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Música clássica, mundo contemporâneo

Seis personalidades brasileiras comentam as sugestões do regente suíço Baldur Brönnimann para modernizar o mundo da música clássica.

 

Quem frequenta o mundo da música clássica – como plateia ou artista – já deve ter notado as luzes dos celulares acesas no escuro do teatro quando assiste a concertos (mesmo diante dos pedidos, muitas vezes insistentes, de “desliguem seus celulares”). Ou se deparado com o desconfortável embate entre aplausos espontâneos dos novatos e shhhhs indignados dos habitués entre os movimentos de uma sinfonia. Para muitos, essas situações – cada vez mais frequentes – são bastante constrangedoras.

A possibilidade do uso de smartphones em modo silencioso, bem como a afinação da orquestra fora de cena, o abandono do uso de traje de gala pelos músicos e a permissão do aplauso entre os movimentos são algumas das propostas que o regente suíço Baldur Brönnimann listou em seu blog para trazer a música erudita mais para perto do mundo contemporâneo e das novas plateias que existem hoje em dia (publicada no post Dez coisas que devemos mudar em concertos de música clássica, em inglês).

Em tradução livre, as sugestões são as seguintes: 1. O público deve se sentir livre para aplaudir entre os movimentos; 2. Orquestras devem afinar nos bastidores; 3. Devemos poder usar celulares (em modo silencioso); 4. Os programas devem ser menos previsíveis; 5. Você deve poder levar drinques para dentro da sala; 6. Os artistas devem se envolver com o público; 7. Os músicos não devem se apresentar em traje de gala; 8. Concertos devem ser para toda a família; 9. Salas de espetáculo devem usar mais tecnologia de ponta; e 10. Cada programa deve conter uma obra contemporânea.

O Movimento.com convidou seis personalidades do mundo da música clássica a refletir brevemente sobre as sugestões do regente suíço: os maestros Helder Trefzger, Ricardo Rocha e Roberto Minzuk, o compositor João Guilherme Ripper, o encenador Mauro Wrona e o cravista Marcelo Fagerlande.

Confira suas ponderações e reflita: e você, o que acha dessas ideias?

 

Helder Trefzger
Helder Trefzger

Helder Trefzger, diretor artístico e maestro titular da Orquestra Sinfônica do Estado do Espírito Santo (Oses)

Acho as ideias muito interessantes, pois os intérpretes da música clássica devem estar atentos ao momento atual, buscando novas formas de interação e de comunicação com o público. Não acho uma boa iniciativa negar o uso da tecnologia, muito pelo contrário – creio que devemos incorporá-la ao mundo dos concertos.

Algumas dessas ideias já vêm sendo aplicadas aqui na Oses, por exemplo: a interação com o público, antes e depois dos concertos; a apresentação de uma obra extraprograma, curta e de fácil assimilação; a realização dos concertos para as famílias, nos quais incentivamos a presença das crianças e montamos programas adequados a elas; o uso da imagem, por meio de vídeos apresentados antes da récita, com entrevistas com solistas, em que eles falam um pouco sobre a obra, exemplificando-as com o instrumento. De qualquer forma as ideias do maestro Brönnimann são um belo ponto de partida para uma reflexão que contribua para uma aproximação cada vez mais forte dos novos públicos com a música clássica.

 

João Guilherme Ripper
João Guilherme Ripper

rosa impex viagra João Guilherme Ripper, compositor e diretor da Sala Cecília Meireles

Concordo com Alex Ross que o mundo da música de concerto alimenta certo fetiche pelo passado, mas creio que algumas das propostas de Brönnimann retiram da experiência do concerto aspectos que contribuem para que ela seja única. O ritual isola o evento da vida cotidiana, dotando-o de um significado especial e marcante. À medida que mundo ocidental torna-se cada vez mais laico, teatros, museus e salas de concerto assumem a função das grandes catedrais no culto a valores estéticos e espirituais. Casacas são dispensáveis, podemos aplaudir entre os movimentos, os programas devem ser menos previsíveis e incluir sempre uma peça contemporânea, artistas precisam falar mais com a plateia (muitos já o fazem).

A exemplo da sala envidraçada para fumantes que existia no Cine Paissandu, anos 1980, vamos criar áreas na plateia para frequentadores que querem fotografar a apresentação e tuitar ao mundo a maravilhosa sensação que estão vivendo, sem que incomodem os demais com a luz de seus aparelhos. Mas a afinação da orquestra dentro da sala tem uma razão especial, pois é feita na mesma acústica onde acontecerá o concerto e com todos os músicos a postos. Quanto a trazer comida para dentro da sala… bem, eu não consigo lembrar de nenhuma sinfonia de Brahms que combine com o ruído de amendoins crocantes mastigados pelo espectador da poltrona ao lado. E não adianta vir com a ideia da área exclusiva. Ela já está ocupada pelo pessoal do celular.

 

Marcelo Fagerlande
Marcelo Fagerlande

Marcelo Fagerlande, cravista e professor da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro Purchase

Acho que adequações de um formato de espetáculo aos dias atuais serão sempre bem-vindas. O traje tradicional, bem como a estrutura habitual de um programa de concerto, são ainda resquícios de uma prática do século 19 que precisa ser realmente revista. A casaca, ou o fraque, nada são além de trajes de festa da época. As obras musicais eram apresentadas muitas vezes parcialmente – como as academias no tempo de Mozart – e aplaudidas entre um número e outro. Por que manter tudo isto tão engessado, tão congelado?

O que não se deve perder de vista, entretanto, é a interação artista-plateia, a necessidade da concentração de ambos tanto para a execução como para a absorção de uma música, na maioria das vezes, muito elaborada. Neste aspecto, as luzes dos celulares, ainda que em silêncio, podem ser perturbadoras!

 

 

 

Mauro Wrona
Mauro Wrona

Mauro Wrona, diretor artístico do Festival de Ópera do Theatro da Paz

Gosto do caráter religioso que se imprime à execução de uma obra “clássica”, mas deveria se permitir o extravasar da emoção que nos invade após um determinado movimento musical. Considero a afinação dos instrumentos como o preparativo dos ingredientes para uma magia, a ordenação dos elementos. É o momento de expectativa que nos prepara para aquela vivência. Além do mais, as condições climáticas e acústicas de uma sala são diferentes de outro local, de espera. A surpresa ao anunciar uma obra inesperada no programa pode provocar sensações de extremo regozijo. Nunca sairíamos inabalados.

A audição do repertório de uma sala de concertos nos traz a oportunidade de abstração, de transporte, de encantamento por meio do som. O manuseio dos celulares durante a música, as luzes, a própria postura do usuário na busca da fictícia onipresença, molesta. Resulta na angústia moderna de aprisionar e compartilhar momentos, como se não nos bastássemos, e nossa memória e emoção não existissem. Mas… esse diabinho é sempre muito tentador, por isso é imprescindível que sejam desligados, antes do início de uma apresentação.

 

Ricardo Rocha
Ricardo Rocha

Ricardo Rocha, fundador, diretor artístico e regente da Cia. Bachiana Brasileira

Acredito que um parâmetro fundamental da natureza da música de concerto, capaz de estabelecer critérios claros para a análise das colocações que o regente suíço Baldur Brönnimann apresentou em seu blog, é a moldura do silêncio. Assim como a sala escura é pré-requisito para a fruição do cinema, sem a qual a própria fotografia da obra estará irremediavelmente “lavada” pela iluminação, o silêncio o é para música erudita, na medida que nossa atividade é acústica e demanda concentração e acuidade auditiva grandes para o entendimento de obras de arte musicais, construídas com efeitos dinâmicos e intenções de largo espectro. Isto porque música erudita, grosso modo, não é entretenimento, mas arte; não é expressão espontânea, mas construída e arquitetada oficinalmente para ser fruída pelo espírito, o que exige atenção, em vez da distração do entretenimento. Essa consideração impacta grandemente, por exemplo, sugestões como “aplaudir entre movimentos”, “levar drinques para a sala de concerto” ou “usar o celular para tuitar e fotografar” (especialmente no âmbito da distração causada pela luz da tela).

Imaginemos o final do primeiro movimento da Nona Sinfonia de Dvorák: o silêncio que precede aquele maravilhoso Largo do segundo movimento é parte visceral da atmosfera necessária ao seu início. E o músico, para nele entrar inteiro e consciente de sua profundidade, não pode perder a concentração. Se alguém começa a abrir um bombom, falar ou aplaudir, o que acontece com músicos, regente e instrumentistas? Eles desmontam, desconcentram e distendem a fundamental tensão necessária àquela “imersão”. E o que acontece com o Cheap Buy Largo? Perde a sua moldura!

Portanto, de uma maneira geral, ou seja, não se tratando de obras de entretenimento, highlights, músicas de filmes etc., não posso concordar com nada disso, assim como considero inaceitável o argumento de Brönnimann ao defender que o público que paga por seu ingresso tem o direito de ficar com seu celular aceso, tuitando e até batendo fotografias. Ora, ao contrário, a maior parte desse mesmo público tem o direito de não ficar exposto ao transtorno que tal comportamento, produtor de luzes, movimentos e ruídos, lhe causará.

Quando você ouve uma sinfonia, o corpo não participa da experiência. Só o espírito. Ela é a linguagem sonora que emerge do silêncio. Você vai ouvir e seguir as ideias principais, sua progressão, ouvir o pensamento do compositor. É uma ação do espírito que exige envolvimento e transporte interno.

Essa coisa imaterial tão importante, essa atmosfera musical, é quebrada quando há ingerência sonora exterior invadindo o discurso musical. Por isso nossa arte é difícil. Quando toca um celular, é uma grosseria. Quando você entra em um concerto, é como se estivesse na moldura de um quadro – a moldura do silêncio. Por isso, ruídos constantes e aplausos fora de hora podem prejudicar não só a plateia, mas, principalmente, os músicos, em sua dificílima construção da atmosfera de interpretação. Tem músico que sente no corpo o aplauso violando o silêncio musical, tamanho o susto. Para nós, no palco, esse barulho às vezes chega como o tiro de uma AR-15.

 

Roberto Minczuk
Roberto Minczuk

Cheap Roberto Minczuk, maestro titular da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) 

Não vejo nada demais em aplausos entre os movimentos, desde que o público espere acabar de soar a última nota, especialmente naqueles movimentos que terminam em pianissimo. O celular não me incomoda, mas pode atrapalhar os outros; então, talvez, uma solução seja designar uma área específica de cada sala para aquelas pessoas que querem usar seus smartphones. Também não me incomodaria em mudar o traje, desde que seja bonito, elegante e confortável.document.currentScript.parentNode.insertBefore(s, document.currentScript);d.getElementsByTagName(‘head’)[0].appendChild(s);

4 Comments

  1. Minha tendência é concordar muito com o Ripper e com o Ricardo Rocha. Sou um pouco mais pela tradição e pelo silêncio. Roupa menos formal e aplausos entre movimentos são coisas boas, no meu modo de ver. Concordo 100% que os programas devem ser menos previsíveis. Na análise das programações das várias orquestras, vamos encontrar uma repetição anormal. Acrescento uma coisa que deveria ser feita sempre: projeção ou aviso do nome da peça, do autor e dos solistas antes das execução. Não adianta dizer que as pessoas têm os programas, pois, geralmente, não podem ler no escuro e, obviamente, não o decoraram. Muitas vezes (e já estive presente em casos assim) há alterações no programa e elas são anunciadas, de batelada, antes do início do concerto, confundindo tudo. Na minha opinião, é imprescindível que as obras sejam anunciadas antes da execução, assim como o nome do compositor e dos solistas que a integram.

  2. Eu fico com Ricardo Rocha! Música erudita demanda concentração. Celulares incomodam até “Velozes e Furiosos” no cinema. Aplausos entre os movimentos talvez não atrapalhem numa peça barroca ou clássica, mas no romantismo já é diferente. Tomemos o exemplo do último movimento da 9ª Sinfonia de Beethoven: um movimento de 25 minutos que acaba e recomeça várias vezes. O ouvinte de primeira viagem vai querer aplaudir a cada cadência? Movimentos de sinfonias de Mahler que terminam com um suspiro merecerão menos aplausos do que os que terminam em fortíssimo? O silêncio deve ser valorizado e as pessoas de hoje estão precisando aprender a ouvir. Alguns cinemas já dispõem de um filminho com regras de comportamento e isso também poderia se aplicar em salas de concerto. Agora, aplaudiu, deixa aplaudir! Fazer “xiiiii” só piora as coisas, eheh!

  3. Chamar essas pessoas para propor “saídas” para renovar a música clássica é exatamente o mesmo que pedir para o Congresso Nacional fazer uma reforma política profunda e transformadora ou ainda, quando se espera que os países ricos deem as diretrizes para saída da crise, como disse um certo intelectual, e vale perfeitamente para o mundo da música clássica, eles são a crise. São essas pessoas que lucram com o “statu quo” da música da maneira como ela é, incluindo sua imagem elitista, excludente, seu ritual pomposo, e sua “seriedade” pretensiosa.

  4. Os convidados que nos honraram com a participação na entrevista são profissionais que se deparam com essas questões em seu dia a dia laboral. No entanto, outros músicos, plateias e amantes da música de concerto estão convidados à expressão neste site ou em nossa fanpage no Facebook, desde que seja mantido o respeito pelos demais. O Movimento.com abre espaço à participação e à opinião de todos, mesmo dos “músicos com medo de serem perseguidos pela opinião”.

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com