CríticaLateralÓperaRio de Janeiro

Joia da Coroa Portuguesa

Ópera de Marcos Portugal, em excelente performance da OSB, rende deliciosos momentos em récita no Municipal do RJ.

 

Em 1804, estreou, no Teatro São Carlos, em Lisboa, a ópera O ouro não compra o amor, composição de Marcos António da Fonseca Portugal (Lisboa, 24/03/1762 – Rio de Janeiro, 17/02/1830), prolífico organista, maestro e compositor luso-brasileiro. A mesma obra foi apresentada no Rio de Janeiro em 1811, por ocasião do aniversário de D. Maria I.

Para celebrar os 250 anos do nascimento de Marcos Portugal, compositor oficial da Corte de Dom João VI e Mestre de Música de Suas Altezas Reais os Infantes, a Orquestra Sinfônica Brasileira, sob regência de Bruno Procópio, realizou versão de concerto da ópera na noite de 10 de dezembro, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, como parte da série OSB Ópera & Repertório.

Composta com a pena da galhofa, O ouro não compra o amor é peça de grande charme. Extremamente bem escrita, no melhor estilo do bel canto italiano (com todo o texto nesse idioma, inclusive), foi, para muitos, inspiração para O barbeiro de Sevilha (composta por Rossini em 1816) – verdade seja dita, há muitas semelhanças. A trama é trivial: conta a história do Barão Alberto de Moscabianca, que tenta seduzir a donzela Lisetta, prometida de Giorgio, usando sua condição financeira. Ao fim da história, o nobre percebe que o ouro não compra o amor. Ele tem seu dinheiro devolvido, e a moçoila e seu ex-noivo se reconciliam.

 

Gemas reluzentes

A récita da obra de Portugal faz jus à palavra italiana giocare, que, em português, pode ser traduzida tanto por tocar como por brincar. A recente apresentação, mesmo visivelmente precedida por um trabalho sério e dedicado, foi uma grande diversão.

O regente Bruno Procópio imprimiu perfeita dinâmica ao concerto, acertando em absolutamente todos os andamentos e intenções, e mantendo a performance da Orquestra Sinfônica Brasileira em um nível de excelência – fato que vem se repetindo a cada apresentação do grupo, colocando a OSB entre as melhores orquestras do país.

Grande acerto também foi a escolha dos cantores. As vozes masculinas soaram magistrais: à frente, o tenor Geilson Santos (Barão Moscabianca) e o potente barítono Leonardo Páscoa (Giorgio) – que brilhou especialmente na graciosa ária Cittadini forastieri, do segundo ato, acompanhado por violinos em pizzicatto. Nos coadjuvantes, Anibal Mancini (Cecchino, irmão de Lisetta), tenor de voz brilhante; e os ótimos baixo-barítonos Manuel Alvarez (Pasquale, pai) e Daniel Soren (Casalichio). Como apoio luxuoso no coro, Luiz Henrique Furiati, Luiz Ricardo Lopes e Victor Borborema.

Ainda brilharam as cantoras Veruschka Mainhard (Carlotta), soprano, e Andressa Inacio (Dorina), mezzo de belo timbre. Mas coube ao soprano Marianna Lima o resplandecente protagonismo. Sua Lisetta emanava humor e jocosidade, e a intérprete, com presença de espírito, soube aproveitar as deixas para arrancar boas risadas da plateia. Para citar um dos momentos inesquecíveis, a ária Quel piacere, no primeiro ato, ilustrada por bonitas intervenções do oboé.

As orquestrações de Portugal são ricas e lançam mão das inúmeras potencialidades dos instrumentos da orquestra. Colorido há também na exploração das características dos timbres dos cantores, em especial nos exuberantes ensembles, como o do final do primeiro ato, que instaura o imbróglio. Diante desse fausto musical e das possibilidades artísticas que a obra guarda, permanece uma dúvida: por que a ópera O ouro não compra o amor não está, como deveria, também nos melhores palcos mundo afora?

 

7 Comments

  1. Caro Fabiano Gonçalves, muito obrigado pela sua corretíssima resenha de nossa apresentação da ópera “O ouro não compra o amor”, de Marcos Portugal.
    Permita-me apenas fazer uma retificação importante: quem interpretou a bela partitura de Marcos Portugal foi a Orquestra Sinfônica Brasileira Ópera & Repetório, ou, com chamamos, a OSB Ópera & Repertório. Esse foi o corpo orquestral que criamos após a crise que atingiu a Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira (FOSB) em 2011.
    Realmente, a OSB Ópera & Repertório vem demonstrando ser uma das melhores orquestras do país. No Rio de Janeiro, vem sendo chamada de “a sensação da atual temporada”.
    Abração,
    Fernando Bicudo
    Diretor Artístico da Temporada 2012 da FOSB

  2. Prezado Fabiano.
    Todo conhecedor do mundo operístico sabe que o grande influenciador de Rossini e também do Marcos Portugal, foi Domenico Cimarosa. Portugal não criou nada de novo e musicalmente falando, é de uma mediocridade total. Cimarosa morreu em 1801. Ouça uns trechos de óperas ou mesmo da música de câmara de Cimarosa aí você vai descobrir quem é quem.
    Abraços.

  3. Caro Fernando, fico honrado com sua visita ao Movimento.com e grato por seus esclarecimentos. Um abraço e até a próxima!

  4. O Sr Lauro Gomes tem toda a razão quando fala da importância de Cimarosa na sua influência sobre Marcos Portugal e Rossini. No entanto, as execuções das óperas de Marcos Portugal nos últimos anos (“As damas trocadas”, em Lisboa e Londres, em 1994, no Rio, em 2008; La pazza giornata, o sia il matrimonio di Figaro”, em Inglaterra, em 2010 e julho deste ano; “O basculho de chaminé”, em Lisboa e Curitiba, respetivamente em março e novembro deste ano; e agora “L’oro non compra amore”), têm mostrado claramente que o seu compositor não é “uma mediocridade total”. Antes pelo contrário, o entusiasmo pela música quer da parte dos músicos, quer da do público (resultando em repetições das mesmas óperas) é o que mais impressiona. Apreciam entre outras coisas o que Marcos Portugal contribuiu para o género, que ainda não se encontra em Cimarosa (especialmente a paleta de timbres orquestrais e a vivacidade dos ensembles – também muito referidas nas recensões da imprensa da época), e que Rossini, posteriormente aproveitou.

  5. Assisti à sua palestra na UNIRIO, acabei perdendo a data da ópera, mas andei pesquisando muitas coisas dele pela internet e gostei bastante. Não é medíocre coisa nenhuma, e realmente me lembra muito Cimarosa! E não criar nada de novo não tem nada de ruim ou desagradável… pelo contrário, é musica muito gostosa de se ouvir.

  6. Marcos Portugal marcou decisivamente a música brasileira. Os quatro compassos iniciais do “Gloria” da sua “Missa Breve” são exatamente os compassos iniciais do Hino Nacional Brasileiro; além disso, como compositor da corte de D. João VI, ditou os gostos e influenciou o estilo dos compositores que o sucederam. Mas porque a maioria das composições dele permanecem manuscritas, tachá-lo de medíocre é uma conclusão precipitada.

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com