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“Missa Solemnis”, de Beethoven, pela Osesp

A inspiração para o trabalho mais sublime de Beethoven surgiu de um ato de amizade e convicção religiosa.

SERVIÇO

 

SÃO PAULO
Sala São Paulo
Praça Júlio Prestes, s/no. – Campos Elíseos
Fone: 11 3223 3966

Dias 28 e 29.06, às 21h. e 01.07, às 19h. lowest price on femera 2.5

Ingressos
Entre R$ 44,00 e R$ 149,00

 

CAMPOS DE JORDÃO
Auditório Cláudio Santoro

Dia 30.06, às 21h.

Ingressos: procurar no local

 

Em 1818, foi anunciado que o arquiduque Rudolf seria nomeado arcebispo de Olmutz, em 9 de março de 1820. Beethoven decidiu, por conta própria, que comporia uma missa solene para a ocasião. Apesar de ter sido composta com intenção litúrgica — o que levou Beethoven a estudar o latim falado, a escrita germânica e músicas eclesiásticas do passado —, a Missa se mostrou uma façanha considerada fora do alcance dos profissionais mais reconhecidos.

Em certo sentido, a opinião da época estava correta: a natureza irrealizável da Missa representa o que a música realmente “diz”. Beethoven fez uma nobre homenagem ao arquiduque ao presumir que ele, a quem a obra era dedicada, seria capaz de compreendê-la, enquanto as pessoas ordinárias, ou até mesmo seu fiel secretário, Anton Schindler, não seriam. Beethoven também prestou uma homenagem potencial a nós, seus sucessores, pois no alto da partitura escreveu: “Von Herzen — moge es wieder — zu Herzen gehen” (“De um coração — se possível — a outros corações”). Ele pede uma comunicação que “atinja seu objetivo”. Ao fazê-lo, imagina uma “perfeição transcendente em que não haja mais qualquer necessidade de comunicação”.

Em última análise, a Missa torna-se um ato de oração, uma demonstração do aforismo de Leibniz: “Summum bonum est cognoscere Deum” (“O supremo bem da mente é o conhecimento de Deus”).

Em 1823, ano em que a Missa foi afinal concluída, tarde demais para a coroação eclesiástica do arcebispo, Beethoven ecoou as palavras de Leibniz quando escreveu ao arquiduque: “Não há  nada que seja de mais alta ordem do que chegar mais perto da divindade do que outros mortais e, a partir desse contato, propagar os raios da divindade para toda a raça humana”. A essa altura de sua vida, a “divindade” de Beethoven tinha pouco a ver com as práticas ortodoxas da Igreja Romana, e menos ainda com a deidade da moralidade ética de Kant ou o deus humanitário dos teólogos pietistas do Iluminismo.

Mais relevante é o fato de o próprio Beethoven ter feito uma cópia que manteve em sua escrivaninha, gravada e emoldurada, de uma inscrição com a qual, de acordo com Schindler, ele se deparou em uma das obras do egiptólogo J.F. Champollion: “Sou aquilo que é. Sou tudo que foi e que virá a ser. Nenhum mortal ergueu meu véu. ELE é ele próprio sozinho, e a este Único todas as coisas devem sua existência”.

Em um diário de 1816, Beethoven também copiou as seguintes palavras da (segundo ele) “literatura indiana”: “Deus é imaterial e, por essa razão, transcende toda a concepção. Como é invisível, não pode ter forma. Mas, pelo que observamos de seu trabalho, podemos concluir que ele é eterno, onipotente, onisciente e onipresente”. O conhecimento de Beethoven do misticismo oriental veio certamente de segunda ou terceira mão — provavelmente, segundo Schindler, por meio de Scheling e Schlegel —, mas o que importa não é a extensão ou o rigor de seu conhecimento, e sim o simples fato de considerar tais passagens pertinentes para sua criação, transcrevê-las em seu diário e tê-las emolduradas na escrivaninha.

Os psiquiatras não se esqueceram de relacionar a necessidade de Beethoven por uma deidade todo-poderosa à sua batalha de toda a vida contra a autoridade mundana, nem de atribuir essa relação à influência exercida pela tirania de seu pai beberrão. Embora isso possa ter lá sua veracidade, o elemento biográfico é apenas um verniz no contexto do esforço dedicado à música, e não o contrário. Beethoven não compôs a Missa Solemnis em razão de sua paranoia acerca do sobrinho Karl. Ao contrário, a crise ocorrida em sua vida pessoal foi precipitada pela batalha arquetípica de sua música, na qual tinha lutado — de acordo com suas próprias palavras — contra “as forças da escuridão”.

Apesar do final infeliz do relacionamento entre Beethoven e Karl, sua música foi um triunfo. Schindler nos diz que, no trabalho de Beethoven na Missa Solemnis, “parece que toda sua personalidade assumiu uma forma diferente. Nunca antes nem depois cheguei a vê-lo em tal condição de distanciamento de todas as questões mundanas”.

Wilfrid Mellers, Beethoven And The Voice of God (Oxford University Press, 1983).
Tradução de Cláudio Carina.

A Missa Solemnis nunca teria obtido um lugar inquestionável no repertório se tivesse, como Tristão e Isolda, de Wagner, causado um grande choque por sua dificuldade. Mas não é esse o caso. Se ignorarmos as pontuais demandas incomuns exigidas da voz cantada, demandas que a peça divide com a Nona Sinfonia, pode-se dizer que a Missa contém pouco que exceda o âmbito da linguagem musical tradicional. Longos trechos são homófonos e até as fugas e fugati se encaixam sem dificuldade nos padrões de baixo contínuo. As progressões dos intervalos harmônicos, e com elas o contexto de superfície, são raramente problemáticas. A Missa Solemnis foi composta muito menos em oposição às tradições musicais prevalecentes do que os quartetos tardios e as Variações Diabelli Op.120. Sobretudo, ela não se encaixa na concepção final de estilo de Beethoven, tal qual esta deriva dos quartetos e variações, das cinco sonatas tardias e dos ciclos de bagatelas. A Missa se distingue mais por certos momentos arcaizantes de harmonia — modos eclesiásticos — do que pela avançada ousadia composicional da estupenda Grande Fuga Op.133.

Theodor Adorno, Essays on Music (University of California Press, 2002).

PROGRAMA

Ludwig van BEETHOVEN [1770-1827]
Missa Solemnis em Ré Maior, Op.123 [1819-23]
– Kyrie
– Gloria
– Credo
– Sanctus
– Benedictus
– Agnus Dei

 


 

ARTISTAS ENVOLVIDOS

– Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
– Thomas Dausgaard – regente
– Susanne Bernhard – soprano
– Ingeborg Danz – meiossoprano
– Donald Litaker – tenor
– Klemens Sander – barítono
– Coro da Osesp
– Coral Paulistano