CríticaÓpera

"Nabucco", no TMRJ

Há um dito jocoso que diz que brasileiro é especialista em assuntos gerais.

No caso do já ilustre Maestro Silvio Viegas o “mot d´esprit”, com óbvias adaptações, aplica-se como luva: Silvio é o mesmo regente preciso, inspirado, correto e valorizador de essências, tanto em missas de Bach, quanto em sinfonias de Beethoven, quanto nos ballets que rege, quanto na “CARMEN” ou em óperas de Verdi.

Nesse “NABUCCO”, Silvio Viegas, possuidor de raro “feeling” musical para descobrir em que área está o principal elemento estimulador da obra, percebeu de pronto que essa é uma obra toda calcada fundamentalmente no ritmo,  já exuberantemente verdiano e portanto italianamente operístico.

Assim, tivemos no TMRJ uma edição de “NABUCCO” de entusiasmante predomínio rítmico, como deve ser. Uma edição de imponente beleza operística à moda de Verdi, que ali começava o longo caminho em que “Ernani”, “Luisa Miller”, “Rigoletto”, “La Traviata”, “Il Trovatore”, “La forza del destino”, “Aida” e “Otello” seriam exemplificativamente modelos de criação de ritmos às vezes simples, às vezes mais elaborados, às vezes originalíssimos e ousados, mas sempre de um vigor operístico sem rivais.

O regente deu a moldura, a cor geral naquela profusão de ritmos de um Verdi novinho em folha. Os cantores solistas e o coro se encarregaram de fazer parte de tudo. Aí pensamos que cabe dizer o que se segue.

A produção em seu todo é aceitável, com uma atraente miscelânea de cenários e figurinos. Nada de acachapante feiúra ou sublime beleza, mas uma concepção geral e direção de cena de que ninguém se queixou.

A protagonista soprano Eliane Coelho envelheceu de voz e de recursos, tendo enchido o palco do teatro de notas gritadas, desagradáveis, de notas não prolongadas quando jsso é obrigatório e com uma inacreditável versão/arranjo da retomada da cabaletta de sua ária ao início do segundo ato. Meu amigo pirata John Hook fez uma gravação escondido… Eliane, de glorioso passado, deu vexame, separou sílabas e esfacelou palavras para subir aos superagudos.

O barítono Rodrigo Esteves desta vez atenorou a voz a ponto de se tornar irreconhecível. O tenor Marcos Paulo foi nas águas do soprano e iniciou quase todas as suas intervenções com voz feia e pequena.  O meio-soprano Denise de Freitas esteve correta o tempo todo.

O ponto alto entre os solistas principais foi o baixo Savio Sperandio, que cantou com voz bonita e ampla de verdadeiro baixo, chegando a entusiasmar em um dos papéis mais difíceis de baixo da ópera italiana do século XIX.

A nosso ver o ensinamento da empreitada fica sendo que não é mais possível entregar um papel como Abigaille a um veterano soprano assim sem mais nem menos, como presente de natal. Há muitos outros papéis que Eliane Coelho pode cantar e bem.

EIN FESTE BURG IST UNSER GOTT
21 JULHO 2011

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14 Comments

  1. Meu querido Marcus, gostaria muito de agradecer pela atençao em seu comentário feito sobre meu Ismele e minha voz…obrigado!!
    Acredito que todo ARTISTA de verdade, que sobe no palco, saiba dos riscos a que esta sujeito, cansaço, nervosismo, uma alergia…coisas que o público não sabe e por isso, com todo o direito, julga. Mas há uma coisa que eu gostaria de dizer quanto às críticas feitas aos mestres com quem tive a honra de contracenar em Nabucco (certamente eles não precisam que eu os defenda.)
    Qual é o papel do critico? Qual é o papel do cantor? Qual é o papel do publico? Bom…vamos por partes.

    O crítico(criticar; arte ou faculdade de julgar produções ou manifestações de caráter intelectual. Apreciação destas manifestações; julgar; censurar) muito bem!

    Cantor: realizar o seu melhor com concentração, dedicação, entrega, amor, inspiração, verdade e disciplina, tendo como veículo principal sua voz (natureza).

    Público: pessoas que buscam na arte, mesmo que sem conhecimento acadêmico ou específico, ser felizes ao ouvir e ver o conjunto de artistas realizando as obras geniais.

    BOM…AGORA PODEMOS ENTENDER MELHOR….SE O CRÍTICO NÃO GOSTA DE UM ESPETÁCULO, CANTOR, CENÁRIO OU ALGO ESPECÍFICO ELE… CRITICA (CENSURA) DIZENDO O QUE PODERIA SER MELHORADO, AJUDANDO A COMPOR ALGO MAIS BRILHANTE E MOSTRANDO AOS ARTISTAS CRITICADOS (CENSURADOS) AQUILO QUE ELES PODEM FAZER PARA MELHORAR. (são mestres e sábios os que ajudam).

    OS CANTORES, QUE VIVEM DA ENTREGA TOTAL, SERIAM TOCADOS PELAS DICAS E TERIAM OS CRÍTICOS COMO TERMÔMETROS DE SUAS PERFORMANCES. O PÚBLICO CONTINUARIA FOCADO EM SER FELIZ INDEPENDENTE DO QUE FOSSE ESCRITO.

    AGORA,SENHOR MARCUS….QUERO DEIXAR UMA MEDITAÇÃO…QUANDO A CRÍTICA FEITA A UMA DIVA INTERNACIONAL COMO ELIANE COELHO…ARTISTA DE PRIMEIRA CLASSE …DIZ: “CANTOU COM UMA VOZ FEIA DE ASSUSTAR NENÉM” E MINHA ESPOSA QUE NAO É CANTORA … DIZ “A ELIANE É MARAVILHOSA!!!!!” SABE O QUE ACONTECE? O CRÍTICO PARECE RETRATAR EM SUAS PALAVRAS, CONFLITANDO COM O CORAÇÃO DO PÚBLICO, AQUILO QUE SUA PRÓPRIA CONSCIÊNCIA JÁ INDICA A SI PRÓPRIA” SUA SENSIBILIDADE ENVELHECEU!!!”…SEU COMENTÁRIO A RESPEITO DE MINHA COLEGA FOI TRISTE!!! …
    BOM…SENHOR MARCUS GÓES…TENHO CERTEZA QUE ASSIM COMO O SENHOR ESPERA QUE TODOS ENTENDAM SUAS CRÍTICAS, O SENHOR TAMBÉM ENTENDERÁ AS MINHAS. VEJA!!! AS CRÍTICAS FEITAS A MIM .. ADOREI !! OBRIGADO! AS QUE FORAM FEITAS AOS MEUS COLEGAS EU REPUDIEI! CULPADO!!!
    FICA COM DEUS E POR FAVOR, VEJA SE JÁ NÃO ESTÁ NA HORA DE PARAR…ASSIM COMO DISSE QUE A VOZ DE ELIANE JA ENVELHECEU.

  2. Esse senhor não vai se lembrar de mim, mas nós já conversamos. E ele foi muito simpático, por sinal. Lembro bem que sua esposa veio cantar Turandot em BH. Aliás, foi muito respeitada, ao contrário do que ele fez à Eliane Coelho. Só uma palavra me vem à cabeça: CRUELDADE. A mulher está linda no palco! A voz envelheceu? Estudando Abigaille, passei por muitos sopranos e foi nela que parei, pois me fez ouvir cada nota de cada cadência. E tive a honra de ouvir, ontem, cada nota, novamente, na estreia de Nabucco no Municipal do Rio. Nem vou comentar o que disse a (des)respeito dos meus outros colegas, por que tenho certeza que eles não vão se abalar. E muito menos Eliane vai se abalar. Mas voz envelhecida? Respeito é bom… e eu gosto. Rita Medeiros, cantora também.

  3. Senhor Crítico, somos cantores do coro do TM e amantes da ópera.
    Passamos uma temporada em fevereiro na fervilhante Nova Iorque. Tivemos a grande oportunidade de ver 4 óperas no Metropolitan. Nenhuma das cantoras a que assistimos, dentre elas: Renee Fleming, Natalie Dessay e Susan Graham, nos emocionou como a GRANDE Eliane Coelho, artista BRASILEIRA que brilha mundo a fora.

    Admira-nos muito a falta de sensibilidade e respeito com uma artista de tamanha grandeza.

    Infelizmente a frustração de alguns críticos impede que eles possam desfrutar dos momentos que fazem o GRANDE PÚBLICO dormir mais feliz.

    Que infelicidade ter que arrumar defeitos em uma montagem pronta realizada por artistas que AMAM o que fazem e que foi aplaudida efusivamente.

    Que profissão triste!

    Quem sabe um dia o Sr. volte cantor e a Eliane Coelho crítica.

    Frederico e Fernanda

  4. O crítico antes de tudo, deve ser educado e medir sabiamente as palavras. Quem está decadente? Certamente é o crítico, que gosta de aparecer e causar polêmica. Devia ser menos pretencioso e julgar seriamente o trabalho dos artistas que brilham aqui e lá fora, dignificando a arte do canto.

  5. Será que ainda não se pronunciou o necessário para que o movimento.com tome uma providência sobre as atrocidades postadas por este senhor?
    É o CÚMULO DA FALTA DE RESPEITO com nossos artistas líricos! Como manter a credibilidade no portal? Chamar a estupenda, insuperável Eliane Coelho de “espanta neném” é de uma grosseria inqualificável. Torço para que o movimento.com não se torne um picadeiro. Viva Eliane Coelho! Vivam os artistas líricos de nosso país!

  6. Prezado Antonio Rodrigues: minha mensagem foi “censurada” (editada). Porque uma pessoa que apoiou a vida inteira a ópera brasileira – e o SEU portal – não tem direitos iguais ao de qualquer pessoa que venha falar asneiras aqui e você publica? Se for para fazer CENSURA, pode apagar qualquer postagem minha por completo. O Facebook está aí para nos dar LIBERDADE DE EXPRESSÃO.

  7. As más línguas e os maus pensamentos poderão acusar-me de conflito de interesse agora. Evidente, pois sou filho do autor desta crítica. Além disso, ainda não fui assistir ao referido espetáculo, coisa que pretendo fazer hoje à noite (dia 27). Pois é, confessei meus crimes agora. Entretanto, só de ler aquilo que muitos andam escrevendo sobre a presente crítica do Mr. Góes, percebo nitidamente que a turminha do bem só se centrou no que foi escrito sobre o soprano, negligenciando os elogios feitos em favor da montagem, do maestro, do baixo… Tenho a impressão de que a única culpa de Mr. Góes foi a de tocar na artista intocável, de renome internacional, como se a mesma estivesse “a priori” isenta de julgamentos às vezes nem tão favoráveis. Será? Não sei. Conheço apenas uma tal de liberdade de expressão, com todos os adjetivos que esta pressupõe. Lamento informar-lhes que expressões como “envelheceu de voz”, “espanta-neném”, que tanto irritaram os aqui presentes, não fogem a este sagrado princípio, mesmo quando se referem a artistas tão renomados. Inclusive, há muitas críticas do autor elogiando demais outros sopranos brasileiros em atuações aqui no Brasil.

  8. Sou estudante de canto lírico e tenho mantido muitos contatos com o Prof. Marcus Góes, que me ensina musicologia e história da música. Nunca vi alguém conhecer tão profundamente o canto lírico. Além disso, meu professor já cantou em muita récitas de Nabucco na Europa, principalmente na Alemanha, como corista. Eu mesma vi as fotos de alguns destes acontecimentos. Ele conhece a partitura de cor do início ao fim e sabe onde estão os principais problemas para o soprano protagonista. Além do mais, nos treze anos em que viveu na França e na Itália, viu de perto regentes como Riccardo Muti, Michel Lehmann, Metodi Matakiev, Georg Notev, Romano Gandolfi, ensaiando a referida ópera. Com tais conhecimentos, Marcus Góes sabe onde estão palavras que não podem ser cortadas ao meio para o encaixe dos superagudos, além da duração de cada nota. Por esses motivos, acredito que sua crítica foi feita com absoluto conhecimento de causa.
    Também achei gritadas e feias muitas notas do soprano e não me importam seu renome e seu fã-clube. Quem não gostar de minha opinião, seja contra ela, sem no entanto chamar-me de maluca ou dizer que a opinião de que uma cantora não satisfez é desrespeito.
    Isto aqui até parece o Alabama, só que aqui a segregação envolve o direito de expressão!

  9. Não entendo o porquê de tanta celeuma sobre a crítica do Sr. Góes. Não a considero “destrutiva”, como comentado por um dos cantores do espetáculo. Ele até diz que a cantora protagonista poderia cantar bem outros papéis que não este de Abigaille. Sou amante desta ópera e entendo que o papel de Abigaille exige uma voz grande e com superagudos fortes. Esta senhora Eliane tem voz lírica, tendendo a pianíssimos e canto para o adocicado. Assisti ao espetáculo e achei o papel fora de seu alcance nos dois primeiros e mais importantes atos de Abigaille. Nos dois atos finais, as dificuldades diminuem todas e no final, o canto fica ligado e com pianíssimos, aí então ela se adaptou. Os “entendidos” adoraram as doçuras de Abigaille morrendo. O que passou, passou (dois primeiros atos sofridos) e tudo terminou em pizza. Que saudades da Suliotis, da Dimitrova. Não se fazem mais Abigailles como antigamente.

  10. Aconselho os conflitantes a pararem com este assunto de “espanta-neném” e voltarem para a realidade operística, de que cada papel foi escrito para determinado cantor e ponto final. A culpa disso tudo é das pessoas que escolhem os elencos. Não do artista que aceita qualquer papel para se superar. Quem gostou, gostou, e quem não gostou, não gostou e opinião é direito de todos. O que não pode é dizer que gostou sem ter gostado só pra alegrar uns e outros. Desta forma a arte lírica neste país vai continuar ladeira abaixo. Os erros, assim como os acertos, devem ser apontados pra que as encenações e atuações dos artistas possam ser melhoradas cada vez mais. Já percebi que o pessoal de São Paulo não é muito partidário desse raciocínio, pois parece que tudo é tão lindo, perfeito e impecável. Parece até que a opinião deles é molhada no mel. Mas, entre mortos e feridos, todos acabaram se salvando. E viva a ópera!

  11. Góes gastou cinco parágrafos elogiando o regente e um criticando o soprano. Pela lógica de quem abominou as críticas feitas à cantora, Góes deve ser um tremendo puxa-saco. E isso ele nunca foi…
    Quando o artista lírico brasileiro irá compreender que crítica musical nada mais é que a opinião de alguém que assistiu ao espetáculo e que não tem obrigação de gostar da récita? E que o leitor não precisa concordar com o crítico?
    A propósito, assisti a esse Nabucco, mas em BH. O soprano foi Eiko Senda, que cantou de maneira soberba. Esteves não “atenorou” a voz (seus graves estavam seguros e volumosos), Sperandio foi o “matador della serata”. Marcos Paulo cresceu em volume e qualidade ao longo da récita e a regência de Viegas foi exemplar. Só a Banda da PM que escorregou em algumas passagens – espero que nenhum sargento da corporação me ameace após esse comentário!
    Em suma: Góes tem direito de escrever o que quiser, da maneira que melhor lhe aprouver. E nós, de concordar ou não com ele. Fine.

  12. Prezados, lendo todos os comentários aqui postados em defesa dos cantores, tenho uma pergunta a fazer: “Por que os senhores não fizeram a mesma defesa em favor da diva Rosana Lamosa quando ela simplesmente fez descer às profundezas o papel principal de Lucia di Lammermoor”? Não se atreveram a ser complascentes com tão ridícula apresentação ou será que ela não faz parte do clube? Todos tem o direito a opinar e eu, assim como o crítico, não me satisfiz com a Abigaille de Eliane Coelho, seja ela cantora de renome ou reconhecida internacionalmente. Nesta produção ela não se saiu bem e eu não sou crítico, faço parte do público, mas do público que não é leigo e que se agrada com qualquer apresentação. Cobramos sim, porque sabemos que o Municipal pode ter produções melhores e esperamos que um dia isso aconteça. Não estamos aqui para difamar ninguém, apenas para comentar o que ocorreu, segundo nossa opinião, que até onde sei, é livre.

  13. Não conheço nenhum cantor que tenha perdido um papel por ter sido criticado num website qualquer.
    Não conheço nenhum cantor que tenha ganhado um papel por ter sido elogiado num website qualquer.
    Não conheço nenhum crítico que tenha conseguido cantar um dó de peito (sem ou com voz feia) por criticar quem quer que seja.
    Ou seja, uma crítica não promove, não despromove, nem faz ninguém cantar melhor. É apenas uma crítica. Se o Sr. Góes não gostou da cantora, ele vai falar. Eu discordo. Assisti a uma récita e não vi nenhuma nota gritada (talvez tenha visto uma récita em dia diferente a dele). Mas, se eu fosse a Sra. Coelho, e lê-se isso na crítica, apenas elevaria meu pensamento com as seguintes palavras: “vá lá, e faça melhor”.

  14. Na minha opiniao Eliane Coelho estava muitíssimo bem. Na primeira récita, achei no início sua voz fria, mas no decorrer do tempo sua voz foi encorpando e chegando num final impecável. Não sou crítico, gracas a Deus!!!
    Mas o que acho no nosso Teatro Municipal com relação a óperas é que alguém que escala os cantores deve saber que nem todos os cantores cantam todos os papeis. E com isso queimam até a carreira de certos solistas por darem e acharem que podem cantar “qualquer coisa”.

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Marcus Góes
Musicólogo, crítico de música e dança e pesquisador. Tem livros publicados também no exterior. Considerado a maior autoridade mundial sobre Carlos Gomes.