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Municipal do Rio: mediocridade lírica na programação 2014

Instituição carioca anunciou uma programação parcial na qual o balé é o grande destaque.  Ópera segue negligenciada.

Na noite da última sexta-feira, 14 de fevereiro, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, pelo segundo ano seguido e tal qual teatrinho de quinta categoria, divulgou através de seu site e de seu perfil oficial no Facebook uma programação apenas parcial para este ano.  Essa prática abominável de divulgação parcial nada mais demonstra senão a completa e absoluta incapacidade de seus administradores de conduzirem a contento a programação de um teatro de ópera.

É bem verdade que parte desta incapacidade dos administradores para conduzir a programação própria da casa provém do orçamento limitado de que dispõem para colocar uma temporada de pé.  Se, em 2013, o orçamento inicial para a programação artística do Municipal carioca era de R$ 6,1 milhões (a instituição gastou até dezembro cerca de R$ 8,5 milhões, e a diferença provavelmente deveu-se ao patrocínio que recebeu da Petrobras), para este ano tal orçamento inicial foi reduzido para R$ 5,2 milhões.

Desse jeito, pelos mais óbvios motivos, é muito difícil trabalhar e apresentar uma programação própria decente – coisa que há muito tempo o templo lírico carioca não tem.  Por outro lado, o que fazem os administradores da casa para melhorar essa situação?  Com todo o respeito a eles, não fazem nada, e, em nada fazendo, tudo será em 2014 como foi nos últimos anos: uma pobreza lírica de dar dó.

Adriana Rattes, a inoperante secretária de estado de Cultura, e Carla Camurati, a não menos inoperante presidente da Fundação Teatro Municipal, aceitam o orçamento do jeito que vem.  Se tivesse vindo só R$ 1 milhão, aceitariam do mesmo jeito, quietinhas, sem reclamar, porque o governador demissionário não é do tipo que aceita críticas com facilidade (vide episódios fartamente divulgados pela imprensa ao longo do último ano), e as duas “administradoras culturais” de nada mais querem saber além de continuar recebendo seus salários até dezembro, quando termina o atual governo.  O resto é o resto, e neste resto está incluída a programação lírica do Municipal.

Carmen, Salomé e o cancelamento de Wozzeck

O Municipal do Rio divulgou até agora somente dois títulos líricos que serão encenados em 2014: Carmen, em abril; e Salomé, entre o último dia de julho e o começo de agosto.  Detalhe: quando a segunda delas subir ao palco da casa, o Municipal paulistano e o Municipal de Santiago do Chile já estarão indo para sua quarta ópera, o Colón de Buenos Aires apresentará a quinta e o Theatro São Pedro estará levando a terceira.

Aliás, pelo segundo ano consecutivo, o São Pedro, que é o segundo teatro de ópera de São Paulo (ninguém discute a primazia do Municipal paulistano), montará mais óperas que o Municipal do Rio.  Isso tudo para não falar dos festivais: o de Belém, por exemplo, montará três óperas entre agosto e setembro e, como um foguete, também ultrapassará a produção medíocre do teatro carioca.  Pode isso, dona Carla?

Informações internas dão conta de que o Municipal pretenderia montar mais duas óperas no segundo semestre: seriam A Flauta Mágica e Madama Butterfly.  No entanto, isso é praticamente impossível.  Se, e apenas se, a casa produzir mais alguma ópera em 2014, será só mais uma, e olhe lá.  Afinal, mediocridade pouca é bobagem, non è vero?

Alguém aí perguntou sobre Wozzeck, mais uma das falsas promessas de Isaac Karabtchevsky, o dito “diretor artístico” do Municipal?  Esqueça, o projeto foi abandonado.  Até há uma explicação técnica para isso.  Parte daquele orçamento ridículo que eu citei ali em cima provém da bilheteria do Theatro ao longo do ano.  Como a ópera de Berg não é daquelas que garante casa cheia, foi sumariamente descartada.  Simples assim.

Balés, os grandes destaques

Do que foi divulgado até agora, o que mais chamou a atenção foram os três programas de balé anunciados: Nuestros Valses e Novos Tempos (duas coreografias contemporâneas que serão apresentadas juntas em março); La Bayadère (entre o final de maio e o começo de junho); e Chico Rei, com música de Francisco Mignone (em julho).  Este último, a propósito, é o que há de mais interessante dentre tudo aquilo que o Municipal divulgou até agora.

Considerando, ainda, que há um período de tempo razoável (setembro a dezembro) sem programação anunciada, são grandes as chances de haver mais um ou até mesmo dois títulos de balé.  Isso faz da temporada de balé, uma vez mais, o grande destaque da temporada do Municipal, visto que as óperas são manifestações artísticas sistematicamente negligenciadas e preteridas pela presidente da casa.  Na dúvida, ou no aperto financeiro, corta-se uma ópera, duas, três, quantas forem necessárias.

Concertos

Para seis meses de programação (março a agosto), o Municipal divulgou apenas dois concertos do coro e da orquestra da casa.  O primeiro, o de abertura da temporada, a 14 de março, contará com a Sinfonia n° 9, de Beethoven, pela milionésima vez naquele palco só neste século, consideradas todas as orquestras que tocaram a obra.

O segundo concerto, em junho, traz um programa brasileiro – bem mais interessante e estimulante que a velha Nona.  Nada contra a Nona, apenas considero que há uma gama infindável de obras do repertório coral-sinfônico que poderiam ser interpretadas num concerto de abertura.  Mas Karabtchevsky preferiu a Nona.  Quanta criatividade!  Para programar a obra-prima de Beethoven o Municipal não precisa de Karabtchevsky.  O porteiro, ou quem sabe o motorista, poderia programá-la.  Certamente cobraria bem mais baratinho, e o regente titular da orquestra poderia reger o concerto, não havendo a necessidade de se pagar cachê de convidado para Karabtchevsky.

Isaac Karabtchevsky

E já que falei no homem, sigo adiante.  Dizem que Karabtchevsky é “diretor artístico” do Municipal.  Não é.  O famoso e competente maestro colabora apenas definindo os títulos da temporada e conduzindo algumas óperas e concertos na qualidade de regente convidado.  Desta forma, ele não recebe um salário mensal como recebia Roberto Minczuk, na época em que este foi diretor artístico da casa, e como sempre recebeu Sílvio Viegas, na qualidade de regente titular da OSTM.

Como regente convidado, Karabtchevsky recebe cachês que, somados, são muito mais vultosos do que o montante anual dos salários mensais que recebeu Minczuk e recebe Viegas.  E para quê?  Para programar a Nona, a Carmen, a Salomé e A Flauta Mágica?  Ora, Carmen foi apresentada no Municipal em 2000 e em 2007 (nesta última em forma de concerto), Salomé foi exatamente a última ópera de Strauss que subiu ao palco da Cinelândia, em 1998, e A Flauta Mágica já foi apresentada no Municipal duas vezes de 2003 para cá.

É para essa repetição sem vergonha que dona Carla paga Karabtchevsky?  A programação do ano passado, apesar de diminuta, pelo menos foi bem mais interessante em termos de títulos.  Qualquer pessoa que conheça um pouquinho de ópera, só um pouquinho, seria capaz de organizar uma temporada muito mais interessante que esta, sem abrir mão de obras que atraiam o público.

Para uma temporada com títulos batidos como os citados, seriam necessários, no mínimo, solistas de alta qualidade – como, aliás, vemos em grande número no Theatro Municipal de São Paulo, que também anda apostando num repertório básico, mas pelo menos aposta direito.  Os solistas anunciados até agora pelo Municipal carioca, com uma ou duas exceções, não chegam a empolgar.  Pode ser que eu me surpreenda futuramente (o que é sempre gratificante), mas por ora não me empolguei.

Para completar, Karabtchevsky convidou Alberto Renault para dirigir cenicamente a Salomé, que estreia uma semana antes de outra Salomé, aquela que Lívia Sabag vai dirigir para o Municipal paulistano.  Lívia é, para o meu gosto e para o de muita gente boa, a melhor encenadora de ópera do Brasil na atualidade, enquanto Renault foi o responsável por duas das piores produções cênicas do Municipal nos últimos anos: um Fidelio e uma Lucia di Lammermoor de dar pena…  Será que Renault vai remontar sua Salomé de 1998, ou criará uma nova?  Aquela, pelo menos, foi muito boa, muito melhor que as duas montagens descartáveis que acabo de citar.

Otello, Falstaff, La Forza del Destino, I Vespri Siciliani, Manon Lescaut, La Fanciulla del West, Norma, O Cavaleiro da Rosa, Lohengrin, O Navio Fantasma, Don Pasquale, La Cenerentola, Adriana Lecouvreur, Andrea Chénier, Don Giovanni, La Gioconda, Mefistofele, Os Contos de Hoffmann, Manon, Werther, O Diálogo das Carmelitas, qualquer ópera russa, dentre tantas outras, todas são exemplos de obras que não são apresentadas no Rio de Janeiro há muito tempo.  Com elas, dá para se fazer várias temporadas sem vergonha de três miseráveis títulos, bem mais interessantes que a repetição de seu Isaac…  Quanta mesmice!

Camurati e Rattes

No começo deste texto, citei o orçamento da temporada artística do Theatro Municipal para os anos de 2013 (orçado e realizado) e 2014 (orçado, por enquanto).  Vamos comparar?  Para 2013, o orçamento inicial da rubrica “Publicidade e Propaganda” do governo fluminense era de R$ 80 milhões, mas seu Cabral gastou nada menos que R$ 150,9 milhões – com uma extrapolação da ordem de 88,6%!  Para 2014, o orçamento desta rubrica é o mesmo de 2013, ou seja, não diminuiu como o da programação artística do Municipal.  Agora, imagine o leitor o quanto não vai extrapolar num ano eleitoral, não é?  E isso para divulgar o que o governo não faz, ou faz mal feito…

E o que têm Adriana Rattes e Carla Camurati com isso?  Bem, as duas fazem parte do governo Cabral há seis anos e alguns meses.  Em momento algum abriram a boca para reclamar das condições de trabalho, nunca brigaram por melhores condições de programação para o principal equipamento cultural do Estado do Rio.  Nunca questionaram a exorbitância da verba de publicidade e propaganda, enquanto ao Municipal restavam poucos caraminguás.

Na verdade, ambas vêm empurrando a programação própria do Municipal com a barriga desde o fim de 2007.  Nunca conseguiram colocar de pé uma temporada decente de óperas.  Em muitos momentos, trocaram as óperas pelos concertos da Série Música e Imagem – uma série interessante, mas que não pode ter mais destaque na programação que as óperas.  Outro fator negativo em relação a esta série é que a empresa detentora dos direitos dos filmes no Brasil é a mesma para quase todas as obras cinematográficas apresentadas desde 2008: isso não é saudável sob o ponto de vista do dispêndio do dinheiro público.

Querem mais?  Rattes e Camurati não vendem assinaturas porque teriam que devolver muito dinheiro depois, em virtude dos cancelamentos de praxe.  Poderiam, ao longo desse tempo, ter tido a atitude digna de sair do governo, explicando ao distinto público: “estou/estamos saindo porque o governo não me/nos deixa trabalhar com dignidade, não me/nos dá condições de elaborar uma programação à altura do público carioca e fluminense”.

Não, nada disso.  Continuaram lá, em seus carguinhos.  Ou seja, aprovam tudo que o governo faz ou deixa de fazer.  Se não aprovassem, já tinham saído de lá.  Se ficaram, é porque são coniventes com tudo, especialmente com a programação lírica vagabunda do Municipal.  E, já que não saíram até agora, que afundem junto com o governo.  É o que merecem.

21 Comments

  1. Bravo !!!! Bravíssimo !!!! Pena que sua voz seja tão pouco ouvida. Deveria estar no O GLOBO, na GLOBO, e em toda a mídia possível ! Finalmente alguém que dá nome aos bois !

  2. Acho que o Municipal poderia ser gerido por funcionários concursados da casa. Não sei dizer se isso é comum em outras praças, mas de repente poderia ajudar a amenizar o descaso com a produção lírica.

  3. O artigo é raso e aponta total desconhecimento de causa do seu autor.

    O articulista não entende nada de administração pública, sobretudo das dificuldades enfrentadas para obter recursos para a cultura e suas prioridades.

    Ele faz oposição à administração da SEC (Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro) e à diretoria da FTM (Fundação do Theatro Municipal do Rio de Janeiro) com visível intuito de ter um lugar ao sol, praticando a polêmica inconsistente.

    Considere-se um sucesso gigantesco da SEC e da diretoria da FTM a reforma total feita no TM assim como sua manutenção impecável, mesmo após a catástrofe da queda de dois prédios vizinhos há pouco tempo.

    Considero extraordinário o que foi feito até o momento pela Secretária de Cultura do estado e sua equipe.

    Considerem-se as prioridades da população do Estado do Rio e não somente o umbigo do articulista.

  4. Parabéns pela crônica. Entretanto, gostaria de acrescentar que, mesmo com uma imensa verba, a Sra. CARLA CAMURATTI não faria melhor, pois não tem qualquer competência para administrar um teatro com estas características. Quanto ao Maestro Karabtchevsky que, particularmente, não aprecio, mas devo respeitar, acho que há uma profunda diferença entre ser um Maestro e dirigir artisticamente o Municipal/RJ. Não vejo nele características para isso, repito, mesmo se tivesse uma grande verba. O pouco que ainda havia no Municipal, por via direta ou indireta devíamos ao Fernando Bicudo, que foi demitido obviamente por fazer “sombra” a tanta incompetência. A maneira como foi conduzido o episódio Medea foi uma das coisas mais vergonhosas a que assisti no ambiente artístico. Lamento muito, muito mesmo….e lamento ainda mais que a plateia presente, inclusive eu, tivesse aceitado a aberração apresentada….por uma questão de educação. É por isto que a Sra. Camuratti continua a repetir sempre os mesmos absurdos. Se todos nos tivéssemos levantado e ido embora, garanto que hoje estaríamos melhor nesta próxima temporada….

  5. Obrigado pelo apoio e pelo comentário, Marina. Concordo com você que outros veículos de comunicação do Rio de Janeiro deveriam criticar adequadamente a pasmaceira e a semi-inoperância do Municipal. Aliás, é sintomático que veículos de São Paulo critiquem o Municipal carioca com mais frequência do que os do Rio. Lamentável.

  6. Sr. Guilherme Turchetto, faça-me o favor!!!

    Sobre a reforma do Municipal é necessário fazer uma auditoria muito séria, isso sim! A parte externa está linda, mas quem transita diariamente por seus corredores percebe claramente a maquiagem que foi feita. Sem falar no mais grave: a destruição da maravilhosa acústica que esse teatro tinha.

    Quanto ao que eles chamam de “Temporada Artística de 2014” não há mais nada a dizer a não ser isso: VERGONHA!!!!

    O Teatro Municipal sofre de uma doença chamada “cargos de confiança”. O governador eleito escolhe seu secretário de cultura, que escolhe o diretor do Teatro, que escolhe o diretor artístico e o maestro titular.

    Em toda mudança de governo é a mesma coisa, sai um timinho de apadrinhados medíocres e entra outro do mesmo nível. Porém nenhuma administração foi tão nefasta à saúde do Municipal quanto esta última, podem acreditar.

  7. Eu não acho que a estratégia seja errada. Se o governo não se dispõe a gastar o que deveria com cultura, a saída para o Municipal conseguir se manter é buscar mais espetáculos comerciais mesmo. Até porque eles são os que mais atraem o público e muita gente, como eu, nunca foi à ópera, e duvido que iria começar por um espetáculo mega obscuro e desconhecido… Tem que partir para os mais populares mesmo. Esse purismo não dá em nada. É luxo e com o orçamento que você citou, ou o theatro abre mão dele ou vai decepcionar.

    Não acho absurdo que o espetáculo se banque. Os subsídios saem do dinheiro dos nossos impostos e temos prioridades como saúde e educação. Que fazer? Infelizmente sobra pouco para a cultura. Não vou discutir aqui como o Cabral gasta o dinheiro público porque não quero me envolver com política, mas dada a situação de falência apelar para espetáculos comerciais é a melhor saída…

  8. Só acho que a grande mídia (Globo, por exemplo, que é uma das mantenedoras do theatro poderia dar mais atenção à dita “alta cultura”. Alta cultura nada! O povo não gosta porque não tem acesso…

    Vamos começar:

    Problemas:

    1- A aura elitista do municipal – Antes do espetáculo deveria ser distribuído um folheto (em preto e branco mesmo. Xerox custa 0,20 centavo, em média, pelo amor de Deus) com a sinopse da história. Uma página com os principais fatos é o suficiente. Uma vez eu fui ver um balé no Municipal e fiquei pastando” porque não conhecia a história e não entendi nada. Algo bem sintético no estilo jornalístico mesmo. Uma página.

    O povo acha que theatro é algo caríssimo. O Municipal tem uma aura elitista. Antes de eu ir com minha amiga (e olha que sou filha de classe média) eu pensava que os ingressos custassem uma fortuna, que era coisa para rico. E tem ingresso sendo vendido a 25 reais…

    Se o povo vir que é acessível (e que outros teatros também podem ser), vai ficar louco. A “elite intelectual” acha que o povo gosta de se manter ignorante. Gosta nada. Sei por experiência. O povo não tem é acesso à informação. O povo gosta de luxo. Quem gosta de pobreza é “intelectual de esquerda”. Só pela fachada o municipal pode cativar o público, que pensa que não pode ir nele porque é só para rico.

    2- Mídias sociais?

    Cadê as fotos dos espetáculos no site do theatro? No facebook? Cadê os link para os sites do cantores (os que tem)? Nem breves dados biográficos dos solistas e FOTOS deles “vestidos de civil” tem. O povo deve achar que quem vai cantar é alguma múmia com 99 anos, já que para os brasileiros ópera está fora de moda…

    Youtube- o que é isso? Custa postar alguns vídeos com trechos das árias? Como o povo pode gostar do que não conhece? Com legenda garrafal em português, faz favor.

    3 – plim e cia

    A Globo é uma das mantenedoras do teatro. Correto? Cadê a divulgação dos espetáculos? Na Carmen, que você criticou, uma linda solista de Brasília fará a protagonista e vem uma russa muito bonita também. Porque não a mostram caminhando em um parque, com a brasileira com um shortinho e a russa com um vestidinho amarelo (por exemplo), feito gente normal enquanto falam com sobre o seu trabalho? Mostra um trechinho breve de Habanera, falam brevissimamennte sobre como se tornaram cantoras líricas, a russa fala alguma coisa sobre seu país e pronto. 3 minutos no horário nobre. Custa? 15 dias antes do evento. Mostra de relance o Municipal e informa que vai de tal a tal dia e que os ingressos custam de x a y e estão sendo vendidos na bilheteria. Acham que o ibope vai cair por isso?

    Chama a russa para o jornal hoje. Bem melhor do que ficar vendo aquelas receitas chatas…

    E o Altas Horas, que é um programa negligenciado pela Globo? Porque não chamam um Sam Alves da vida, uma Marcela Bueno e chamam as cantoras líricas para fazer um contraponto entre cultura popular e a dita erudita. Bota todo mundo para conversar, como eles sempre fazem. Manda que elas botem “roupa de gente” para não assustar o público, jeans, etc. Mostra trechos do trabalho. Será que é algo surreal???

    O público gosta de novidade. “Alta cultura” por aqui é novidade para a maioria da população. Porque será que a Tarja fez tanto sucesso quando era jovem e (para muitos) bonita. Será q foi só talento? Ou o líder da banda soube misturar cultura erudita e popular para fazer um sucesso estrondoso (que fizeram) ao redor do mundo? O que o Brasil tem de diferente?

    Só dei alguns exemplos. Há várias formas de divulgação. Mas o que eu critico é a diretoria do teatro não correr atrás delas… Ninguém tem contatos com a mídia?
    A grande novidade pode estar no que foi esquecido e a cultura erudita e a popular podem se aproximar, o que pode trazer benefícios a ambas…

    Claro, dei só exemplos. E não disse que o theatro não pode procurar coisas mais eruditas. Mas agora acho que não deve.

    Primeiro ele precisa “se expandir” para depois, se for o caso, se aprimorar.

    Bjs

    Desculpa se pareci agressiva em algum momento. Me empolgo quando entro em discussões.

  9. Obrigado pelo comentário, Mario. Até onde sei, a sua sugestão não é uma prática comum em nenhum lugar. No Brasil, especialmente, tais cargos são os chamados “de confiança”, e por isso seus “ocupantes” mudam conforme os ventos da política. E esse ano, parece, vai ventar forte no Rio. O problema é que olho para os possíveis substitutos de Cabral Filho e não encontro um que preste…

    E, independente de quem seja o eleito, em qualquer lugar do mundo não há ópera sem dinheiro. Mesmo que alguém bem intencionado esteja no comando do Municipal, sem dinheiro não fará nada. Há meses, eu sugiro aqui a fonte dos recursos para resolver o problema do Municipal. Se o governo do amigo do Cavendish não precisasse torrar o que torra com publicidade enganosa e proselitista, quem sabe não sobraria um pouco para o Municipal ser uma casa de ópera à altura do seu público? Só 10% daqueles R$ 150 milhões jogados fora com publicidade seriam suficientes para o Theatro ter uma baita programação. Só 10%!

    O problema é que dona Carla se lixa pra isso. Ela quer fazer obra, só se interessa pela nova central técnica do Theatro, a tal “fábrica de espetáculos”. Não tenho nada contra esta nova central técnica (creio que realmente seja necessária), desde que ela não atrapalhe a programação da casa.

    Em tempo, só me preocupo com o seguinte: quando ficar pronta, essa central técnica vai mesmo “fabricar” espetáculos para o Municipal, ou será mais um elefante branco que só terá servido para encher os bolsos de empreiteiros? Fica a questão. Esta, só o tempo vai responder.

  10. Guilherme, vamos por partes:

    1- Muito pelo contrário, conheço bastante a causa, conheço todos os cancelamentos que, sem qualquer vergonha, a presidente da FTM efetuou, sem sequer emitir uma nota oficial justificando-os – o que demonstraria um mínimo de respeito ao público, mas nem isso fez. A presidente cancelou espetáculos líricos em 2008, 2010, 2012 e 2013. Só não cancelou em 2009, especificamente porque o Municipal estava fechado para reforma, e em 2011 (uma exceção que serve apenas para confirmar a regra).

    2- Conheço também as temporadas líricas de outros teatros de ópera de porte idêntico ao do Municipal carioca (observe que não comparo nosso teatro com um Scala ou um Metropolitan, mas com teatros de nível semelhante), e não é preciso grande esforço para comparar tais temporadas. Por que o Colón (numa argentina que vive em crise), O Municipal de Santiago, o Municipal de São Paulo, o da Paz de Belém, o Amazonas de Manaus e até o São Pedro de São Paulo são capazes de colocar no palco temporadas bem mais consistentes que a do Rio de Janeiro? Por que só o Municipal do Rio não consegue? O que falta ao Municipal do Rio? Será que é só dinheiro? Mais nada?

    3- Há um ponto em que concordamos: eu conheço muito bem as dificuldades para se conseguir recursos para a cultura séria (e especialmente para aquela que não dá votos em enorme quantidade) num país como o nosso, onde a “cultura da bunda” e a das “mulheres-frutas” parecem ser mais valorizadas, e onde até a moda virou manifestação cultural para a não menos inoperante ministra da Cultura. No entanto, fica aqui a questão: por que a secretária de Cultura e a presidente da FTM permanecem em seus cargos? Para quê? Com a verba que têm ao seu dispor não conseguem fazer muita coisa, então para que permanecer nos cargos? Só para esquentar a cadeira e ganhar salários? Quem sabe, se a secretária de Cultura tivesse continuado no Grupo Estação, fazendo o que sabe fazer, o prestigiado grupo de cinemas não estaria passando pela situação de quase falência por que passa hoje.

    4- Apenas para esclarecimento, não faço oposição pessoal a Adriana Rattes ou a Carla Camurati. Apenas cito fatos, e os fatos falam por si: sob o comando das duas, a programação lírica do Municipal sempre foi uma piada, e não apenas pela quantidade sem vergonha de óperas apresentadas, como também pelos títulos extremamente mal escolhidos (os de 2013 foram exceção), repetidos com frequência não recomendada para um teatro que monta tão poucas óperas. Eu não teria qualquer dificuldade para elogiar as duas “administradoras culturais” se a programação por elas empreendida fosse realmente de qualidade. Da mesma forma, não terei a menor cerimônia para criticar seus eventuais sucessores se o nível rasteiro de programação for mantido no próximo governo – digo o de 2015, porque o do vice-governador que começará em algumas semanas será mais do mesmo.

    5- Na época da reforma do Municipal, eu a defendi de forma bastante clara. Disse, mais de uma vez, que a reforma era completamente necessária, pois o Theatro estava caindo aos pedaços. Da mesma forma, não tenho nada contra a construção de uma nova central técnica, a tal “fábrica de espetáculos” (só não gosto desse nome babaca, afrescalhado), desde que essa central realmente se torne um organismo ativo para o próprio Municipal, e não mais um elefante branco. No entanto, cabe perguntar: o Municipal foi reformado para quê? Para não montar óperas?

    6- Para seu governo, o “umbigo lírico” do articulista vai bem, obrigado. Em 2013, assisti 12 óperas encenadas em cinco cidades do país, além de várias outras em forma de concerto, todas com críticas publicadas aqui no https://www.movimento.com. Para 2014, até o momento, tenho oito viagens previstas para assistir a 10 óperas, sendo nove encenadas. Desta forma, graças a Deus, não preciso do Municipal do Rio para apreciar óperas, mas há muita gente que não pode, ou simplesmente não quer, viajar para isso. E essas pessoas não só merecem, como têm o direito de ter na sua cidade uma temporada lírica decente, e não a enganação de trouxa que o Municipal leva a seu palco. Cito inclusive, caro Guilherme, a origem dos recursos para a programação do Municipal: eles poderiam ser transferidos daquela verba polpuda de publicidade e propaganda. Você há de convir comigo que o governo não precisa de tanto para contar as suas histórias da carochinha. Só R$ 10 milhões daquela estranha e inexplicável extrapolação de 88,6%, somados aos R$ 5 milhões que o Municipal já possui para sua programação, poderiam bancar uma belíssima temporada. No entanto, sua querida secretária de cultura não luta por eles. E, ao continuar no cargo, ela nos diz, indiretamente, que concorda que tudo fique do jeito que está, ou seja, é conivente. Se não fosse, já teria renunciado.

    7- Só para constar, já que você falou nas prioridades da população do Estado do Rio, certamente não está entre elas o edital de fomento a bailes e criações de funks que a sua querida secretária lançou há alguns meses…

    8- Por fim, deixo para o público leitor a decisão sobre quem tem discurso raso: eu ou um possível amigo da secretária.

  11. Obrigado por seu comentário, Diana. Não vivenciei a época do Bicudo no Municipal do Rio, mas a grande maioria das pessoas fala bem dessa época. Já saber se dona Carla faria ou não coisa melhor com mais verba é uma grande incógnita. Eu até creio que faria, porque para isso há os maestros Karabtchevsky e Viegas, que certamente a auxiliariam. Mas não deixa de ser uma boa pergunta: será que ela iria querer fazer mais obras e continuar deixando a programação para lá?

    Especificamente quanto ao maestro Karabtchevsky, não tenho do que reclamar de sua atuação como regente, mas ele é outro que, ao permanecer vinculado ao Municipal, recebendo cachês vultosos para trabalhar em uma temporada vagabunda, passou a ser conivente com o governo do Estado e sua “política cultural” de quinta categoria. Convenhamos que Karabtchevsky não precisa disso para viver.

    Faço apenas uma correção, Diana, para o bem da verdade: no episódio de Medea, a culpa não foi da Carla ou do Municipal. Aquela apresentação era de responsabilidade da Fundação OSB, o Municipal só alugou o palco.

  12. Prezado William, obrigado por seu comentário. Qualquer pessoa séria considera, como você e eu, a programação do Municipal uma vergonha. Viajo para outras praças produtoras e, como sou do Rio, todo mundo me pergunta algo do tipo: “mas como pode o Municipal, um teatro daquele tamanho, daquela importância, ter uma programação tão fraca”?

    Só mesmo eventuais amigos ou parentes de gente que faz parte dessa administração (seja da secretaria, seja do Municipal) pode considerar que o que foi feito até agora tenha sido grande coisa…

  13. Natalia, obrigado por seu comentário. Primeiramente, por favor, não se desculpe, pois seu raciocínio é bastante correto em muitos pontos, ainda que, talvez por você ser um pouco inexperiente na área, alguns detalhes tenham lhe escapado. Eu gostaria apenas de pontuar algumas questões. Vamos lá?

    1- O que você fala a respeito da estratégia de montar títulos mais populares para atrair um público maior, na verdade, é o que o maestro John Neschling está fazendo no Theatro Municipal de São Paulo, só que ele faz isso de uma forma muito mais consistente. É claro que ele dispõe de mais recursos, mas o maestro não apenas tem escolhido títulos de grande apelo, como também reveste esses títulos de boas montagens cênicas e ótimos cantores solistas. Os solistas escalados para cantar em São Paulo em 2014 são, a meu ver, ainda melhores que aqueles que cantaram em 2013. Qual a estratégia? Num primeiro momento, montar grandes títulos do repertório com ótimos elencos para atrair um grande público (as assinaturas para 2014 venderam que nem água), para, num segundo momento, aprofundar esse repertório.

    Mas não é o que se vê no Rio. Para não me estender muito, cito apenas dois exemplos: a) O diretor cênico escalado para dirigir Salomé é o responsável por dois fiascos recentes do Municipal carioca em termos cênicos: um Fidelio e uma Lucia di Lammermoor descartáveis. Tanto que esses dois títulos eles não remontam… Então o cara faz dois trabalhos medíocres e é convidado de novo?

    b) O tenor escalado para cantar a parte de Herodes nesta mesma Salomé dificilmente dará conta do papel no Rio. Ele até cantou esta parte muito bem em Belém, em 2012, mas as condições acústicas do Theatro da Paz são superiores às do Municipal do Rio. Aqui, ele certamente terá bem mais dificuldades. Portanto, falta esmero, falta capricho, para que esses títulos tenham uma execução, uma interpretação de alto nível.

    2- Concordo completamente com você quando você aborda a questão da divulgação. A maneira como o Municipal se divulga é extremamente antiquada. Inclusive, há um tempo atrás, publiquei um artigo sobre isso. E mais: geralmente, o material de divulgação das produções chega para a imprensa praticamente em cima da hora, não raro na véspera. Uma vez, uma pessoa ligada à divulgação me disse o motivo de isso ser assim: é porque esse material de divulgação só pode ser liberado para a imprensa depois de aprovado pela presidente do Municipal e pela secretária de cultura. E como elas são “muito ocupadas”, sabe como é, né? Fica tudo pra última hora.

    Já que falei em John Neschling no primeiro tópico, cito-o novamente: o cara é um marqueteiro de primeira categoria. Foi só ele chegar lá, que o Municipal paulistano ganhou um slogan daqueles que atraem o grande público (“Municipal, o palco de São Paulo”). Não só isso: os jornais paulistanos dão grande destaque a tudo que acontece em seu teatro de ópera. Já no Rio, não parece haver muito interesse do jornal O Globo – infelizmente o único jornal não sensacionalista da cidade – em debater essa questão da programação medíocre do Municipal. Até houve uma tentativa no final de 2012, mas depois disso, mais nada…

    3- Outra comparação inevitável com São Paulo, lembrando um tema importante que você também citou, Natalia: lá, o programa de sala (aquele em que há o resumo da trama, os currículos dos solistas, textos críticos ou históricos sobre a obra, etc) é ofertado de graça ao público, enquanto no Rio é preciso pagar R$ 10,00 por ele…

    4- Sobre sua colocação a respeito de o público gostar do que é bom, e que só não tem acesso, concordo completamente com você. E a divulgação antiquada do Municipal estreita isso ainda mais. Mesmo assim, no ano passado, quando os títulos foram bem escolhidos, as récitas de Aida e de A Valquíria estiveram completamente lotadas! Há público quando há qualidade. E ainda sobre esse assunto, uma grande amiga minha sempre se pergunta em nossas conversas: “será que interessa a eles ter um público maior e mais abrangente no Municipal”? É uma excelente pergunta.

    Como você pode ver, Natalia, você não tem por que pedir desculpas. Seja bem-vinda e participe sempre que quiser.

  14. Ou se achar que o Altas Horas é demais, que vai ficar repetitivo, chama pro RJ. E chama também um artista pop, como o Pedro Lima. Quando ele teve a oportunidade de conhecer artistas tão renomadas? É sempre uma boa experiência. Mas pelo amor de deus, põe uns banners na ponte, como fazem os espetáculos populares. Videnhairapray. Tem que investir.

  15. Confesso que fiquei um tanto decepcionado ao ver não só a programação do Theatro Municipal desse ano, como também o despreparo dos administradores aqui, principalmente no que diz respeito à divulgação e programas.
    Ano passado vi algo bastante chato: um mês (ou menos, não tenho certeza) depois do balé e orquestra do Theatro apresentarem a Sagração da Primavera (que não me convenceu, nem pelo balé e muito menos pela orquestra), a Opes, no concerto com o Mischa Maisky, tocou, na segunda parte… a Sagração da Primavera.
    Se não fosse a Viva Música (que parece ser a única revista que faz a divulgação da música de concerto aqui no Rio), eu acredito que não ficaria sabendo deste concerto, visto que nem em tv, nem nos jornais vi ser feita alguma menção. Este ano, o Dudamel e a Sinfônica Simon Bolivar estarão presentes no Rio, Murray Perahia também, fora outros grandes nomes, o que consola um pouco a mim. E só a VivaMúsica é quem vai fazer a divulgação disto?
    O pior de tudo é que está tudo mais próximo de piorar do que melhorar… vamos ver o que pode acontecer.

  16. Se não há dinheiro suficiente (verbas do Governo do Rio de Janeiro) COMO É QUE VOCÊ QUER ÓPERAS BEM MONTADAS?
    Seja coerente com a realidade brasileira cara! Aqui é o país da fome, do futebol e do Carnaval! Caia na Real!
    Prioridade do Brasil: matar a fome dos cariocas, e realizar um bom programa na Educação e na Saúde Pública e não fazer óperas caras para poucas mil pessoas.

  17. Sr. Leonardo Marques. Caia na Real !
    Prioridade do Brasil: Educação de qualidade e saúde pública para TODOS !

  18. Cara Marilene, tenho a impressão de que você fez estas observações sem ler atentamente os comentários do Leonardo. O artigo se pega, clara e justamente, em relação ao dinheiro despendido em propaganda deste governo que foi péssimo, em detrimento não só da música, mas também de outras realizações que o governo tinha obrigação de fazer. A cultura também é uma delas. Claro que não há dinheiro para fazer tudo… justamente por isso, não entendemos tanta grana em propaganda. Um bom governo não precisa de muita propaganda. As pessoas enxergam e sentem na pele, assim como estão sentindo que este governa não tinha nada para fazer propaganda. Isso é o que o Leonardo disse: “que se gastasse menos em propaganda e mais em cultura, por exemplo”. Claro que isso não exime outros setores que pudessem ser beneficiados com esta grana mal aplicada em propaganda.

  19. Eduardo, obrigado por seu comentário. A programação própria do Municipal carioca é uma piada sem graça. Admira-me muito o maestro Karabtchevsky emprestar seu nome a essa pasmaceira. O cachê deve ser bom…

    Quanto à divulgação, é espantoso que não haja por parte da casa uma estratégia consistente e moderna, que busque atrair um público novo. Mais espantoso ainda é a comparação entre os gastos estratosféricos do governo do Estado com publicidade e propaganda frente ao modelo arcaico de divulgação do Municipal, seu principal equipamento cultural. Dona Adriana e Dona Carla parecem achar tudo uma maravilha.

  20. Marilena, primeiramente, agradeço ao Antônio Rodrigues, que já lhe deu uma excelente resposta aqui embaixo. Em segundo lugar, complementando a resposta do Antônio, é de notório conhecimento que o orçamento da pasta de Cultura é um dos menores – se não o menor – em qualquer esfera de governo, em qualquer canto do Brasil.

    Saúde e Educação recebem verbas muito maiores. Inclusive, há estudos (lembro-me de um que o jornal O Globo abordou há algum tempo) segundo os quais as verbas para essas áreas não estariam longe da adequação em alguns lugares. O problema principal seria a má administração das mesmas – aí incluída a corrupção. Não é só com obra que se superfatura no Brasil. A propósito, lembra-se da reportagem do Fantástico, da Rede Globo, sobre um possível esquema de superfaturamento no hospital universitário da UFRJ? Pois é…

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com