

    Juremir Vieira

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Antônio Rodrigues
Apaixonado por música coral, é um dos fundadores e mantenedor do movimento.com.