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“La Bohème” e “Medeia” encerram ano lírico em SP e RJ

Ópera de Puccini recebe bela encenação, enquanto a de Cherubini (em concerto) teve soprano substituída. 

La Bohème, ópera em quatro atos de Giacomo Puccini sobre libreto de Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, com base na novela Scènes de la vie de bohème (Cenas da vida boêmia), de Henri Murger, encerra neste dezembro a temporada lírica 2013 do Theatro Municipal de São Paulo, com récitas até dia 29.

A produção do diretor francês Arnaud Bernard é a mesma (ou praticamente a mesma) apresentada por ele na Rússia em 2011, como se pode perceber por meio de fotos disponíveis em seu site. Em sua concepção, o artista opta por utilizar tons cinzentos e busca representar o inverno parisiense de 1950 – época para a qual a história é transportada. Bernard é o responsável não apenas pela direção de cena, mas também pela cenografia e pela iluminação da montagem.

Dentre essas tarefas, a buy atorlip ez que mais se destaca é a belíssima direção dos cantores/atores, bastante contemporânea, que resulta em uma intensa e vibrante movimentação cênica dos solistas e, especialmente, do coro. É incrível como cada membro do coro parece ter sido dirigido individualmente. Merece menção especial a transição do primeiro para o segundo ato, sem intervalo cênico (apenas a música é interrompida), quando uma grande quantidade de pessoas invade o palco, representando a balbúrdia da véspera de Natal no Quartier Latin, bairro boêmio de Paris onde se passa a trama. Poucos segundos depois, o regente ataca o segundo ato.

A produção não apresenta um cenário de verdade e oferece apenas alguns adereços de cena, que contribuem para a localização de cada ato da ópera. Tudo é enriquecido por uma luz sensível, que enfatiza o clima onírico proposto por Bernard. Completam a montagem os figurinos de Carla Ricotti, bastante adequados à concepção do diretor.

O efeito visual atingido na encenação é muito bonito, mas há um importante ponto negativo, que frequentemente ocorre em releituras minimalistas: ao não utilizar cenários de verdade, ou ao menos algum expediente que contribua para “fechar” acusticamente o palco, o diretor não ajuda a projeção das vozes solistas, especialmente no primeiro e no quarto atos, quando os solistas cantam no meio do palco (veja a foto do post, que, a propósito, traz o tenor que cantou na estreia, e não aquele da récita aqui analisada). Muita coisa pode ser ouvida a contento porque boa parte dos solistas é qualificada, mas, dependendo do local e da direção da emissão, a projeção das vozes fica claramente prejudicada.

Na récita de 21 de dezembro, a Orquestra Sinfônica Municipal esteve em geral muito bem, sob a regência de seu titular, John Neschling. O maestro conduziu a ópera com precisão e sensibilidade, e o conjunto orquestral, se ainda apresentou aqui e ali algumas derrapadas sonoras, encontra-se em clara e constante evolução.

O Coral Lírico também esteve muito bem, especialmente no tocante à vibrante movimentação cênica do segundo ato. Raramente se vê, no Brasil, um coro tão bem dirigido cenicamente e tão comprometido com a direção. Com a recente demissão de Mário Zaccaro do cargo de regente do Coral Lírico (seu nome ainda consta do programa de sala), não sei dizer se foi ele mesmo ou Bruno Facio o responsável pela preparação vocal do conjunto. Também participaram da montagem as crianças do Coral da Gente, preparadas por Silmara Drezza, e que também apresentaram desempenhos vocal e cênico dignos de elogios.

Dentre os solistas, todos com excelente participação cênica, não comprometeram o tenor Jean Nardoto (Parpignol) e o baixo Carlos Eduardo Marcos (Alcindoro). Já o baixo Saulo Javan esteve bem como o senhorio dos boêmios, Benoit. A maior decepção para meus ouvidos foi o pintor Marcello do barítono italiano Simone Piazzola, que foi quem mais sofreu com a falta de apoio acústico no palco, conforme relatado acima.

Outro barítono italiano, Mattia Olivieri, esteve muito bem como o músico Schaunard, apresentando alguns momentos de ótima projeção. O baixo hispano-brasileiro Felipe Bou também esteve bem como o filósofo Colline e fez o que dele se esperava: interpretou com competência e sensibilidade sua pequena grande ária, Vecchia zimarra, senti.

O tenor carioca Fernando Portari foi um Rodolfo convincente e seguro, que brilhou em seus grandes momentos, dentre os quais a ária Che gelida manina e os duetos com Mimì: Order O soave fanciulla (no primeiro ato) e Dunque è proprio finita? (no terceiro, evoluindo para um quarteto com a participação de Marcello e Musetta).

Chegamos então aos grandes destaques da ópera, que foram elas, as mulheres. A soprano romena Mihaela Marcu foi uma belíssima Musetta, bastante disciplinada e convincente cenicamente, e dona de uma voz segura e bem projetada. Sua valsa do segundo ato (Quando men vo) foi interpretada com graça e sensualidade.

Já a grega Alexia Voulgaridou Cheap , também soprano, foi uma Mimì digna do maior respeito: além da precisa atuação cênica, ofereceu uma voz de lindo timbre e muito bem projetada, com destaque para seus graves e médios sonoros. Demonstrou domínio de estilo em suas duas árias, brilhantemente interpretadas: Sì, mi chiamano Mimì (no primeiro ato) e Donde lieta uscì (no terceiro). A artista destacou-se ainda nos dois duetos com Rodolfo, já citados, e em todo o quarto ato.

Com essa bela La Bohème, encerra-se a primeira temporada de Neschling como diretor artístico do Theatro Municipal de São Paulo. Pode-se discordar do maestro aqui ou ali (eu mesmo já discordei aqui do meu cantinho, publicamente, quanto ao cancelamento da encenação de O Ouro do Reno), podem-se considerar polêmicas algumas de suas propostas e/ou decisões, como, por exemplo, a de escalar cantores estrangeiros para pequenas partes. Uma coisa, porém, não tem discussão: “o cara” chegou e aconteceu.

Fala-se em todo o meio musical, seja bem ou mal, seja com admiração, repúdio ou inveja, sobre a temporada de óperas do Theatro Municipal de SP. E os invejosos devem estar se coçando, porque a do ano que vem promete ainda mais: Stuart Neill, Denise de Freitas, Ambrogio Maestri, Rodrigo Esteves, Luciana Bueno online , Lina Mendes, Diógenes Randes, Rinat Shaham, Luisa Francesconi, Portari, Peter Bronder, Tuija Knihtlä, Walter Fraccaro, Martin Muehle Marcelo Alvarez, dentre outros (citações por ordem de participação na temporada).

Certa administradora de certo teatro de ópera do outro lado da ponte-aérea deve estar, a esta altura, no mínimo preocupada. Afinal, “o cara” fez Order em um ano o que ela, em seis, não conseguiu fazer: montou seis óperas (e montará sete em 2014 – não estou considerando aquela sobre futebol). Falarei mais sobre isso em um artigo que publicarei, se possível, ainda esta semana.

Prefeito presente

Registre-se: vi o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, em três das quatro óperas a que assisti no Municipal paulistano a partir de agosto. Nessa La Bohème, até troquei um dedo de prosa com ele. Quem acompanha meus textos com frequência sabe bem: não confio em políticos. No Brasil, político é uma raça desgraçada e das duas, uma: ou é ladrão, ou até pode ser honesto, mas acaba vitimado por um sistema viciado e mesquinho em que impera o fisiologismo.

Uma coisa, porém, é preciso reconhecer: Haddad dá apoio verdadeiro à administração Herencia/Neschling no med cab online pharmacy reviews Municipal de São Paulo. Não se faz ópera no Brasil sem vontade política. Essa vontade existe na capital paulista, enquanto no Rio… Bem, alguém aí já viu o amigo do Cavendish assistir a uma ópera no Municipal carioca (só vale se for da primeira à última nota)? Pois é, nem eu!

Medeia

Se La Bohème encerrou a temporada lírica paulistana deste ano, Médée (Medeia), encerrou a única programação lírica realmente séria apresentada no Rio de Janeiro em 2013 (uma vez que as três óperas esparsas do Municipal carioca não passam de um escárnio com o público): a soma das séries Ônix e Ágata, nas quais a Orquestra Sinfônica Brasileira – Ópera & Repertório Buy apresentou oito óperas em forma de concerto.

A obra de Luigi Cherubini, sobre libreto de François Benoit Hoffmann, com base na tragédia grega da mãe que mata seus próprios filhos para se vingar da traição de seu marido Jasão, teria a soprano Eliane Coelho como protagonista. A cantora, porém, teve um problema de saúde e ficou completamente sem voz no dia exato da apresentação. Uma pena e uma lástima, porque é sempre um prazer ouvi-la. 

Objetivando não cancelar o concerto, a Fundação OSB chegou a uma solução inusitada: escalou duas cantoras para dividir a parte principal. A soprano Tati Helene interpretou Medeia no primeiro ato e na primeira parte do terceiro ato; e a também soprano Veruschka Mainhard deu vida à personagem no segundo ato e na parte final do terceiro ato. Ambas tiveram menos de 12 horas para estudar a partitura e, certamente por isso, o dueto entre Medeia e Jasão que encerra o primeiro ato foi cortado.

Helene cantou muito bem sua ária do primeiro ato, Vous voyez de vos fils la mère infortunée, mas esteve menos segura naquela do terceiro ato, Du trouble affreux, o que é natural considerando-se o caso acima esclarecido. O mesmo ocorreu com Mainhard, que esteve bastante insegura durante todo o segundo ato, mas se recuperou na segunda parte do terceiro e interpretou muito bem todo o finale da ópera. Pelo esforço e pela coragem (afinal, estamos falando de um papel imortalizado por Maria Callas), as duas merecem aplausos.

Completaram o elenco as sopranos Maíra Lautert (Dircée – precisa controlar melhor seus agudos) e Michele Menezes (criada); a mezzosoprano Marianna Lima (bem como outra criada); a contralto Kismara Pessati (Neris – bem em sua ária Ah, nos peines); e o tenor Charles Cruz (muito bem como Jasão). O baixo Savio Sperandio foi a voz da noite como Creonte e brilhou tanto no trio do primeiro ato com Dircée e Jasão, como no dueto com Medeia no segundo ato.

O coro arregimentado para o concerto, preparado por Priscila Bonfim, esteve muito bem, bastante expressivo e equilibrado. Já a OSB O&R cresceu ao longo da noite sob a condução do argentino Carlos Vieu, com destaque para a belíssima interpretação do prelúdio do terceiro ato, em que as cordas graves cantaram lindamente.

As séries Ônix e Ágata da OSB Buy O&R salvaram o ano lírico carioca, ainda que as óperas de ambas as séries tenham sido apresentadas apenas em forma de concerto. Se o melômano carioca dependesse apenas da programação própria do Municipal para ouvir óperas completas ao vivo, estaria perdido. Espero que tais séries se mantenham vivas na próxima temporada. Aguardemos para saber.

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