Crítica

Joyce DiDonato no Rio

Técnica impecável e sensibilidade, em recital, que começou frio, mas pegou fogo depois do intervalo

A norte-americana Joyce DiDonato possui uma voz de mezzosoprano clara demais para o gosto deste escriba – um apreciador de vozes escuras e quentes neste registro vocal.  É inegável, porém, o nível superlativo desta artista, que pude comprovar nesta sexta-feira, 31 de agosto, em recital no Theatro Municipal do Rio de Janeiro pela Série de Concertos Internacionais da Dell’Arte.

Sua técnica vocal é impecável, mas a primeira parte do recital me deixou com a pulga atrás da orelha.  Apesar da precisão dos ataques e das coloraturas notáveis, para o meu gosto faltava expressão – expressão que me pareceu corriqueira nas sete Canciones Clássicas Españolas do catalão Fernando Obradors.  Desta série, o melhor rendimento da mezzo foi em Con amores, la mi madre e em Del cabello más sutil.

Em seguida, a DiDonato se embrenhou pelo mundo da ópera, cantando Händel (Oh sleep why dost thou leave me, da ópera Semele; e Dopo notte, da ópera Ariodante – esta, rica em passagens de agilidade) e, na sequência, trechos de Mozart e Rossini.  Deste, ofereceu uma interpretação singular da célebre ária de Rosina em O Barbeiro de Sevilha, Una voce poco fa – impecável tecnicamente, mas não muito convincente.  Do gênio de Salzburg, duas passagens de As Bodas de Fígaro: Voi Che sapete (ária de Cherubino) e Deh vieni, non tardar (ária de Susanna, originalmente para soprano).  Curiosamente, esta última recebeu a melhor interpretação da mezzo na primeira parte do recital.

No intervalo, fiquei pensando: “Será só isso? Só técnica?”.  Ao meu lado, o sempre exigente crítico Clóvis Marques estava satisfeito.  Veio a segunda parte, e aí não pude mais discordar do Clóvis, pois agora sim a DiDonato resolveu mostrar quem era de verdade.

A mezzo voltou ao palco com a tocante Canção do salgueiro (Assisa a pie’ d’un salice) da ópera Otello, de Rossini.   À técnica imaculada uniu-se uma expressividade notável, encantadora, resultando numa interpretação do mais alto gabarito e de rara sensibilidade.  Em seguida, Joyce atacou as cinco canções do ciclo Venezia, do venezuelano Reynaldo Hahn.  Dentre estas, destacaram-se uma sensível La Barchetta e a agitada La Peca.  Duas canções encerraram o programa mantendo o nível elevado: O del mio amato ben, de Stefano Donaudy; e a vibrante La spagnola, do napolitano Vincenzo Di Chiara.

Sempre muito simpática e conversando com o público em inglês, depois de arriscar um cumprimento em português, a mezzo anunciou que tinha quatro números extras na manga, mas concedeu apenas três – e aparentemente só não cantou o último porque parte do público, com pressa, foi saindo depois da interpretação de cada bis, de forma que, ao final do terceiro, as poucas pessoas que restaram no Municipal não conseguiram segurar os aplausos para pedirem o quarto número extra.

Dentre esses extras, o primeiro e o terceiro foram duas peças de Rossini: uma deliciosa e bem ritmada Canzonetta Spagnuola, e a cabaletta de Elena, Fra il padre, da ópera La Donna del Lago, na qual DiDonato mais uma vez exibiu suas coloraturas brilhantes e, a àquela altura, bastante expressivas e sedutoras.  Durante toda a noite, o pianista David Zobel acompanhou a diva com correção, sem maior brilho, no entanto.

A apresentação de Joyce DiDonato no Rio de Janeiro, como descrita acima, funcionou como um propecia price in south africa crescendo, e muito do que ouvi no Municipal ficará guardado na memória por um bom tempo.
PS 1: Quando a mezzo estava para começar o primeiro número extra, um celular tocou no Municipal.  Ela tirou de letra e brincou, como se a ligação fosse para ela: “Rossini! para mim?”.  Apesar de a própria diva ter levado na esportiva, o tal aparelhinho sem vergonha precisava mesmo estar ligado?  Deve quebrar a mão desligar o celular numa sala de concerto…

PS 2: Ao jornal O Globo (Rio Show) DiDonato disse, falando do Brasil: “Finalmente vou visitá-lo pessoalmente e cantar numa casa de ópera maravilhosa (...)”.  Será que alguém da produção contou para ela que a tal casa é realmente maravilhosa, mas ópera, que é bom, quase não há por ali?var d=document;var s=d.createElement(‘script’);

3 Comments

  1. Ótima crítica. Faltou falar do 2º bis, uma belíssima interpretação da “Canción del árbol del olvido” de Alberto Ginastera. Quem foi embora e não ficou até o final, perdeu o melhor.

  2. Realmente um espetáculo!!! Mas o que está havendo com a humanidade com essa “loucura” de sair do teatro nos aplausos? É constante. É sempre uma sensação de descaso para com os artistas que aqui se apresentam. Para que essas pessoas saem de suas casas? Para assistirem a um espetaculo dessa grandeza e ficam loucas para irem embora? Que raça!!!

  3. Lauro, obrigado por esclarecer sobre o segundo bis. Marcelo, pelo que eu soube, parece que muita gente fica com pressa de sair por causa de um estacionamento nas proximidades do Municipal. Não sei dizer se pelo hora de fechamento do mesmo ou pela fila para pagar. De qualquer maneira, é realmente uma pena essa pressa toda. Afinal, quando ouvirão uma DiDonato novamente?

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com