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Municipal SP lança documentários sobre óperas canceladas

A temporada lírica 2020 do Theatro Municipal de São Paulo previa uma programação intensa, diversa, inquieta e multicultural, com sete óperas em seis montagens (uma produção traria dois títulos), entre obras clássicas e contemporâneas inéditas, honrando a vocação do complexo cultural.

Incluíam-se aí mais dois projetos de característica operística que iriam além da temporada principal. Até que a pandemia chegou e suspendeu toda programação presencial a quinze dias da estreia de Aida, montagem que abriria a temporada.

O cenário impôs novos desafios à direção artística da casa, que precisou se reinventar. E agora, aproveitando o Dia Mundial da Ópera, celebrado no último domingo, 25 de outubro, o Theatro Municipal de São Paulo lançou três documentários sobre alguns desses projetos que seriam encenados este ano.

Com roteiro e direção dos próprios diretores cênicos que assinariam as montagens, em parceria com roteiristas, os filmes revelam o processo de criação e produção das óperas, com materiais inéditos, imagens de bastidores e inúmeros depoimentos dos profissionais envolvidos, entre diretores, maestros, cenógrafos, figurinistas, solistas e até mesmo da equipe técnica que não aparece em cena, mas ajuda a colocar o espetáculo “em pé” para o público.

O curta-metragem Quando as Óperas Param – Navalha na Carne e Homens de Papel conta como estava sendo preparada a primeira encomenda de óperas do Theatro Municipal de São Paulo em 109 anos de história. A direção é de Fernanda Maia e Zé Henrique de Paula, que compartilhariam a direção cênica do programa duplo.

Guarani em Chamas, que traz à tona o processo criativo da montagem que seria uma adaptação da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, que este ano completa 150 anos de sua estreia na Itália. O documentário tem direção de Zeca Rodrigues e Marco Antônio Rodrigues. Completa a lista o documentário de Aida, de Bia Lessa, a montagem que abriria a temporada lírica 2020 do Municipal.

Já lançados, os filmes ficarão disponíveis no YouTube do Municipal para acesso gratuito e sem necessidade de cadastro. Serão publicadas duas versões, ambas legendadas, e uma com recurso de tradução em Libras, garantindo acessibilidade a todos os públicos.

 

GUARANI EM CHAMAS

(Dir.: Zeca Rodrigues, Brasil, 2020, 21 min., Documentário, Livre)

Guarani em Chamas seria uma adaptação da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, inspirada em um romance homônimo do escritor José de Alencar e que, em 2020, celebra 150 anos de sua estreia no Teatro alla Scala de Milão, na Itália, em 1870.

A obra do escritor que serviu de base para a composição traça um perfil de uma suposta brasilidade que se constituiria na mistura das várias gentes que aqui estavam, como os portugueses e os indígenas. E a ópera de Carlos Gomes traz essa visão do colonizador sobre uma sociedade idílica.

A adaptação de Marco Antônio Rodrigues traria a perspectiva do colonizado, do indígena. O olhar é a partir dos povos nativos que aqui já estavam antes da chegada dos portugueses. “É um libelo em chamas pelas causas indígenas. Causas essas que são a salvaguarda da vida desta nação”, destaca Marco.

A atriz principal do documentário, Sandra Nanayamma, de origem indígena, dá voz a uma mulher Aimoré, que em um trecho da ópera teria sido morta de forma casual pelo filho do colonizador português. Aqui, esta personagem narrada e citada na obra de José de Alencar, ganha vida.

Assim como faria na montagem adaptada, ela é quem conduz o documentário, que ainda traz a participação dos solistas Caroline de Comi (soprano), Marcello Vannucci (tenor) e Matheus França (baixo), e integrantes do Coro Lírico Municipal. A trilha sonora tem obras de Carlos Gomes, Beethoven e Caetano Veloso, com a música Um Índio, arranjada por Rodrigo Morte.

O documentário traz alguns dos profissionais que preparavam a produção que ganharia o palco do Theatro Municipal, como a dramaturga Cláudia Barral, o cenógrafo Márcio Medina e o figurinista Cássio Brasil. O maestro Roberto Minczuk também revela detalhes da montagem.

 

 QUANDO AS ÓPERAS PARAM

(Dir.: Zé Henrique de Paula e Fernanda Maia, Brasil, 2020, 30 min., Documentário, Livre)

O título do documentário remete à suspensão e posterior cancelamento do programa duplo baseado nas peças de Plínio Marcos e adaptadas para ópera que seria apresentado no Municipal este ano – Navalha na Carne, composição de Leonardo Martinelli, e Homens de Papel, de Elodie Bouny.

O curta-metragem, gravado no Municipal durante o período de isolamento social e de acordo com todos os protocolos sanitários para a segurança dos envolvidos na produção do filme, começa relembrando a ideia de montar um trabalho do dramaturgo paulista no teatro dedicado à ópera e à música de concerto.

Na sequência, a atriz, diretora musical e dramaturga Fernanda Maia, emocionada por voltar ao Municipal após cinco meses para gravar seu depoimento, comenta sobre o processo de criação, interrompido pela pandemia. O documentário também aborda quais olhares esta nova realidade trouxe para as duas obras e quais cadeias de significados a pandemia fez aflorar nas mesmas.

Quando as óperas param apresenta as bases de pesquisa e criação dos artistas envolvidos, desde o surgimento da ideia inicial, criação de libretos, composição, cenário, figurino, direção cênica e musical, além de um depoimento do filho de Plínio Marcos, Ricardo Barros. Fernanda Maia compartilharia a direção cênica da double bill com o ator, cenógrafo e figurinista Zé Henrique de Paula.

“Quando as Óperas Param é uma iniciativa realmente fabulosa, visto que concretiza – mesmo que parcialmente e em outra plataforma, o vídeo – os conteúdos das óperas”, destaca Zé Henrique. “Pode-se ver com rigor o que norteou o trabalho da equipe, com acesso em primeira mão a trechos da música, trechos de duas das árias, concepção cenográfica, conceito de figurinos e, não menos importante, o olhar da direção sobre duas obras icônicas daquele que pode ser considerado o maior dramaturgo paulista do teatro contemporâneo”, completa.

Fernanda Maia destaca que, além da situação atual ter acrescentado significados às duas obras, “…não há como negar que a pandemia teve um impacto emocional muito grande nos artistas envolvidos, e isto também é matéria do documentário. É uma pequena amostra dos efeitos na classe artística, que,  forçada a interromper suas atividades, se vê privada não somente do seu ganha-pão, mas de sua expressão, de sua maneira de se colocar no mundo”, enfatiza a dramaturga.

Em um trecho do documentário, Fernanda e o compositor Leonardo Martinelli conversam por videoconferência sobre Navalha na Carne, uma peça de 1967 que fala sobre os conflitos, confrontos e agressões entre três personagens marginalizados, dentro de um quarto de hotel decadente do centro da cidade: a prostituta Neusa Sueli, o cafetão Vado e o empregado do hotel, Veludo. 

Martinelli descreve o seu trabalho de composição. O documentário também traz depoimentos da compositora Elodie Bouny, do cenógrafo Bruno Anselmo, do figurinista João Pimenta e do maestro Roberto Minczuk.

 

AIDA

(Dir.: Bia Lessa, Brasil, 2020, 61 min., Documentário, Livre)

“Ópera é uma emoção única. Uma relação linda entre o profano e o sagrado [com a junção de] todas as mazelas humanas”, destaca Bia Lessa logo na abertura do documentário, que traz depoimentos de inúmeros profissionais que estavam envolvidos nesta superprodução que estrearia em 28 de março e imagens de bastidores da montagem. A diretora cênica e cenógrafa lembra da linguagem contemporânea, misturando o moderno com o tradicional, que procurou imprimir neste projeto ambicioso para a ópera de Verdi.

Para contar a trágica história de amor e guerra de Aida, uma trama calcada no amor impossível, na guerra, polarização e intolerância no Egito do tempo dos faraós, Bia Lessa transportava a narrativa para o momento em que vivemos, com uma visão acentuada da dominação sobre os povos negros, com reflexão crítica e menos romantizada.

Foram meses de pré-produção que contou com a consultoria de importantes profissionais em suas diferentes áreas de atuação. Do arquiteto Paulo Mendes da Rocha ao jornalista, crítico e escritor Irineu Franco Perpétuo, que traçou um panorama histórico cultural, passando por Lorenzo Mammì, graduado em música, doutor em filosofia e professor de História da Filosofia Medieval na USP, por Cássio de Araújo Duarte, doutor em arqueologia especializado em Egiptologia pelo Museu de Arqueologia e Etnologia (USP) e até mesmo pelos textos do crítico literário Edward Said, um dos mais importantes intelectuais palestinos.

Na montagem que traria uma ópera para dentro de um museu, integrantes da equipe de cenografia relatam, no documentário, os desafios técnicos de produção para colocar em pé, com o uso de traquitanas, as dezenas de caixas de papelão que comporiam o cenário. O artista plástico João Loureiro descreve as esculturas de elefantes e girafas e um esqueleto de 10 metros de comprimento e dividido em pedaços que estariam no palco. A montagem também traria imagens de corpos dilacerados que retratam as barbáries de uma guerra, feitas pelo fotógrafo Miguel Rio Branco.

Sobre as quase 500 peças que vestiriam o elenco, a figurinista Sylvie Le Blanc comenta sobre os desenhos e o processo criativo para os figurinos dos solistas, atores, bailarinos e integrantes do coro. Outra que dá o seu depoimento é Maira Himmelstein.

Na parte musical, o maestro Mário Záccaro destaca a participação dos 87 integrantes do Coro Lírico, grupo que, logo nos primeiros ensaios, chamou a atenção do barítono norte-americano de origem afrodescendente Brian Major – que reviveria o rei Amonasro após interpretar o personagem na Opera de Columbus, Ohio, Estados Unidos.

O maestro Roberto Minczuk, diretor musical da montagem e regente da Orquestra Sinfônica Municipal, lembra a história de opressão e escravidão de Aida e o desafio de trazer o outro lado, o lado trágico. Uma opressão exercida pelo Egito ao povo etíope e ainda presente nos dias de hoje.

Outra que aparece no documentário é a soprano estadunidense Marsha Thompson, que teve sua estreia internacional marcada pela interpretação da personagem central da ópera no Teatro alla Scala, em Milão, e convidada pelo Municipal. Dividindo o papel com Marsha, a soprano brasileira Marly Montoni comenta que precisou mergulhar nos estudos sobre a África e a Etiópia para incorporar a personagem.

O barítono David Marcondes, integrante do Coro Lírico Municipal e que em Aida se revezaria com Brian Major como o rei Amonasro, se emociona ao falar que pela primeira vez no Theatro Municipal de São Paulo nenhum solista de pele branca precisaria ser pintado para interpretar um papel de um afrodescendente.

Os minutos finais são dedicados a maestrina Naomi Munakata, que desde julho de 2016 ocupava o posto de regente titular do Coral Paulistano, trabalhava na montagem de Aida e nos deixou em março, em decorrência de complicações por infecção de Covid-19.

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