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Na Áustria, a Schubertíada de Schwarzenberg 2013

Com êxito crescente, o Festival se expandiu para a aldeia medieval de Schwarzenberg, no mesmo Estado, a uma hora de automóvel de Hohenems.

Planejado, inicialmente, em 1972, por Gert Nachbauer, como um pequeno Festival Mozart para a cidade de Hohenems, no Estado austríaco de Vorarlberg, a ideia se transformou num Festival Schubert, estimulado pelo saudoso, grande barítono Hermann Prey, em 1976.

Depois de atuar em várias salas improvisadas, foi construído em 2001 o auditório Angelika Kaufmann, em Schwarzenberg, em homenagem à filha dileta da aldeia, a grande pintora do século XVIII/XIX, que fez sua prestigiosa carreira internacional em Roma e Londres. Remanejada e inaugurada em 2004, a antiga Sala Markus-Sittikus em Hohenems,foi acrescentada ao Festival. Nela, o grande tenor Peter Schreier, intérprete dos Lieder de Schubert, encerrou sua carreira em 2007.

Com estas duas salas, a primeira com 600 lugares, e a segunda com 300, estava assegurada a base física da Schubertíada, e seu caráter intimista.

A ideia fundamental, foi a de criar um Festival dedicado à música, principalmente camerística, de Franz Schubert, e de lhe dar o devido lugar ao lado de Mozart e Beethoven Estas sedes, em cidades vizinhas, estavam destinadas a atrair anualmente os amantes da música do imortal mestre vienense, bem como os maiores intérpretes disponíveis, vindos de muitos países, para lhe garantir o mais alto nível possível A grande beleza alpina dessa região da Áustria Ocidental, acabaria sendo o cenário ideal para a criação da atmosfera única, onde as composições de Schubert ecoam supremas e livres.  Hoje, a Schubertíada se reveza entre as duas localidades em quatro pequenos turnos anuais, de dez dias cada, em média, de abril a outubro.

Atualmente, essa Schubertíada é considerada a mais importante em existência, oferecendo 90 eventos para 40.000 espectadores. Frise-se que seus organizadores primaram em preservar o ideal de intimidade do Festival. Não há nenhum festival congênere capaz de oferecer tantos recitais de Lieder, recitais de piano, e concertos de música de câmara, num espaço de tempo tão curto, complementados por concertos orquestrais, conferências, exposições, e classes mestras, dadas pelos melhores cantores, instrumentistas e teóricos de nossos dias. Ocasionalmente, o Festival oferece concertos campestres, bem como em palácios e capelas distantes, para celebrar as viagens de Schubert, e sua vinculação à natureza.

Embora Schwarzenberg seja hoje o local mais importante do Festival, sua sede continua sendo Hohenems, na Villa Rosenthal, de onde ele irradia sua ação educativa, através de museus que ele ajudou a implantar, dentre eles o Museu Franz Schubert, o Museu Elisabeth Schwarzkopf, o Museu Walter Legge da Gravação Musical, o Museu Nibelungenlied (que guarda o manuscrito medieval mais antigo da célebre narrativa épica que inspirou Richard Wagner), e mais outros museus, inclusive o Museu Judaico, que celebra a comunidade multisecular.

A alma da Schubertíada é, sem dúvida, Gerd Nachbauer, seu Diretor e Programador há 38 anos. Personalidade forte, determinada, de grande capacidade de planejamento, organização e administração, secundado por dedicada e competente equipe, ele trabalha praticamente sem subvenções governamentais, embora tenha o apoio do Departamento de Turismo da Floresta de Bregenz, comarca onde o festival atua. Conta ele com o apoio de uma Sociedade dos Amigos da Schubertíada, com sócios contribuintes em muitos países. Mas, basicamente, essa empreitada conta com o seguro tino comercial de Nachbauer. A Comarca de Bregenz articula o turismo cultural, ótima fonte de renda.

A Schubertíada criou grande quantidade de empregos para a população local. Aquela região é parte do Lago de Constança, na fronteira com a Suíça, Alemanha e Lichtenstein. Mas Gerd Nachbauer é carismático e atrai os melhores músicos e um público internacional culto e entusiasta.

Numa entrevista que me concedeu, Nachbauer fez várias afirmativas, frutos de sua vasta experiência pessoal. Quando observei que a grande maioria do público tinha cabelos grisalhos, ele disse que foi sempre assim, desde o início, acreditando ele que a paixão pela beleza e profundidade da música de Schubert seja um fenômeno da maturidade. E acrescentou: “eu sempre reservo um lote de ingressos gratuitos para as escolas, mas a maioria dos jovens prefere não usá-los“. A uma outra pergunta que eu lhe fiz sobre a possível combinação, na programação, da música de Schubert com algumas composições de vanguarda, ele afirmou que para ela existem muitas outras salas de concertos, e que o público que vem à Schubertíada, vem cultuar a tradição. Por isso, os programas incluem também peças de Haydn, Mozart, Beethoven,  Mendelssohn, Brahms, Dvorak, Debussy e Ravel.

O programa de 2013, de 14 a 23 de junho, ofereceu recitais de Lieder por Christoph Prégardien, Werner Güra, Andreas Schmidt, Robert Holl, da soprano chilena Carolina Ulrich, acompanhada ao piano pelo brasileiro Marcelo Amaral, e os cantores argentinos Bernarda Fink e Marcos Fink. Recitais de piano de Piotr Anderszewski, Paul Lewis, Till Fellner e András Schiff. Concertos dos Quartetos Apollon Musagète, Ebène, Minetti, Pavel Haas, e o Quarteto de Tóquio. Além de Trios, Quintetos, Sextetos e Octetos.

Conferências e classes mestras de Christian Zacharias e Alfred Brendel. Todos da mais alta qualidade. Cada um deles mereceria extensas apreciações individualizadas. A Schubertíada de 2013 continuará ainda em vários turnos, nas duas localidades, até a primeira semana de outubro.

A Schubertíada de 2014 já foi anunciada, e apresentará, entre outros, os pianistas Alexandre Tharaud, Igor Levit, Katia Biunatishvili, Martha Helmden, Marc-André Hamelin, András Schiff, Till Fellner e Arcadi Volodos.  Os cantores Benjamin Appl, Christoph Prégarien, Sylvia Schwartz, Anne Prohaska, Daniel Behle, Mauro Peter, Angelika Kirchschlager, Ian Bostridge e Helmut Deutsch, entre outros. Os Quartetos Modigliani, Artemis, Minetti, Szymanowski, além de vário Duos, Trios e Quintetos.

Vale a pena notar que a Sala Angelika Kaufmann foi construída toda em madeira clara, forro, piso e paredes, inspirada na longa tradição local de celeiros construídos em madeira cálida, que funciona como caixa acústica, perfeita para o tipo de música que nela se executa. Tem-se a impressão de se estar sentado dentro de um violino.

 

Para mais informações e fotos, acessem www.schubertiade.at 

 

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José Neistein
Formado em Filosofia na USP e em Viena. Conferencista em universidades da Europa e das Américas. É membro das associações nacional e internacional de críticos de arte, com vários livros publicados. É crítico de arte, música, literatura, teatro e ópera.