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Korsakov e a seduA�A?o da orquestra

SinfA?nica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro brilha em noite de A?pera e balA�.

 

Que os tempos estA?o nebulosos para todos, isso nA?o A� novidade para ninguA�m. Em meio A� crise que assola o estado do Rio de Janeiro (e o paA�s), o Theatro Municipal carioca lanA�a mA?o de criatividade e talento para dissipar as nuvens. A criaA�A?o de um programa duplo, contendo A?pera e balA�, foi uma das alternativas encontradas.

Mas nA?o se trata de uma A?pera que contenha cenas de balA�, como TannhA�user, de Richard Wagner, para citar uma. A ideia A� unir duas peA�as diferentes, como explica o diretor artA�stico do TMRJ, http://www.pablogodoy.cl/?p=1210 AndrA� Cardoso, no texto do programa: “A proposta de A�pera + BalA� A� apresentar duas obras distintas, que se juntam para formar um espetA?culo A?nico, no qual hA? algum elemento comum que possa criar unidade.”

O que une as obras que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro leva A� cena de 28 de setembro a 2 de outubro A� a mA?sica exuberante que o compositor russo Nikolai Rimsky-Korsakov escreveu para a A?pera Mozart e Salieri e para o balA� Sheherazade.

 

Composta em 1897 e estreada no ano seguinte, Mozart e Salieri tem como base uma das Pequenas TragA�dias, do escritor russo Alexander Pushkin (de 1830) a�� que tambA�m inspirou o dramaturgo britA?nico Peter Shaffer a escrever a peA�a Amadeus em 1979 (que depois virou o premiado filme homA?nimo de 1984, dirigido pelo tcheco Milos Forman). Em linhas gerais, a trama dA? forma a um boato existente na Viena do sA�culo 18: de que o compositor italiano Antonio Salieri havia envenenado o seu colega de profissA?o Wolfgang Amadeus Mozart, por pura e assumida inveja da genialidade do grande austrA�aco.

Descrita pelo prA?prio Rimsky-Korsakov como “duas cenas operA�sticas no estilo recitativo-arioso”, a A?pera mantA�m quase na A�ntegra o texto de Pushkin a�� traduzido com fluidez para o portuguA?s por Irineu Franco PerpA�tuo (com adaptaA�A?o do libreto feita por AndrA� Cardoso).

Se, quando surgiu, foi composta especialmente para um dos mais famosos baixos russos, FiA?dor ChaliA?pin, a montagem do Theatro Municipal do RJ A� um veA�culo na medida do talento do premiado barA�tono InA?cio De Nonno. Com impecA?vel projeA�A?o vocal, que permitia a compreensA?o de cada palavra do libreto, Nonno, fulgurante, revestiu seu Salieri de uma rija mA?scara de inveja, por cujas frestas era possA�vel ver o personagem ardendo-se em regozijo pela sublime arte do colega compositor. Mozart, por sua vez, A� interpretado pelo tenor FlA?vio Leite com vivacidade e fraseado claro e brilhante. O violinista JosA� Lana faz A?tima participaA�A?o especial como um mA?sico cego.

Na direA�A?o, o experiente Daniel Herz (de peA�as premiadas como As Artimanhas de Scapino e O Filho Eterno, da Cia. Atores de Laura) alcanA�ou manter o delicado balanA�o da tensA?o entre os personagens (em particular, na segunda cena), ainda que a movimentaA�A?o dos atores tenha parecido artificial e gratuita em alguns momentos. O visagismoA�(perucaria de Divina Lujan e maquiagem de Vitor Martinez) causou grande impacto, especialmente pelas excelentes perucas. O figurino de Marcelo Marques A� belA�ssimo, com A?timo corte, riqueza de detalhes e imediata conexA?o com a A�poca da cena (ainda que seja pouco funcional, principalmente no caso da enorme cauda do robe de Salieri). O cenA?rio A?nico de Fernando Mello da Costa a�� um piano em grandes proporA�A�es, do qual a mA?sica parece emergir, escorrendo como lava a�� A�s vezes se perdia no escuro, em dissonA?ncia com a iluminaA�A?o de AurA�lio De Simoni.

Um dos mais belos trechos da A?pera foi protagonizado por um coral de doze Mozarts, formado por integrantes do Cheap Coro do TMRJ, preparado por JA�sus Figueiredo: o momento em que o gA?nio austrA�aco apresenta ao invejoso colega a criaA�A?o na qual trabalha a�� o sublime RA�quiem, cujas notas vA?o ganhando vida com a delicada interpretaA�A?o dos cantores em cena e da cada dia melhor Orquestra SinfA?nica do TMRJ, conduzida com elegA?ncia pelo maestro Tobias Volkmann Order . Salieri se contorce de inveja e a plateia, de contentamento, pela oportunidade de conhecer uma obra menos famosa do mestre Rimsky-Korsakov.

InA?cio De Nonno e FlA?vio Leite em meio ao coro de Mozarts
InA?cio De Nonno e FlA?vio Leite em meio ao coro de Mozarts

 

Lubricidade exuberante best place to buy finasteride

Ao contrA?rio da mA?sica de Mozart e Salieri, as sinuosas melodias da suA�te sinfA?nica Sheherazade, Op. 35 Order , composta por Nikolai Rimsky-Korsakov em 1888, sA?o mundialmente conhecidas. Com base nos contos de As Mil e Uma Noites e forte viA�s Orientalista, a obra deu origem a um balA� coreografado em 1910 por Michel Fokine, principal nome dos BalA�s Russos.

Enquanto Korsakov compA?s sua suA�te com base em trechos de As Mil e Uma Noites sem ligaA�A?o entre si, Fokine criou a trama do balA� a partir do prA?logo do livro, no qual o sultA?o Shahryar, envenenado pelas palavras de desconfianA�a de seu irmA?o Shah Zeman, finge deixar seu palA?cio para fazer uma caA�ada, com o verdadeiro objetivo de verificar a fidelidade das odaliscas de seu harA�m durante sua ausA?ncia.

Coube ao bailarino italiano Toni Candeloro a recriaA�A?o da sensual coreografia de Fokine, contando com o BalA� do TMRJ (que tem Ana Botafogo e CecA�lia Kerche como diretoras artA�sticas). O prA?prio Candeloro deu vida ao burlesco Chefe dos Eunucos, acompanhado pela luxuosa participaA�A?o especial de Pills Marcelo Misailidis (como o sultA?o Shahryar) e de Anderson DionA�sio http://labor-szkolenia.pl/cheap-cabgolin-tablet/ (como Shah Zeman).

Candeloro, Misailidis e DionA�sio em cena (A� direita)
Candeloro, Misailidis e DionA�sio em cena (A� direita)

 

Na noite de estreia, Mel Oliveira, Juliana ValadA?o e Fernanda Martiny encarnaram, com graA�a e charme, as trA?s odaliscas preferidas do sultA?o. Tais qualidades podem ser atribuA�das tambA�m aos demais bailarinos no palco, nos papA�is de odaliscas concubinas, escravos, jovens mA?sicos, guerreiros e ajudantes do Eunuco.

O primeiro bailarino CA�cero Gomes danA�ou o Escravo Dourado com enorme energia, tA�cnica impecA?vel e um misto de languidez feminina e virilidade masculina, abandonando momentaneamente a imposiA�A?o de um modelo heteronormativo para a postura do bailarino e abraA�ando outras formas de beleza na danA�a.

Como a protagonista Zobeide, a primeira solistaA�Renata TubarA?o atuou, no dia 28/9, com a beleza, a languidez e o exotismo de uma mocinha de filme de James Bond. Seus belos movimentos de braA�o e seus largos arcos de corpo foram tecnicamente irretocA?veis e arrancaram suspiros.

Renata TubarA?o nos braA�os de CA�cero Gomes
Renata TubarA?o nos braA�os de CA�cero Gomes

 

Em meio ao colorido dos cenA?rios (com almofadas, tapetes e uma grande cortina verde-esmeralda) e figurinos (de vermelhos intensos e azuis profundos) originalmente criados por LA�on Bakst para os Ballets Russes e reproduzidos com primor por Cristiane Luz e Manoel Puoci (cenA?rios) e Cassio Brasil, Sonja Gabriel e PatrA�cia Sato (figurinos) a�� com destaque tambA�m para a maquiagem de Ulysses Rabello e a bela iluminaA�A?o de AurA�lio De Simoni a��, esta montagem de Sheherazade transmite, de forma poderosa, a lubricidade exuberante da coreografia que chocou Paris hA? pouco mais de um sA�culo.

Grande parte da formosura do espetA?culo A� graA�as A� poderosa interpretaA�A?o da Buy Orquestra SinfA?nica do TMRJ. Sob a regA?ncia segura e precisa do jovem maestro Tobias Volkmann, a orquestra coloriu a Casa com todos os matizes da partitura de Korsakov, expressando sentimentos tA?o distintos como ardil, sensualidade e terror. Grande destaque para o spalla Carlos Mendes, que, em seu solo de violino em Sheherazade, inebriou o pA?blico com a sedutora melodia que representa a rainha a narrar seus contos.

Festa para olhos e ouvidos, com cenA?rios e figurinos impactantes; intA�rpretes em pleno domA�nio de suas tA�cnicas; e, principalmente, uma orquestra com alto poder de seduA�A?o, extraindo da partitura doses exatas de lirismo, perfA�dia, doA�ura e languidez, tornam o espetA?culo A�pera + BalA� mais uma forte razA?o para subir no tapete mA?gico e correr ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

 

Fotos: JA?lia RA?nai

 

Leia tambA�m as crA�ticas de Leonardo MarquesA�eA�Wellen Barros

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com