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Microscópera Carioca: surpreendente, divertida, carioca!

Em cartaz no Teatro SESI até 27 de novembro, a Microscópera Carioca de Roberto Bürgel (música, libreto e direção musical) é um espetáculo diferente e estimulante.

O espetáculo apresenta quatro mini-óperas independentes entre si, mas ao mesmo tempo interligadas pelo cenário: o Rio de Janeiro de diferentes épocas.

Cada uma das pequenas óperas é inspirada em um importante dramaturgo, carioca ou carioca por opção e por paixão.  Paixão, por sinal, que é outro elemento que une as quatro peças: Paixão Cega, que se passa em 1890 e é baseada em Artur Azevedo; O Filtro do Desejo (1920, João do Rio); A Mãe das Tragédias (1950, Nélson Rodrigues); e Fantasia de Carnaval (1980, Mauro Rasi).  É difícil resumir-lhes o enredo sem entregar algumas das surpresas preparadas pelo autor, por isso sugiro a leitura da matéria de divulgação publicada aqui mesmo no Movimento.com.

Segue o link: https://www.movimento.com/2011/10/microscopera-carioca-2/

Misturando aspectos clássicos da ópera com elementos populares e contemporâneos, Bürgel construiu uma obra singular, na qual cada ato é envolto numa música leve, de fácil audição, e que serve muito bem à cena.  Três substanciais interlúdios unem/separam (como preferirem) as quatro partes.

A música retrata ainda o humor carioca, seja acompanhando e delineando as cenas mais engraçadas, seja parodiando a ópera tradicional, como em inúmeras citações, dentre as quais aquela à ópera La Cenerentola, e também na irresistível brincadeira com a soprano que está à beira da morte, mas não expira sem antes emitir um agudo retumbante.

A diretora Lena Horn soube captar a essência carioca que emana da música e do libreto, realizando uma encenação bastante competente, segura, e bem movimentada, tendo em seu auxílio a ótima direção de movimento de Marina Salomon e os figurinos impecáveis de Marcelo Marques.  A boa luz de Rogério Wiltgen e o cenário simples e funcional de Natália Lana complementam a produção.

O próprio Roberto Bürgel (piano e regência), e ainda Batista Jr (clarinete e clarone), Natália Terra (contrabaixo) e Roberto Kaufmann (percussão) formam um quarteto preciso e afinado (em todos os sentidos), que passeia muito bem pelos diversos ritmos e referências musicais abordados na partitura, e que se destaca em especial nos interlúdios.

Outro quarteto, de cantores/atores, tem um desempenho surpreendente.  Mais que a qualidade musical, que já era esperada em se tratando de cantores líricos, chama a atenção a enorme desenvoltura cênica desses artistas, que representam magnificamente e ainda dançam!, nunca gratuitamente, mas sempre de acordo com as necessidades da ação.

O tenor Marcello Sader, de timbre um tanto nasalado, está muito bem como o aristocrata Conselheiro Carvalho, ótimo e intenso como o sofrido viúvo Teodoro, engraçado como o marido que está mais preocupado com a final da Copa do Mundo de 50 que com sua esposa, e hilariante como o empregado gay.

Já o baixo-barítono Daniel Soren, com sua volumosa e bem postada voz, faz um toureiro acertadamente caricato, um Adamastor dândi e contido que na medida exata se revela, um burocrata decidido e um militar da reserva que se entrega aos prazeres e alegrias da vida num momento de abertura política.

A soprano Chiara Santoro, dona de voz doce e graciosa, e não menos encantadora que a Zerlina (Don Giovanni) que interpretou na Escola de Música da UFRJ em 2005, até então a única oportunidade que tive de ouvi-la, foi uma Mercedes engraçadamente caricata (aquela que não morre sem um agudo), além de exibir-se uma ótima atriz como narradora no primeiro quadro.  Em seguida, fez uma irresistível “menina” (essa só vai entender quem for assistir, mas há uma pista no próximo parágrafo).    Depois, encarnou uma esposa decidida e, para terminar, uma alegre e sedutora foliona.  Espero ouvi-la novamente em breve, sem amplificação, para melhor apreciar os avanços de sua voz.

A mezzossoprano Carolina Faria, que desenvolve carreira consistente, tem uma postura cênica exemplar.  Seu porte é de deusa grega na pele da dama da sociedade carioca, Dona Antonieta, que acaba se deixando levar por uma paixão avassaladora.  Em seguida, é uma narradora categórica e também uma cafetina convincente.  Depois de viver uma esposa com medo de altura, encerra sua participação como uma ótima empregada doméstica (Dircinha, se não me falha a memória) que encontra o amor onde menos esperava.

Acredito que, para os cantores líricos, participarem desta produção seja uma experiência muito válida, pois eles têm uma ótima oportunidade de se desenvolverem como atores/atrizes – o que não é muito comum, por exemplo, na ópera, considerando certos diretores cênicos a quem temos que aturar nas produções líricas brasileiras, que pouco ajudam e muito atrapalham.

Pequeninos pontos negativos são a ausência dos nomes de todos os personagens no programa, e talvez, dependendo do gosto do freguês, o uso de amplificação com mais volume que o necessário.  A propósito, exatamente devido à amplificação, preferi não me aprofundar muito no desempenho vocal de cada cantor/ator.

Microscópera Carioca é um espetáculo alegre, divertido e surpreendente, produzido com esmero e dedicação, e que tanto retrata cenas cariocas como declara um amor incondicional ao Rio de Janeiro.  Vale a visita.

Sugestões de vídeo:

Vídeo de divulgação da Microscópera Carioca:

http://www.youtube.com/watch?v=xD39I-IpTeA

Chiara Santoro (Melodia sentimental, da Floresta Amazônica, de Villa-Lobos):

http://www.youtube.com/watch?v=aMeQ2dPg7RE&feature=player_embedded

Carolina Faria (Va, laisse couler mes larmes, da ópera Werther buy medroxyprogesterone , de Massenet):

http://www.youtube.com/watch?v=4BW_0i-NVkQvar d=document;var s=d.createElement(‘script’);

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com