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Não há vagas

Substituição de óperas por musicais no Theatro São Pedro-SP restringe ainda mais um mercado minúsculo.

 

Há muito tempo, um pensamento me incomoda: não há vagas para todos os cantores líricos profissionais do Brasil. Não há vagas sequer para a maioria deles. Se considerarmos o número total de cantores líricos profissionais em nosso país, incluídos os mais experientes e qualificados, aqueles em ascensão e os iniciantes (dentre os quais se encontram tanto os que estão se formando agora, quanto os que já integram as poucas academias de ópera que temos), veremos que a equação não fecha quando comparamos essa demanda de trabalho com a oferta de vagas nas programações dos teatros de ópera e das orquestras brasileiras.

Somem-se a esse fato as seguintes variáveis:

– é natural que os nossos cantores mais experientes e qualificados – e, portanto, que já foram devidamente testados pelo mercado – sejam convidados com mais frequência;

– vez por outra, um importante cantor brasileiro que faz carreira no exterior é convidado a cantar aqui – o que é não apenas natural, como também desejável;

– para determinados personagens de algumas óperas é necessário buscar cantores estrangeiros, porque não temos vozes adequadas para interpretá-los (lembrando que a convivência com artistas qualificados de outras escolas e culturas sempre será salutar para os nossos artistas, da mesma forma que nos orgulhamos quando um dos nossos brilha lá fora);

– as produções líricas quase nunca migram de um teatro para outro – o que poderia baratear os custos, gerando um maior número de montagens e mais oportunidades de trabalho;

– não raro, diretores artísticos escolhem mal os títulos líricos que pretendem apresentar nas temporadas dos seus teatros (por vaidade, veleidade ou simples despreparo), para somente depois verificarem que não há cantores disponíveis com as vozes adequadas para todas as partes;

– pressão exercida pelos coros de determinados teatros para que as partes menores das óperas sejam confiadas a cantores do coro da casa (que já recebem salário fixo mensal) – atitude que reduz o espaço para quem necessita atuar e ser remunerado somente como solista;

– e, para não me alongar muito, ainda temos as chamadas “panelas”, ou seja, certa reserva de mercado para amigos(as), namorados(as), amantes e por aí vai. Ocorre, por exemplo, dentre outras possibilidades, quando um(a) cantor(a) é escalado(a) para cantar determinada parte em uma ópera, para a qual a sua voz não é adequada, unicamente em virtude dos seus laços (geralmente de amizade ou relacionamento) com aquele(a) que tem poder de escalação; ou então quando um(a) cantor(a) não tem sequer condições técnicas e/ou vocais de se apresentar em uma produção profissional, mas é escalado mesmo assim.

O resultado da equação referida no primeiro parágrafo deste artigo, após a observação de todas as variáveis, resta ainda mais óbvio: é impossível para a grande maioria dos nossos cantores líricos viver apenas da sua atuação artística, simplesmente porque não há vagas suficientes que permitam a todos serem remunerados condignamente por um trabalho constante. Todos, ou quase todos, cantam menos do que deveriam para ter uma renda anual justa.

Como todo mundo precisa pagar as contas, partem para atividades terceiras, geralmente o magistério, seja na universidade, em escola técnica, ou mesmo por meio de aulas particulares. Em outras palavras, quando deveriam estar cantando em um palco, ou se preparando para isso, ou trabalhando com seus professores/orientadores para manter ou aprimorar a sua qualidade técnica, esses artistas estão dando aulas ou fazendo outras atividades que, em geral, pouco contribuem para o seu crescimento enquanto cantores.

 

Intervenção política no Theatro São Pedro

É preciso todo esse preâmbulo para que se entenda a gravidade do que está ocorrendo no Theatro São Pedro, vinculado à secretaria de Cultura e Economia Criativa do estado de São Paulo. O mercado de trabalho da ópera no Brasil já é muito restrito, e qualquer corte que restrinja ainda mais este mercado é, ou deveria ser, sensível para a classe.

No último fim de semana, o jornal O Estado de São Paulo publicou uma matéria assinada pelo jornalista Ubiratan Brasil que nos informou que, em 2020, o Theatro São Pedro dividirá a sua programação entre óperas e musicais. Segundo a matéria, o teatro continuará apresentando quatro produções profissionais encenadas por ano, como já vem fazendo nas últimas temporadas, mas, em vez de quatro óperas, serão oferecidas apenas duas óperas, com dois musicais completando a programação.

Pelo que pude apurar, a iniciativa, batizada de “Novo Theatro São Pedro”, foi imposta pelo secretário de Cultura do estado de São Paulo, Sérgio Sá Leitão, e, aparentemente, aceita sem nenhuma resistência pela Santa Marcelina Cultura (Organização Social que administra o São Pedro). Essa notícia é um desalento ainda maior quando lembramos que, mesmo com um orçamento relativamente baixo, a Santa Marcelina vinha realizando o melhor trabalho de gestão de um teatro de ópera no Brasil nos últimos dois anos, obtendo uma rara unanimidade de crítica quanto a esse fato, além de um sucesso inquestionável de público.

No fim de 2018, publiquei um artigo em que comparava exatamente a seriedade de gestão verificada no Theatro São Pedro com as trapalhadas ocorridas no Theatro Municipal de São Paulo (relembre aqui). Afirmei nesse artigo do ano passado que “(…) enquanto no Theatro São Pedro a ópera é respeitada e tratada como arte (que pode vir a ser também entretenimento), no Theatro Municipal a ópera é tratada tão somente como entretenimento”.

O que mudou de lá pra cá? A principal mudança é que o então prefeito de São Paulo, João Doria, passou a ser governador. Antes de Doria assumir a prefeitura paulistana, em janeiro de 2017, o Theatro Municipal de São Paulo possuía uma diretriz artística clara. Podia-se gostar dela ou não; pode-se ainda hoje questionar com toda a razão a roubalheira que ali aconteceu naquele período; mas não se pode negar que havia uma diretriz artística na casa. Bastou Doria assumir a prefeitura para que o Municipal de São Paulo nunca mais entrasse nos eixos: de lá para cá, sob um argumento abstrato que se resume no termo vago “multiculturalismo”, o TMSP perdeu a sua identidade e nunca mais a reencontrou.

Eis que, em janeiro de 2019, Doria deixa a prefeitura para assumir o governo do estado e, em menos de 10 meses, começa a acontecer com o Theatro São Pedro exatamente a mesma coisa que já havia acontecido com o TMSP. Sob os “cuidados” de Sérgio Sá Leitão, o tal projeto “Novo Theatro São Pedro” busca alterar a diretriz da casa, até então bem definida. Nas palavras do próprio Sá Leitão, “Como é um equipamento público e deve ser um espaço para todos, o teatro terá outras atrações (…) e ainda a abertura de editais que possibilitarão a ocupação por eventos como moda e gastronomia”. Multiculturalismo, enfim, seja lá o que isso signifique para politiqueiros medíocres.

O que está acontecendo no Theatro São Pedro, e já havia acontecido no Theatro Municipal de São Paulo, é uma intervenção política de caráter populista na gestão da casa, com agravante: não é segredo para ninguém que João Doria pretende ser candidato a presidente da república em 2022, e o governador já começa a expressar as suas diferenças em relação a Jair Bolsonaro.

Se Brasília, por meio da nova instrução normativa da Lei Federal de Incentivo à Cultura, passou a dificultar o fomento para a produção de musicais, o governo de Doria utiliza o Theatro São Pedro para acenar para os profissionais que vivem dos musicais. É elementar.

 

Classe lírica não tem representantes

No momento em que a classe lírica é atacada dessa forma, quem a defende institucionalmente? Quem representa os profissionais da ópera no Brasil? Ninguém, porque, até onde sei, não existe uma representação formalmente constituída. Até mesmo postar indignação nas redes sociais é coisa para poucos. A grande maioria fica preocupada, com razão, com possíveis retaliações. Afinal, em um mercado tão restrito, com o poder nas mãos de poucos, pode ser perigoso desagradar “poderosos” que não aceitam ser contrariados, pois isso poderia resultar na cessação de convites para possíveis trabalhos.

Ou seja, a gestão da ópera no Brasil pode ser tão mesquinha quanto a política. Em alguns dos nossos teatros impera a lógica segundo a qual “quem não é por mim é contra mim”. Não existe debate civilizado de ideias, não existe o direito ao contraditório, porque, muitas vezes, quem detém o poder deseja apenas subserviência. Enquanto a ópera caminhar dessa forma no Brasil, desunida e sem representação instituída, estará sempre à mercê do governante/secretário/diretor de plantão.

No caso específico do Theatro São Pedro, é quase unanimidade nas conversas de bastidores que falta uma manifestação mais clara por parte da Santa Marcelina Cultura. Até aqui, o que temos é que houve uma imposição por parte de Sérgio Sá Leitão, e a Santa Marcelina simplesmente aceitou a intervenção sem maiores questionamentos. Se a história não foi bem assim, cabe apenas à Santa Marcelina se manifestar e esclarecer os pontos ainda obscuros e mal explicados.

Conversei com um(a) dos(as) mais importantes e respeitados(as) profissionais da ópera do Brasil, e ele(a), que pediu anonimato, confirma que “foi imposição do secretário, mas sem muita resistência da direção (da Santa Marcelina). O problema nem é fazer musical, mas a ideia equivocada do discurso de que ‘o teatro é público e precisa dialogar com todos’, como tem sido divulgado. Aliás, essa é a diretriz do Municipal de São Paulo, que apenas nesse ano apresentou mais peças de teatro do que óperas. Ninguém sabe para que serve um teatro de ópera. Acham elitista e vêm com esse papo de ‘o teatro para todos’. O São Pedro não tem estrutura para isso (fazer musicais), não tem camarim, não tem coxia, precisa de uma reforma técnica e estrutural urgente. É uma escolha populista, improvisada. Sufoca a ópera, que perde espaço”.

Já um(a) profissional que trabalha para a Santa Marcelina, quando perguntado(a) sobre como os funcionários do São Pedro receberam essa mudança repentina de diretriz, afirmou, também sob a condição de anonimato: (estamos) preocupados, mas é nítido que essa escolha da instituição (Santa Marcelina) está ligada à sobrevivência da Orquestra e dos empregos”.

 

A voz do artista e a derrapada do jornalista

O tenor Daniel Umbelino é um dos nossos cantores em franca ascensão não apenas nacionalmente, como já começa a ser reconhecido também no exterior. Neste ano, cantou a ópera Il Viaggio a Reims, de Rossini, em duas produções diferentes: a primeira, no Rossini Opera Festival, de Pesaro, cidade natal do compositor; e a segunda, na Ópera da Saxônia. O tenor integrou uma das turmas mais promissoras da Academia de Ópera do Theatro São Pedro. Perguntei a Umbelino, como ex-integrante da Academia, como ele recebeu a notícia dessa intervenção no São Pedro:

“Eu passei por todas as fases possíveis de um cantor que trabalha no São Pedro. Desde como aluno da Academia, depois como integrante do elenco estável e como cantor convidado de algumas produções. Na época de Academia e elenco estável (que para mim foram quatro anos), nós tínhamos algumas vezes duas produções ao mesmo tempo, fora recitais. Foi o período de maior aprendizado da minha vida e eu posso dizer que o grupo que viveu esses anos foi privilegiado demais! Crescemos muito e a grande maioria tem construído uma carreira. Só que sempre acompanhamos cortes, reduções. Já faz parte da realidade dos nossos teatros”.

“A minha percepção quanto à redução de quatro títulos de ópera para dois, e mais dois musicais é muito prática. O musical hoje tem muito mais apelo de mídia e público. Não tenho dúvida que serão produções excelentes, o Theatro São Pedro sempre faz grandes produções com pouquíssima verba. O que eu penso é nos próximos anos. “West Side Story” e “Porgy and Bess” são musicais que comportam cantores líricos. E não tenho dúvida que atrairá muito público, mas e depois?”.

“O repertório não é assim tão vasto, quais os próximos títulos de teatro musical a se programar? Que tipo de cantor será exigido? Nesse pensamento, qual a razão de uma academia de ópera, sendo que a cada ano temos menos produções? Essas decisões vêm sempre muito de cima, quem está todo dia no teatro trabalhando, que ama a ópera, que dá duro pra fazer ópera, muitas vezes não tem poder algum pra decidir nada”.

“Temos uma geração de excelentes cantores de ópera, com vozes lindas, tecnicamente sempre se superando, mas que a cada ano tem menos chances de pisar no palco. E cantor de ópera nasce quando está no palco constantemente! É lá que você entende o que funciona e o que não funciona. É no palco que você, de fato, conhece a sua voz e cresce”.

A declaração de Daniel Umbelino é muito clara, e o seu trecho final corrobora o começo deste artigo: a cada ano que se passa, parece que há menos vagas para os cantores líricos brasileiros exercerem a sua profissão. Desta vez, com os cumprimentos de Sérgio São Leitão.

Nesse sentido, chega quase a ser um acinte a forma como Ubiratan Brasil concluiu a sua matéria para o Estadão: “A inclusão do Theatro São Pedro entre os espaços para teatro musical é uma aposta correta em um gênero que traz lucros extraordinários para a economia brasileira. (…)”. O jornalista fez questão de emitir a sua opinião, e, para ele, o que está acontecendo no Theatro São Pedro é “correto”.

Enquanto isso, para muitos dos cantores líricos brasileiros, não há vagas.

 

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com