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Música e Sexo

A ligação entre sexo e música está presente desde os primórdios da civilização humana. Ao observarem o ato reprodutivo humano ou dos animais e descobrir o processo de fertilização das plantas, os povos primitivos criaram diversos rituais para atrair a atenção dos deuses, que propiciariam novos membros da comunidade, filhotes para o rebanho e alimentação necessária à subsistência.

Infelizmente não podemos recuperar estes rituais e nem suas manifestações artísticas complementares e subjacentes (música, dança, texto, etc…), entretanto temos citações em miríades de documentos antigos, como desenhos nas cavernas, pinturas nos murais babilônicos ou egípcios, máscaras dos povos antigos americanos (maia, asteca, guarani, etc…), descrições em livros gregos ou judeus e outros exemplos mais. Platão, num dos seus escritos, chegou até a condenar certas escalas musicais por considerá-las lascivas.

Na Idade Média europeia, as canções dos trovadores expressaram este desejo de glorificar o amor em letras apaixonadas. Elas variam de tom do mais idealizado (transformando a sua “amada” – fiel, bela e casta – num símbolo religioso) até o mais pornográfico. Por outro lado, alguns cantos gregorianos, na manifestação do seu júbilo, chegam a ser sensuais na sua delicadeza eufônica ao tratar do amor a Cristo.

Na época Renascentista da Música (século 16), as canções se tornam mais realistas. Podemos citar as “chansons” do francês Claude Jannequin e os madrigais dos compositores italianos, como por exemplo Claudio Monteverdi. Todas vão da melancolia da perda amorosa ou da saudade até a exaltação do êxtase conjugal.

No Barroco Musical (século 17 até meados do século 18), os compositores descobrem um novo filão para manifestar seus pensamentos: a ópera. Com assuntos extraídos da mitologia greco-romana, os autores buscam os mais libidinosos e os colocam com imagens sensivelmente eróticas. Soma-se a isto uma encenação glamorosa, atraindo assim os outros órgãos dos sentidos além da audição. Católicos e protestantes de vários matizes proibiram tais óperas e aconselharam aos artistas que desenvolvessem um tipo de gênero musical mais sóbrio, baseado nos textos bíblicos: o oratório. Entretanto alguns compositores extraíram destes mesmos textos bíblicos as histórias mais próximas de alguma manifestação sexualista.

No Classicismo (século 18), as obras de Mozart são declaradamente uma exaltação ao sexo. Das suas óperas, três delas são emblemáticas: “As bodas de Fígaro” (1786), “Don Giovanni” (1787) e “Cosí fan tutti” (em italiano: “Assim fazem todas” – 1788) . A letra, a música e a encenação são sugestivas manifestações glorificando os prazeres da vida.

Na primeira metade do século 19, durante o Romantismo na Música, o amor e o sexo voltam a ser idealizados. Entretanto, percebemos uma tensão muito grande entre o que é dito e o que é desejado realmente. Assim, as óperas e as canções exaltam a inacessível “amada imortal”, mas o “artista” arde de desejo carnal. Esta contradição produz, por um lado, obras ingênuas e, por outro lado, composições expressivas e apaixonantes.

Um exemplo deste segundo tipo é a “Sinfonia Fantástica” (1830) de Hector Berlioz. Mesmo sendo uma obra puramente instrumental, o compositor nos forneceu um roteiro para entender a sua mensagem: trata-se de um amor frustrado, cujo fim é trágico. Outro exemplo é a ópera “Tristão e Isolda” (1859) de Richard Wagner. Também sensuais são as óperas de Gounod ou de Massenet.

As canções de Franz Schubert mostram o lado trágico do amor: nunca é consumado, pois há sempre empecilhos de toda ordem para a sua realização. Entretanto, se a letra mostra a frustração, a música é carregada de expressões e sentimentos amorosos. Do lado ingênuo temos as músicas de Peter Tchaikovsky para vários balés como “A Bela Adormecida”, baseado no conto homônimo, e as óperas de Bellini ou de Donizetti.

As óperas e as canções com textos ligados à estética literária Realista/Naturalista (segunda metade do século 19) mostram o lado incontrolável do sexo. O desejo sexual é doentio e obsessivo e podemos citar como exemplo as óperas “Rigoletto” (1851), de Giuseppe Verdi, “Carmen” (1875), de Georges Bizet, “La Bohème” (1896), de Giacomo Puccini e “Salomé” (1905), de Richard Strauss. A música que acompanha estes textos é densa e voluptuosa.

Com o Simbolismo, a música se torna mais rarefeita e o sexo está ligado sempre com a morte. Podemos citar novamente Wagner com “Parsifal” (1882) e Claude Debussy em sua ópera “Pelléas et Melisande” (1902).

No século 20, as várias correntes experimentais (neoclássicas, atonais, eletrônicas etc…) mostram o sexo livremente. Um exemplo quase pornográfico é a cantata “Carmina Burana” (1936; em latim: “Poemas de Burhein” – uma cidade alemã onde estes textos foram achados) de Carl Orff. Trata-se de canções referentes aos prazeres da vida: bebida, comida, descanso e sexo. Escrito por poetas anônimos medievais, exaltam a chegada da primavera e a possibilidade de se abrirem às suas fantasias.

Outro exemplo é o “Bolero” (1928), música de Maurice Ravel para um roteiro de Ida Rubinstein. O texto apresenta uma única bailarina que seduz um grupo de homens, quando estes dançam ao redor dela. Nesta música, a melodia se repete obsedantemente num crescendo de dinâmica e no acréscimo instrumental. Igor Stravinsky nos traz, entre outras obras, na ópera “A carreira de um libertino” (1951) uma sensualidade mozartiana à flor da pele.

A ópera “Ascensão e Queda de Mahagonny” 1930), de Kurt Weill, com texto de Bert Brecht, associa sexo e política. Em “Lulu” (1935), de Alban Berg, é mostrado o lado obscuro do sexo: uma prostituta engana seus clientes até ser assassinada por Jackie, o Estripador. A música é violentamente dissonante.

Béla Bartok também tratou do sexo em suas obras. Ele compôs a música para o balé “O mandarim maravilhoso” (1926), que fala da redenção da morte através do sexo. A ópera “Powder her face” (1995), de Thomas Adés, narra façanhas sexuais de uma baronesa – baseada em fatos reais no século 20. E “Harvey Milk” (1995), de Stewart Wallace, é a primeira ópera que fala abertamente sobre o homossexualismo (na qual há um dueto de amor entre dois tenores).

Na música popular (uma manifestação artística dos grandes centros urbanos que aparece a partir do final do século 19, que funde elementos folclóricos, eruditos e efeitos eletrônicos, divulgada pela mídia), desde a música de cabaré até os insinuantes tangos, passando pelos lancinantes blues e serestas ingênuas, temos milhares de exemplos. Concentrando-se somente na Música Popular Brasileira, num nível altíssimo de associação estética e de ética, podemos destacar o repertório de Chico Buarque de Holanda, Djavan, Gilberto Gil, Caetano Veloso, entre outros. Mas há, de outros criadores e animadores de auditórios, canções excessivamente pornográficas, inclusive atingindo o público infantil – infelizmente.

Tecnicamente falando, as características sonoras mais comuns que se ligam à sensualidade (na música ocidental “erudita” ou “popular”) são: andamento lento, tonalidades menores, melodias sinuosas com meios tons que descem ao grave, ritmos não marcados, arranjo instrumental fragmentado ou de timbres graves. Por outro lado, melodias, ritmos e arranjos podem ser repetitivos e frenéticos para levar ao êxtase.

Autor Edson Tadeu Ortolan.
em 17/1/2003

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