Crítica

Missa de São Nicolau, de Almeida Prado, encerra a XIX Bienal

Chega ao fim esta bienal, demonstrando cada vez mais que veio mesmo para ficar e se ampliando e se aperfeiçoando a cada edição.

Para encerrar a Bienal de Música Brasileira Contemporânea, evento criado pelo compositor Edino Krieger, o Teatro João Caetano recebeu a Cia Bachiana Brasileira, orquestra e coro, com regência de seu titular Ricardo Rocha, para a Missa de São Nicolau, composta em 1985/1986 por Almeida Prado.

Bom, na verdade música contemporânea não faz muito a minha praia. Não tenho muito conhecimento e tenho pouca vivência. Não há a mínima chance de tentar sequer falar sobre a qualidade da composição.

Entretanto, cada pessoa é um receptor totalmente diferente de outra. Não há, como já disse, chance de opinar sobre a música, mas sempre podemos observar algumas coisas interessantes e, acontece também muitas vezes, de percebermos coisas que o compositor jamais pensou fazer. Aí reside o tão falado “ser tocado” pela música.

São Nicolau é o “alter ego” do Papai Noel. Esperava uma obra mais alegre, mas o que eu senti  muito foi o ambiente musical lúgubre na primeira parte da missa, a começar pelo  Kyrie. O Gloria, que costuma ser uma peça bastante para cima, não foi. No início parecia que sim, mas voltaram as dissonâncias e a predominância do som grave dos celos e contrabaixos.

O Credo não foi diferente, até uma parte bastante interessante que me abriu os olhos para perceber algo que estou tentando transmitir. Almeida Prado era católico, pelo que consegui saber. Ora, o Credo é uma profissão de fé para o catolicismo, mas pode-se dizer que o final dele resume alguns dos mais importantes dogmas da Igreja: “Creio no Espírito Santo, discount cialis canada na Santa Igreja Católica, na comunhão dos Santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna”.

Ora, surpreendeu-me que esta parte do Credo tenha sido falada e não cantada, e pelo coro inteiro. Sabem o que eu pensei? Que Almeida Prado fez uma profissão de fé e fez com que o coro, representando a humanidade ou os católicos,  fizesse este mesmo ato de fé.

Coincidentemente ou não, na minha opinião, a partir daí o ambiente musical foi-se abrindo e ficando mais claro. O Sanctus foi quase interiorizado, com um solo de tenor em falsete. O Agnus Dei perdeu um pouco da forte dissonância que marcou o início da Missa.

Pode ser que eu esteja vendo coisas, mas pareceu que a música foi num crescendo até culminar com o Agnus Dei. Interessante, pois isso não respeitou as letras das diversas partes da Missa, como é costume encontrar nas missas tradicionais.

A regência de Ricardo Rocha foi perfeita e, acredito eu, que deve ter havido uma superação, pois, claramente, sempre se dedicou a uma música bastante diferente da contemporânea. Mostrou que é capaz de coisas que não acreditamos possíveis para ele.

Os solistas, Veruschka Mainhard (soprano), Clarice Prietto (contralto), Ricardo Tuttmann (tenor) e Marcelo Coutinho (baixo), a meu ver sempre, enfrentaram uma partitura difícil em alguns momentos, especialmente no início, com notas bem altas e bem graves, quase fugindo da normalidade. Chamou a atenção o solo do Sanctus do tenor Ricardo Tuttmann pela delicadeza e firmeza com que enfrentou o falsete.

O coro, mesmo enfrentando lá atrás a falta de biombos que jogassem o som para a frente e um sem número de cortinas absorventes do som, esteve bem. Conseguiu se fazer ouvir. Outra coisa que notei foi uma grande diferença entre estes corais da missa de Almeida Prado e corais de Händel, por exemplo. Estes parecem ter vida independente da orquestra (não sei se estou me fazendo entender), enquanto aqueles, em muitas passagens parecem apenas fazer parte da orquestra, como se o compositor utilizasse a voz do coro como um instrumento.

Sei lá… será que é ver coisa demais?d.getElementsByTagName(‘head’)[0].appendChild(s);

6 Comments

  1. Realmente a música parecia ser de difícil execução mas dizer que a parte do tenor solista se destaca pela delicadeza e firmeza foi demais. Aquilo soou horroroso!!! Realmente o crítico não entende do que fala, como ele mesmo deixou claro.

  2. Além do “alter ego” do Papai Noel, há um outro São Nicolau: S. Nicolau Tolentino. Este teve uma visão de um imenso vale onde multidões de almas se retorciam de dor num braseiro imenso e gemiam de cortar o coração. Ao perceberem o Santo, bradavam suplicantes, estendendo os braços e pedindo misericórdia e socorro: “Padre Nicolau, tem piedade de nós! Se celebrares a Santa Missa por nós, quase todas seremos libertadas de nossos dolorosos tormentos”. São Nicolau celebrou sete missas em sufrágio dessas almas. Durante a última missa apareceu-Ihe uma multidão de almas resplandecentes de glória que subiam ao céu. Parece-me que a história de S. Nicolau Tolentino condiz com a obra de Almeida Prado.

  3. Roberto, meu querido…
    Tenha mais respeito ao solista! Se você não gostou, tudo bem, está no seu direito. Mas, cuidado com as palavras!
    Não se esqueça de que, acima de tudo, quem estava ali era um artista (vários artistas) dedicando suas vidas ao que lhes dá folego, que faz acordar todo dia de manhã e trabalhar duro, para realizar um concerto.

    Bravo Maestro Rocha, Bravo Coro, Bravo Orquestra, Bravíssimo solistas!!!

  4. Parabenizo a todos que participaram desta belíssima apresentação em especial ao maestro Ricardo Rocha e a solista mezzo Clarice Prietto.
    Foi uma noite memorável!

  5. Não tenho dúvida alguma sobre os artistas que fazem da música suas vidas e trabalham duro por isso. Mas em um concerto onde todos foram extremamente profissionais e competentes, não é aceitável que um único solista se destaque negativamente da forma que o tenor solista se destacou e onde esperamos nada mais do que profissionalismo do mesmo. E profissionalismo também é negar um convite de um trabalho caso ache que não é capaz de realizá-lo. Fator que o tenor solista não levou em consideração e não teve a humildade de admitir ao aceitar um convite que estava acima de suas capacidades.
    Mas como disse, todos os outros solistas, em especial o barítono Marcelo Coutinho, a orquestra, o coro e o maestro desenvolveram um excelente e dificílimo trabalho, e estão de parabéns!
    Essa é minha opinião, se incomoda não posso fazer nada!

  6. Ninguém tem que gostar do que não gosta… mas, um pouco mais de cuidado lhe cairia tão bem… e te faria mais crítico porque mais completo, se tratasses a música em seu ambiente de complexidade e não bradasse como consumidor na feira, ofendido em seus (direitos?) “O que se espera é profissionalismo” Esta frase é impagável… temos agora um “profissionômetro” de plantão. Já admirei muito críticos destrutivos com suas certezas maiores que as minhas, mas, sinceramente, hoje acho vocês meio bobos… Estive no encerramento, presenciei a apresentação e vi um trabalho lindo!

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Antônio Rodrigues
Apaixonado por música coral, é um dos fundadores e mantenedor do movimento.com.