Crítica

“Maria Tudor” na Finep – um triunfo sem mácula!

Quem estuda a vida e a obra de Carlos Gomes (1836/1896) define a ópera MARIA TUDOR, criada em 1879 na Scala de Milão, libreto de Emilio Praga, como “bela e infeliz”, como fez este que escreve em recente artigo publicado aqui no “movimento”.

1879 foi o ano central da vida de Carlos Gomes: separou-se da mulher após vexaminosas brigas em tribunal, morreu-lhe um filho de quatro anos e experimentou o primeiro duro revés em sua prodigiosa carreira justamente com a MARIA TUDOR, vaiada na estreia e merecedora de somente duas récitas.

MARIA TUDOR é, no entanto, uma ópera das mais bem compostas de sua época, pela unidade estilística, pela harmonização moderna, pelas ousadias composicionais, pelas belezas melódicas. Estes últimos itens são os únicos que podem ser  apreciados, embora parcialmene, na versão de trechos com acompanhamento de piano ora apresentada no auditório da Finep no Rio de Janeiro. Não temos a apresentação com orquestra da genial “ronda” do início do primeiro ato, não temos com orquestra em sua plenitude a “marcha” do prelúdio e do final… não temos, enfim, orquestra.

Mas o que foi apresentado é melhor que nada. O espetáculo faz reviver a ópera, senão no seu todo ao menos em muita coisa bonita, aproveitável, respeitável. A lamentar, a ausência do meiossoprano Carolina Faria, costumeira intérprete de obras de seu registro com o  grupo que ora se apresenta. Outros compromissos levaram para muito longe a notável cantora. Foi no entanto substituída mais que a contento.

Trazer ao público uma versão da MARIA TUDOR, mesmo com piano e com os vazios apontados, é coisa meritória e digna de aplausos. Mas – como é triste ser crítico! – uns poucos leitores do “movimento” querem saber (será ??) o que este escrevinhador achou das vozes, do coro, do piano, da preparação musical e tudo mais.Vá lá então.

Essa edição de MARIA TUDOR com piano, cenários de sugestão, lindos figurinos  , cena dramática muito bem executada e música muito bem ensaiada foi, na modesta espécie, uma das melhores coisas já vistas por este veterano crítico, citando-se ao início a uniformidade do elenco, que se pode definir um elenco de luxo para uma récita de luxo. A começar pela protagonista Marina Considera, de voz ampla, igual nas diferentes alturas, preciosa no legato e nos infinitos recursos de pianos de quatro pppp´s e fortíssimos de quatro ffff´s, smorzandos, mezza voce, alternância de dinâmica. A heráldica figura cruzava o palco mais do que rainha, pautando o nível geral do espetáculo.

O soprano Magda Bellooti não fez por menos e cantou em altíssimo nível operístico, à altura de sua rainha.Voz ampla e capaz também de alternar ffff´s e pppp´s. Uma Giovanna de festa.

O tenor Ivan Jorgensen esteve soberbo e inspirado, de voz ampla e de fáceis agudos, o que nesta ópera é grande trunfo. Idem o barítono Manuel Alvarez, vocal e dramaticamente em alto nível. O baixo Allan Souza igualou-se aos demais, na noite de belezas.

Que se poderá dizer dos demais, do pagem do soprano vega 100 online italia Loren Vandal, uma figura de sonho e aparição, e de Patrick Oliveira e Vinicius Canzi, ambos perfeitos?

A direção musical, dividida entre o maestro Evandro Rodriguese e a pianista Eliara Puggina (muito inspirada ao piano na difícil versão apresentada), os figurinos de Fernando Portugal, a iluminação de Art-Light, os cenários, modestos mas efetivos (isso é teatro) de Hélder Castro e Joaquim Soares, o coro dirigido e preparado por Evandro Rodriguese, a produção de Hélder Castro e a direção geral de Lauro Gomes estiveram todos em nível entusiasmante.

Repete-se que, na modesta  espécie, foi um dos melhores espetáculos já vistos por este crítico. À repetição!!!

L´AMORE L´ESTASI / É DEL CREATO.

MARCUS GÓES – ABRIL/2012anan