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Lincoln Center Festival 2012

Desde sua primeira temporada em 1996, o Lincoln Center tem apresentado em Nova York a programação mais diversificada e original da cidade.

Com esta 17a. edição, que acaba de ser encerrada, mais de 1.200 espetáculos foram oferecidos, entre música, ópera, teatro, dança e obras interdisciplinárias, com artistas da mais alta reputação internacional, vindos de 50 países.

Nesse período, o Festival comissionou mais de 40 obras novas, e ofereceu 130 premieres mundiais, nacionais e novaiorquinas. O Festival enfatiza pontos de vista artísticos contemporâneos e obras multidisciplinárias que expandem os limites tradicionais das artes cênicas, constituindo-se num balanço anual da produção mundial mais significativa.

Os destaques de 2012, oferecidos de 5 de julho a 5 de agosto, serão comentados neste artigo. Três produções de óperas, totalmente diferentes umas das outras, marcaram a temporada: “Orfeu e Eurídice”, de Christoph Willibald Gluck, “Émilie”, de Kaija Saariaho, e “Feng Yi Ting”, de Guo Wenjing.

“Orfeu e Eurídice” foi apresentada como ópera dançada, na concepção de Pina Bausch, especialmente criada para a Ópera de Paris, em 2005. No fosso da orquestra, coros, solistas e o conjunto orquestral Balthasar-Neumann executavam a partitura de Gluck. No palco, o Ballet da Ópera de Paris executava a coreografia de Pina Bausch, um estudo sensível e profundo sobre a fragilidade humana.

Nesta atualização do trágico mito grego, a narrativa é feita em movimentos inspirados nas figuras de barro cozido Tanagra, pré-clássicas, e nas pinturas dos vasos áticos clássicos. O resultado, de grande força e delicadeza, eleva esse espetáculo de arte global ao nível da atemporalidade.

Cantada em francês e inglês, “Émilie” é uma ópera em um ato, para uma só cantora. Sua autora, finlandesa, é um dos compositores de maior prestígio hoje. Émilie du Châtelet, uma figura ímpar do Iluminismo francês, foi brilhante em matemática, física e economia. Pioneira do feminismo, foi amante de Voltaire, antes de se decidir a ter um filho. Morreu de parto aos 42 anos, pouco depois de ter traduzido para o francês o “Principia Mathematica”, de Isaac Newton.

Katija Saariaho constrói a personagem sobre libreto de Amin Maalouf, combinando música atonal com efeitos eletrônicos. A direção de Marianne Weems lança mão de tecnologias atuais, e desafia os limites do teatro. A soprano Elizabeth Futral, um grande nome da ópera tradicional, surpreendeu com esta obra de difícil execução, durante os 80 minutos de atuação ininterrupta.

Dois homens apaixonados por uma mesma mulher, Diao Chan, lendária beldade da velha China, misteriosa e inatingível. Seus poderosos pretendentes são rivais políticos, e essa intriga põe em perigo o Império chinês. Gao Wenjing, o compositor chinês mais expressivo da atualidade, baseou-se nessa clássica história de amor, intriga política e corrupção, para compor sua ópera “Feng Yi Ting”, o Pavilhão da Fênix, onde a protagonista encoraja um de seus pretendentes a matar seu rival, para salvar o Imperador da Dinastia Han.

Escrita no estilo da ópera de Pequim, a obra combina a tradição e instrumentos musicais ocidentais e orientais, e trata as vozes evocando a tradição chinesa com sons contemporâneos. Cenários e figurinos chineses clássicos. Resultado: beleza músical, força dramática e fascínio visual.

Mas o esplendor da China não ficou só aí. Em “Histórias Manuais”, Yeung Faï, descendente de uma dinastia de marionetistas, teceu, durante uma hora, efeitos multimídia atuais com a antiga tradição chinesa de teatro de bonecos, num espetáculo autobiográfico, que o leva da China da revolução cultural para as ruas de Hong Kong, do Brasil e da Europa, onde aparecem concubinas, tigres e guerreiros.

A narrativa é feita com bonecos manuais; coadjuvado pelo francês Yoann Pencolé, música moderna e visualidade tradicional, predominou a manipulação, feita com grande segurança técnica em todos os pormenores. Tudo isso a serviço de uma forma singela e expressiva de arte.

Ainda da China, veio o teatro de dança TAO, cujo diretor, Tao Yi, une teatro, sonoplastia, artes visuais e silêncio. Sim, silêncio, como dimensão estética. TAO apresentou dois trabalhos. Um deles, chamado “2”, é um dueto de dois dançarinos, desenvolvido sobre ritmos da palavra falada, gravada pelos próprios dançarinos durante os ensaios, combinados com sons folk e rock chineses.

De extrema virtuosidade minimalista, os movimentos simbolizam o diálogo de duas almas. A outra obra, chamada “4”, é coreografada para quatro dançarinas, que navegam sincronizadas num espaço que é interior e exterior ao mesmo tempo. Também minimalista, esta obra explora as possibilidades potenciais do corpo humano, como expressão visual pura, sem representação nem narrativa.

Numa de suas raras viagens ao exterior, o Ballet da Ópera de Paris apresentou um programa de mestres franceses do século vinte (Serge Lifar, Roland Petit e Maurice Béjart) e “Giselle”, uma das grandes criações na história da companhia, e uma das grandes joias do ballet clássico, cuja forma, aliás, foi criada por essa mesma companhia, há quase duzentos anos. Romântico por excelência, “Giselle” é um balé melancólico, misterioso, sutil, que narra a história da inocência traída; na verdade, do amor traído. A coreografia de Jean Coralli e Jules Perrot, sobre música de Adolphe Adam, foi restaurada em 1887 por Marius Petipa, e adaptada por Eugène Polyakov em 1991.

Virtualmente dançada por todas as grandes companhias de balé, em todos os continentes, é ainda a companhia do Ballet da Ópera de Paris sua intérprete ideal. Com grande técnica, mas sem pretensões atléticas, o corpo de baile, os solistas, a estrela e o astro, de inegável coesão estilística e extrema delicadeza, dançam a tragédia de Giselle com humanidade, poesia e pungência inigualáveis.

Numa aparição emocionante, esta vez como ator e não como dançarino, Michail Baryshnikov, hoje com mais de sessenta anos e uma lenda viva, foi o protagonista de “Em Paris”, uma produção russa do Laboratório Dmitri Krymov. Com a atriz russa Anna Sinyakina e um grupo de ótimos atores, o espetáculo sobre texto adaptado e dirigido por Krymov, baseado na novela homônima de Ivan Bunin, Prêmio Nobel de Literatura,  conta a história de dois imigrantes russos, ele, um ex-general da Armada Branca, ela, uma bela mulher, muito mais jovem. Por acaso, eles se encontram em Paris na década de 1930, e vivem uma comovente história de amor.

Celebrada em meio a artes visuais, essa paixão é vivida num cenário preto e branco, com fotos gigantescas, que servem como cenários e adereços. A música original também contribui para o clima poético e de suspense do espetáculo, que é falado em russo e francês, com sobretítulos em inglês.

Com esse espetáculo, e outros cinco, vindos de três países de língua inglesa, o teatro participou do Festival com toda força. A Escócia mandou “Macbeth”, uma das peças de Shakespeare de maior profundidade psicológica, numa versão inusitada do National Theatre of Scotland, em que um só ator interpreta todos os personagens da peça.

Na direção de John Tiffany e Andrew Goldberg, este Macbeth é ambientado numa clínica psiquiátrica de ladrilhos verdes, com uma cama e uma cadeira. O grande ator Alan Cumming aparece como paciente único e solitário, vivendo, num prodígio de transformismo, cada um dos personagens da complexa peça, oferecendo uma verdadeira antologia da arte da interpretação teatral, feita com inteligência e sensibilidade.

Da Irlanda, veio a Druid Theatre Company, trazendo três peças de Tom Murphy, o autor de maior relevo do teatro irlandês hoje, e o que maior influência tem exercido sobre a nova geração de dramaturgos daquele país. As três peças, que poderiam ter sido vistas em três noites, ou num dia inteiro, no fim de semana, contam a história da imigração irlandesa, tanto a história daqueles que deixaram a Irlanda, como daqueles que ficaram.

“Conversas sobre a volta para casa”, tem lugar num “pub” de uma cidadezinha da Irlanda Ocidental, nos anos 1970, onde Michael, vindo de Nova York, depois de dez anos de ausência, se encontra com os seus velhos amigos, para beber e rir. Durante as conversas, todos eles se dão conta de que os anos não trouxeram para nenhum deles as vidas que eles gostariam de ter tido.

“Um assobio no escuro” se passa em 1960, quando a família de alcoólatras violentos, os Carney, tive que sair de sua cidade de origem, na Irlanda Ocidental, e foi parar em Coventry, na Inglaterra, onde ela luta, em vão, para se adaptar.

“Fome”, lança um olhar sobre um dos períodos mais negros na história da Irlanda. É 1940, no condado Mayo, na Irlanda Ocidental. A colheita da batata fracassou, e a população encara a fome. John Connor, chefe de família e líder da aldeia, filho de gloriosos antepassados, fará a coisa certa para a sua família, e para si mesmo.

Essa trilogia, dirigida por Garry Hynes, e vivida com grande intensidade por quinze ótimos atores e atrizes, é mais que teatro: é a história dolorosa de uma nação.

A Austrália participou com brilho, numa nova versão de “Tio Vanya”, de Anton Tchekhov, pela Sydney Theatre Company, encabeçada por John Hall e Cate Blachett, dois dos melhores atores atuais do teatro de língua inglesa. Na direção de Tamás  Ascher, o grande diretor húngaro, a obra prima de Tchekhov se apresentou com uma rara e difícil integração de humor, calor humano, paixão, amargura e sombria graça.

Numa fazenda distante e delapidada, o Tio Vanya e sua sobrinha Sonya trabalharam feito escravos durante muitos anos, para manter uma propriedade em declínio. Até que o pai de Sonya e sua segunda esposa, jovem e bela, aparecem e precipitam aquelas vidas, anunciando a venda da fazenda. De repente, desilusões e amores não correspondidos transformam a cena bucólica numa explosão de sentimentos contraditórios, nos últimos anos do império russo.

Dois eventos musicais se destacaram no Festival: o tributo à memória de Curtis Mayfield, no 70o. aniversário de seu nascimento, e o concerto conjunto de duas grandes orquestras de jovens: a orquestra da Juilliard School of Music de Nova York e a orquestra da Royal Academy of Music de Londres, regidas por John Adams, unanimemente reconhecido como o maior compositor americano erudito hoje, e o mais original. No programa, Respighi, Ravel, e “City Noir”, uma obra do próprio John Adams.

Curtis Mayfield começou sua carreira como guitarrista autodidata, vocalista e autor de canções na década de 1960, para se transformar, nos anos que se seguiram, num dos ícones mundiais do rock and roll, até que, em 1990, num trágico acidente durante um concerto em Brooklyn, ele caiu e ficou paralisado do pescoço para baixo, durante nove anos, até sua morte em 1999, aos 57 anos. O concerto lançou a Fundação Curtis Mayfield, criada por sua família, para ajudar jovens músicos com limitações físicas a realizarem seus sonhos musicais.

Mayfield participou com  sua música dos movimentos de direitos civis, introduzindo poesia e afirmação moral no pop, soul, funk e R&B. Uma plêiade de artistas e músicos de estilos vários se reuniu nesta homenagem, em cujo centro esteve o inimitável grupo vocal soul, que Mayfield dirigiu no início de sua carreira.

 

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José Neistein
Formado em Filosofia na USP e em Viena. Conferencista em universidades da Europa e das Américas. É membro das associações nacional e internacional de críticos de arte, com vários livros publicados. É crítico de arte, música, literatura, teatro e ópera.