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Joyce DiDonato e a opção pela paz

Criadores de grandes obras de arte retratam a atrocidade e o pandemônio lado a lado com a tranquilidade e a equanimidade há séculos, mostrando corajosamente nossa natureza brutal e nossa humanidade elevada. A arte unifica, transcende fronteiras, conecta os desconectados, elimina diferenças, acalma as turbulências, ameaça o poder e o ‘status quo’ e exalta gloriosamente o espírito. A arte é um caminho valioso para a paz”. (Joyce DiDonato)

 

A citação acima é parte do texto escrito pela mezzosoprano americana Joyce DiDonato no site do seu projeto “In War and Peace – Harmony through Music” (confira aqui) e reproduzida no programa distribuído pala Cultura Artística. Do projeto, fizeram parte um ótimo CD, lançado em novembro de 2016 pelo selo Erato, e uma série de concertos, que já alcançou mais de 40 cidades distribuídas em mais de 20 países. Finalmente, em turnê pela América do Sul, o grupo chegou a São Paulo na noite de 22 de outubro, como parte da temporada 2019 da Sociedade de Cultura Artística, para protagonizar aquele que é, sem dúvida, um forte candidato ao título de ‘espetáculo do ano’.

Tanto no CD, quanto nos concertos, DiDonato é acompanhada pela orquestra de câmara Il Pomo D’Oro, formada por jovens músicos e especializada em música barroca. Na direção musical, no cravo e no corneto, a orquestra conta com o também jovem e talentoso russo Maxim Emelyanychev que, para Joyce DiDonato, “traz uma energia de outros tempos” – como afirma no documentário introdutório ao vídeo do concerto, disponível para assinantes do canal Medici.tv (veja aqui).

 

Em meio ao caos, como você faz para encontrar a paz?

É essa a pergunta que nos é feita em diversos idiomas assim que entramos no site do projeto e também no programa, que veio acompanhado por um envelope contando dois cartões: um com uma mensagem de Joyce e outro em branco, para que pudéssemos escrever a resposta e depositar em uma urna. No site podem ser lidas diversas respostas, algumas das quais foram selecionadas para o encarte do CD, e outras impressas no programa.

Joe Winson, um encarcerado na penitenciária Sing Sing, NY, na qual Joyce já cantou, fala sobre a luz que revela o que estava escondido na escuridão; o maestro Riccardo Muti lembra que os músicos trazem “Harmonia, Beleza e Paz para o público”; uma pintora refugiada de oito anos de idade diz que encontra “paz e esperança em uma cidade chuvosa, onde os refugiados encontram receptividade e força para pintar girassóis”; o pianista András Schiff lembra o valor do silêncio nesse mundo tão ruidoso.

E assim seguem os depoimentos de pessoas tão diversas como detentos e juízes, refugiados e maestros, budistas e pianistas. No programa, Frederico Lohmann, superintendente da Cultura Artística, acrescenta sua taxativa resposta: “Através da Arte!”. DiDonato conta no documentário da Medici.tv que após muita reflexão chegou à sua resposta: ela encontra a paz “amando”.

No documentário e também em matéria de James Jolly, publicada na revista Gramophone em novembro de 2016, DiDonato lembra que estava se preparando para gravar árias desconhecidas de compositores napolitanos antigos. Parecia-lhe, porém, mais executando um exercício acadêmico do que algo inspirador. Nessas alturas, em 2015, aconteceram os ataques em Paris. Sentiu-se compelida a, através da música, falar algo sobre o que estava acontecendo. Diante de seu piano, resolveu refletir sobre guerra e paz.

A ideia do projeto é, segundo ela conta no documentário, a partir de obras compositores como Händel e Purcell, mostrar que se percorrermos as trajetórias, repletas de guerra e paz, dos grandes personagens das óperas de séculos atrás, veremos que todos eles tiveram que fazer escolhas. Alguns optaram pelo caos, pela violência, enquanto outros buscaram alívio, escolheram um caminho diferente. O objetivo é lembrar a cada um que cruze o caminho desse projeto que “nós temos uma escolha a fazer, nós não temos que ser apenas as vítimas das circunstâncias”.

 

Da guerra à paz

O que Joyce DiDonato apresentou em São Paulo não foi um tradicional concerto de canto lírico, mas um espetáculo artístico completo. Como apontou no referido documentário, queria surpreender, chocar a sua audiência, fazer com que, no início, as pessoas se sentissem um pouco desconfortáveis, nervosas mesmo, já que quando estamos nervosos ficamos em estado de alerta, atentos.

Ao entrar na Sala São Paulo, o público já se deparava com um cenário um tanto diferente do usual. A sala estava mais escura que o habitual, a iluminação azulada do espetáculo já estava acesa, havia um pouco de fumaça, sons graves e persistentes, como de trovões ou bombardeio ao longe, uma atmosfera sombria. Era como se o espetáculo já estivesse em curso. E era essa a ideia. Segundo DiDonato, o concerto é apenas a continuação do que vemos no noticiário, na rua, “não há começo ou fim para esse concerto”.

Havia, ainda, duas figuras no palco. Ao fundo, do lado direito, alguém imóvel. Seria a própria Joyce ou um boneco de cera feito à sua imagem? De vestido cinza escuro, com algum brilho, trazia pinturas no rosto, no busto e nos braços. Pinturas escuras que remetiam a hematomas, sangue, ferimentos.

Na frente do palco, do lado esquerdo, um homem deitado de costas para a plateia, com o troco nu, também imóvel. Com certeza outro boneco, disseram alguns. Os dois são bonecos!

Guerra!

 

Guerra!

A polêmica e a curiosidade acabaram assim que as portas se fecharam e, sem que soassem no alto-falante o tradicional terceiro sinal ou os avisos de sempre, a orquestra entrou no palco e começo a entoar os primeiros acordes de “Scenes of horror, scenes of woe”, de Jeptha, de Händel. Como Storgé, esposa de Jeptha, acordando de um sonho premonitório, Joyce moveu-se, levantou-se e dirigiu-se gravemente ao centro do palco cantando: “Um acontecimento terrível paira sobre as nossas cabeças…”.

Também o bailarino se levantou e começou a atuar. Último oratório de Händel, que ele compôs em 1752, já quase cego, lutando contra a escuridão, Jeptha narra o episódio bíblico do capítulo 11 do livro de Juízes. “Se entregardes os filhos de Amon nas minhas mãos, aquilo – seja o que for – que sair da porta da minha casa ao meu encontro quando eu voltar vitorioso dos filhos de Amon, será do Eterno, eu o oferecerei em oferta de elevação!”, jurou Jeptha nos versículos 30 e 31 (segundo a tradução de David Gorodovits).

Ao regressar vitorioso, quem saiu da porta de sua casa ao seu encontro foi a sua filha única. Na canção interpretada por DiDonato, Storgé nada sabia sobre a promessa do marido, que sequer havia retornado, mas ela já pressentia uma tragédia. Com maestria, DiDonato marcou o contraste, típico do barroco, entre a primeira estrofe, sombria, e a segunda, vigorosa, em que Storgé se aterroriza com as cenas de horror que antevê.

Como as árias – cantadas de forma contínua, sem interrupção ou aplausos – não foram escolhidas aleatoriamente, a seguinte parecia concretizar o pressentimento de Sorgé. Em “Prendi quel ferro, o barbaro!”, de Andromaca (1742), do napolitano Leonardo Leo, a personagem-título, que após a morte de seu marido Heitor em Troia era mantida prisioneira juntamente com seu filho Astianax, desespera-se ao descobrir que os gregos queriam que Astianax lhes fosse entregue para que o pudessem matar.

Eles temiam que, ao atingir a idade madura, o rapaz resolvesse vingar a morte do pai. Todo o desespero e a revolta de uma mãe que vê tal ameaça pairar sobre o seu filho foi transmitido por DiDonato através de um canto vigoroso, quase gritado. Os momentos de revolta foram alternados com chorosas referências ao filho. Certamente essa ária inédita é uma sobrevivente da abandonada ideia de gravar árias napolitanas desconhecidas.

Cheguei a crer que, no curto intervalo que separou a ária dos números instrumentais seguintes, o público explodiria em aplausos. Na quarta-feira, isso de fato ocorreu, mas na terça-feira, estavam todos de tal forma hipnotizados que não se ouvia qualquer som vindo da plateia, nem de aplausos, nem de tosses.

Com a tragédia ainda suspensa no ar, foi-nos oferecido um momento para digerir todos aqueles sentimentos. O excelente grupo Il Pomo D’Oro, com solos de corneto de Emelyanychev, interpretou a sinfonia do primeiro oratório composto de que se tem notícia, “Rappresentatione di anima e di corpo”, de Emilio de’ Cavalieri, que estreou em Roma, em 1600, na qual emendou a Ciaconna em sol menor para três violinos e baixo contínuo, de Purcell, que já servia de introdução ao próximo número, do mesmo compositor, aquele que é o lamento dos lamentos.

Com o Lamento de Dido, da ópera Dido e Aeneas (1689), que interpretou de forma lindamente sombria, introspectiva, usando um véu e provocando certo incômodo naqueles que buscavam a comparação com a paradigmática interpretação de Jessye Norman, DiDonato, permaneceu vivenciando as consequências da Guerra de Tróia. Após a partida de Aeneas, que havia passado por Cartago após a queda de Troia, a Dido, abandonada, humilhada e cansada, só restava a morte.

Um dos mais emblemáticos e belos exemplos de lamento, o acompanhamento se repete de forma obstinada, o basso ostinato típico dos lamentos, para o qual não há melhor definição do que a audição atenta à linha instrumental. No documentário da Medici.tv, DiDonato conta que diante de seu piano, elaborando o projeto sobre guerra e paz, foi o Lamento de Dido, que havia tempo estava pensando em cantar, o primeiro a surgir.

Como Dido, Agrippina, protagonista da ópera homônima de Händel que estreou em 1709, é atormentada por seus pensamentos (DiDonato aponta que o solo do oboé, que ela sente como se estivesse soando dentro de sua cabeça, representa o tormento desses pensamentos). Contudo, ao contrário de Dido, Agrippina vê que pôr fim à própria vida não é a solução e opta por partir para a ação. Agrippina aspira fazer de Nero, seu filho do primeiro casamento, o sucessor do imperador Claudio, seu atual marido, e luta por isso, utilizando-se de métodos nem sempre muito nobres.

Em setembro, DiDonato interpretou, com grande sucesso, o papel na Royal Opera House, em Londres. Em São Paulo, foi um dos momentos mais requintados da noite: logo na primeira nota, a excelente mezzo executou uma longa, bem marcada e sustentada messa di voce – ou seja, ela fez um crescendo e, em seguida, um diminuendo enquanto sustentava a primeira nota, correspondente à primeira sílaba da palavra pensieri. No restante da ária, o virtuosismo que demonstrou nas coloraturas foi de altíssimo nível.

Preparando outro momento de introspecção e reflexão que estava por vir, no número instrumental “Tristis est animam mea”, de Carlo Gesualdo, o grupo Il Pomo D’Oro, em que cada membro é um bom solista, demonstrou toda a pureza de seu som.

Foi outro célebre lamento que encerrou a parte do recital dedicada à guerra e preparou o terreno para a paz: “Lascia ch’io pianga”, de Rinaldo (1711), outra ópera de Händel. Raptada, presa, Almirena chora sua sorte cruel, mas não deixa de ter esperança de tornar a ser livre. Momento profundamente poético, foi um dos pontos altos do concerto.

Sentada no chão, meditativa, DiDonato repetiu calma e sensivelmente, como um mantra, a primeira estrofe: “Lascia ch’io pianga mia cruda sorte, e che sospiri la libertà”. A cada repetição, porém, um novo ornamento, um novo sentimento era revelado. Como observa DiDonato no documentário, embora a solução ainda não esteja clara, nessa canção Almirena se entrega, deixa de resistir, permitindo a entrada da luz. E assim é aberta a porta para a paz, que domina a segunda parte do espetáculo.


Paz

 

Paz!

Como Almirena, também Orazia está presa em “They tell us that you mighty powers”, da ópera The Indian Queen (1664), de Purcell. Internamente, no entanto, ela encontra a sua força e a sua liberdade. Faz a sua opção por ser livre, inclusive para amar Montezuma e ser por ele amada: “Sofrer por ele ameniza as minhas penas, há alegria no meu sofrimento, e há liberdade nas grilhetas.” Ainda de vestido cinza, mas agora um cinza claro, esvoaçante, brilhoso, que remete à água, ao ar, DiDonato nos aponta o possível caminho de escolher a paz. Em seu corpo, não havia mais a pesada pintura que caracterizava a guerra: estava limpa, leve.

Nas bucólicas “Crystal streams in murmurs flowing”, “Augelletti, che cantate”, ambas de Händel, pertencentes às óperas Susanna e Rinaldo, respectivamente, é sentido o papel da natureza na construção da paz. Riachos fluindo, brisas, fragrância do jasmim, pinheiros, pássaros cantando… todos esses elementos caros aos dramas pastorais mostram seu valor na luta contra o caos.

Os passarinhos (augelletti) que cantavam ganharam vida através do solo de flauta de Anna Fusek (flautista e violinista!), que, para alegria do público, incluiu em seu improviso citações de canções brasileiras. Entre as duas árias, Il Pomo D’Oro tocou uma composição contemporânea: “Da pacem, Domine”, de Arvo Pärt. Foi extremamente interessante ver o quão bem soou a obra contemplativa de Pärt na orquestra barroca.

Como paz não é sinônimo de marasmo, com a agitada e repleta de coloraturas “Dopo Notte”, de Ariodante (1735), de Händel, que não faz parte do CD, DiDonato encerrou a parte oficial do concerto. Nela, a personagem título resume o caminho percorrido pelo espetáculo: “Depois da noite, sombria e funesta, brilha no céu mais belo o sol, e enche a terra de alegria”.

Nos extras, DiDonato continuou a semear a paz. O primeiro foi “Par che di giubilo” da ópera Attilio Regolo (1753), de Niccolò Jommelli, mais um napolitano provavelmente oriundo do projeto abortado. Aqui, quem canta jubilosa é Attilia, filha do personagem-título, que alerta que é mais fácil morrer sob o golpe de grande alegria do que de uma grande dor.

Após fazer alguns comentários sobre o projeto, com tradução para o português do violinista brasileiro Edson Scheid, que toca na orquestra, DiDonato encerrou o concerto com a linda canção “Morgen” (1894), de Richard Strauss. Acompanhada pelas cordas da orquestra, foi impressionante ver a transição sonora do barroco para o romantismo, o corpo, o peso, que as cordas, que passaram a utilizar o vibratto, subitamente adquiriram. Com uma interpretação linda, profunda, DiDonato quis terminar o concerto com a mensagem de que por mais escura que seja a noite, “amanhã o sol voltará a brilhar”.

 

Conclusão

Conforme já observado, foi um espetáculo completo. Contou com a direção de palco de Ralf Pleger, com a bela iluminação de Henning Blum e com a coreografia e dança de Manuel Palazzo, remetendo à importância da dança no barroco.

É importante observar que DiDonato nos levou da guerra à paz apenas através de mulheres. Tratando-se de uma mezzosoprano, se o repertório estivesse focado, digamos, no romantismo italiano, essa observação seria praticamente desnecessária. Trata-se, contudo, do barroco, onde há diversos papéis masculinos interpretados por mulheres. Na guerra, mulheres atormentadas, presas, mães desesperadas. Na paz, mulheres seguras, alegres, aliviadas.

Quanto à paz, foram apresentadas diferentes modalidades. A paz de Almirena, conquistada interiormente à revelia dos conflitos externos; a paz bucólica de “Crystal streams in murmurs flowing”, “Augelletti, che cantate”, idealizada, ligada à natureza, mais dependente de fatores externos; a paz oriunda do alívio de quem acabou de sobreviver a uma situação de perigo, como no caso de Ariodante em Dopo Notte; a paz jubilosa, agitada, de Attilia e a paz profunda, esperançosa, de Morgen.

DiDonato aponta também o caráter político de seu projeto: os concertos começaram na semana seguinte à eleição de Donald Trump e essa última parte da turnê terminará em Whasington DC. A cantora adverte, porém, que transformar o espetáculo em um manifesto não é sua ideia.

De fato, não se trata de um espetáculo panfletário, de verdades absolutas e simplistas atiradas ao público. O que Joyce DiDonato fez foi nos guiar do caos, dos conflitos, para a paz; nos mostrar que é possível optar pela paz e, mais que isso, nos apontou o caminho. E tudo através de sua arte. Como escreveu na citação acima, a arte “transcende fronteiras, conecta os desconectados, elimina diferenças, acalma as turbulências, ameaça o poder e o “status quo”. Em resumo, é “um valioso caminho para a paz”. Será por isso que a arte é tão demonizada pelos poderosos e adeptos do autoritarismo?

 

Fotos: Brooke Shaden.

 

Fabiana Crepaldi
Doutora em Física pela Unicamp. Frequentadora assídua de óperas e concertos, tem se dedicado ao estudo da história da ópera. Traduziu para o português o libreto da ópera “Tres Sombreros de Copa”, de Ricardo Llorca. Já fez cursos de canto e de curta duração sobre ópera.