Crítica

Mimosas e barbadas

Música, diversão e “muita pinta” recheiam peça na Praça Tiradentes.

As meias de nylon nem de longe escondem as pernas torneadas por músculos que os sapatos de salto alto teimam em acentuar. As mãos fortes contrastam com as unhas compridas e esmaltadas com cores chamativas. Dos agudos em falsete, “elas” pulam direto para graves profundos e carregados.

“Elas” são a imperatriz Lola, Samantha Overbook, Catula de Montecarlo e Vanilla Cherry – travestis interpretadas respectivamente por Cláudio Tovar, César Augusto, Milton Filho e Gustavo Gasparani, que protagonizam a peça As mimosas da Praça Tiradentes, musical em cartaz no Teatro Carlos Gomes, na citada praça, no Rio de Janeiro, até 22 de abril. Completam o elenco Jonas Hammar, como o cigano Miguelito, e Marya Bravo, como a internacional Divina Rúbia.

O texto de Gasparani e Eduardo Rieche aglutina os diversos tipos que tiveram espaço na famosa praça, lugar que teve grande papel no cenário cultural carioca, e tempera tudo com muita música – de Carlos Gomes a Latino, de Lamartine Babo a Vanusa. A proposta é dar continuidade à pesquisa empreendida por Gasparani sobre o teatro musical do Rio, que já rendeu à dupla um prêmio Shell de melhor texto em 2009 pelo espetáculo Oui, oui… A França é aqui!.

A trama é singela e conta a história de um grupo de drags que ensaia um show para angariar fundos para a manutenção do Cabaré das Mimosas – ameaçado de fechar as portas pela vil especulação imobiliária (clichê…). O primeiro ato da peça apresenta a movimentação com esse objetivo e se revela um tanto enfadonho com as didáticas explicações sobre a história do local apresentadas pelo personagem “desmontado” de Tovar – o professor Lourival.


Desce e arrasa

É no segundo ato que o espetáculo abandona qualquer pretensão didática, carrega no brilho e mostra a que veio. Nesse momento, entra em cena o show propriamente dito. A música é interpretada com qualidade pelos artistas Nando Duarte, Itamar Assiere, Pedro Mangia, Carlos César e Dado, sob direção musical de João Callado crotamiton e Fernando Duarte, e os atores também não deixam a peteca (nem a peruca) cair.

Um dos pontos altos é a amarração da história da Marquesa de Santos ao som de Vingativa, gravada pelas Frenéticas: “Você fez de mim uma hipócrita, uma cínica, uma mulher sem lar”. No comando da cena, Lola, a imperatriz, e toda a majestade de Cláudio Tovar, ator que, já impregnado de purpurina, abalou convenções nos anos 1970 como integrante do antológico grupo Dzi Croquettes.

Acompanhadas pelos boys – seis rapazes sarados – nas apresentações, as mimosas contam com a ajuda de uma ex-vedete da casa, a agora operada Divina Rúbia, que veio direto da Europa.

A direção de Gustavo Gasparani e Sérgio Módena é funcional e simples, sem muitos artifícios ou profundidade – como sugere um musical despretensioso – e conta com a colaboração de Ronald Teixeira nos cenários, Marcelo Olinto nos figurinos, Beto Carramanhos no visagismo e de Paulo César Medeiros na iluminação.

Ao final, tudo vira um grande show, alegre e animado, com muita purpurina, no qual o público, ao lado de atores e músicos, solta as bichas – quer dizer, os bichos, com muito respeito e vontade de ser feliz.} else {

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com