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Jessica Pratt faz bom concerto no Rio

Substituindo praticamente na última hora a soprano Hibla Gerzmava, que não pôde vir ao Rio de Janeiro em virtude de um problema de saúde, a soprano inglesa Jessica Pratt apresentou-se no feriado de 15 de novembro no Theatro Municipal, encerrando a temporada 2019 da série “Grandes Vozes no Rio de Janeiro”.

Inicialmente, Gerzmava ofereceria ao público carioca um repertório mais “pesado” que aquele apresentado por Lisette Oropesa no concerto anterior da mesma série, realizado em 13 de outubro – o que certamente criaria um contraste bem-vindo e até mesmo necessário. Com a substituição, no lugar do contraste, acabou surgindo, na verdade, uma inevitável comparação, já que Pratt, tal qual Oropesa, caracteriza-se pelo registro de soprano lírico-coloratura.

E assim sendo, e considerando também que ambas são cantoras experientes, que se apresentam em importantes palcos internacionais, dotadas de técnica refinada e de vozes muito bem treinadas, o gosto pessoal acaba contando mais que qualquer outra coisa na hora de se fazer a comparação. Considerando exclusivamente os concertos das duas artistas no Rio, Oropesa fez uma apresentação mais regular, com praticamente todas as peças muito bem defendidas, ao passo que Pratt oscilou entre peças cantadas maravilhosamente em meio a outras apenas corretas. Nada disso, porém, invalida a boa apresentação da artista inglesa.

A soprano iniciou a sua participação no concerto com a ária Casta diva, da ópera Norma, de Vincenzo Bellini. Aqui, já se pôde notar uma técnica de agilidade primorosa e afinação irrepreensível, ainda que a peça exigisse voz mais densa, mais pesada, sem abrir mão da agilidade. A passagem seguinte, a ária Ah, fors’é lui, seguida da cabaletta Sempre libera, de La Traviata, de Giuseppe Verdi, foi interpretada (com a participação do tenor Eric Herrero) com grande correção, ainda que não tenha chegado a encantar este autor.

Esse encantamento pendente chegou finalmente em Ah, non credea mirarti, seguida da cabaletta Ah, non giunge, sequência que encerra a ópera La Sonnambula, de Bellini. Aqui, sim, Jessica Pratt exibiu-se como uma cantora do mais alto nível, utilizando sua técnica irrepreensível a serviço da expressão, valorizando o fraseado e alcançando uma clareza de emissão raramente vistas.

A segunda parte do concerto foi praticamente uma repetição da primeira metade, com as duas primeiras peças servindo de aquecimento para o grande momento final. A soprano retornou ao palco com uma corretíssima interpretação de Les oiseaux dans la charmille, a conhecida “ária da boneca” da ópera Les Contes d’Hoffmann, de Jacques Offenbach. Como a própria ária exige, Pratt recorreu a alguns movimentos característicos de um autômato para enriquecer a sua performance.

Em seguida, repetiu uma passagem já interpretada por Lisette Oropesa no concerto anterior da série, a ária Qui la voce sua soave e a cabaletta Vien diletto, de I Puritani, de Bellini. Aqui, especialmente, embora as notas estivessem todas no lugar, o nível de expressividade ficou aquém daquele empregado pela sua colega norte-americana. O grande momento do concerto, porém, ainda estava por vir…

E chegou com a cena da loucura de Lucia di Lammermoor, de Gaetano Donizetti. Desde Il dolce suono, Jessica Pratt demonstrou que estávamos diante de uma performance arrebatadora, e esta sensação se confirmou logo em seguida, na passagem Ardon gli incensi, onde se encontra o célebre acompanhamento da flauta solista. A dosagem inteligente da emissão, a afinação imaculada, a expressão de sentimentos, tudo contribuiu para uma interpretação inesquecível, daquelas que se deve guardar na memória por muitos e muitos anos. A grande ovação do público foi justificada diante de tamanha perfeição, a tal ponto que a cabaletta interpretada depois desses aplausos, Spargi in amaro pianto, não chegou a impressionar tanto.

Ao contrário dos cantores que se apresentaram antes nesta série (Vittorio Grigolo, Michael Fabiano e Lisette Oropesa), Jessica Pratt não preparou números específicos para o bis, e repetiu duas passagens que já havia interpretado: Sempre libera (novamente com a participação de Eric Herrero), da Traviata verdiana, e Ah, non giunge, da Sonnambula belliniana. Esta segunda peça, interpretada com ainda mais verve que da primeira vez, culminou em um agudo () que deve ter levado muitos dos presentes, justificadamente, a orgasmos auditivos.

 

Orquestra entre altos e baixos

Conduzida por seu regente titular, Ira Levin, a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal acompanhou bem a soprano ao longo da noite, com destaque para o solo de flauta na cena da loucura que encerrou o programa oficial. O conjunto ofereceu também seis números exclusivos, começando pela Abertura da ópera Il Guarany, de Carlos Gomes. Apesar da boa dinâmica empregada pelo regente, seria impossível não apontar problemas de articulação e falhas de afinação (especialmente nos metais).

Se o Prelúdio do terceiro ato de La Traviata apresentou-se mais satisfatório, foi na Alvorada da ópera Lo Schiavo, novamente de Carlos Gomes, que a orquestra ofereceu o seu melhor desempenho em todo o concerto, com a articulação mais bem trabalhada, boa sonoridade e bom nível expressivo.

Já na Abertura da ópera Le Siège de Corinthe (mais conhecida por seu título italiano, L’Assedio di Corinto), de Gioachino Rossini, os problemas de articulação e afinação voltaram a aparecer, com “destaque” negativo para as trompas. O Adagietto da Suíte L’Arlésienne n. 1, de Georges Bizet, foi muito pouco expressivo, ao contrário do Prelúdio do terceiro ato da ópera La Wally, de Alfredo Catalani, que encerrou bem as peças exclusivas da orquestra.

 

As grandes vozes de 2020

A série “Grandes Vozes no Rio de Janeiro” é uma parceria do Theatro Municipal com a empresa Grandes Vozes, e, além de oferecer ao público carioca apresentações de importantes cantores internacionais, inclui ainda em seu escopo uma vertente sociocultural, com a realização de master classes para jovens cantores líricos brasileiros; com apresentações em escolas públicas para alunos que estudam música; e, não menos importante, ainda leva crianças de escolas públicas ao Municipal em cada um dos concertos da série.

Se esse primeiro ano já teve um saldo bastante positivo, a programação da série para 2020 promete ainda mais. Confira a agenda de cinco concertos:

15 de março: Sondra Radvanovsky (soprano)

03 de maio: Benjamin Bernheim (tenor)

14 de junho: Pretty Yende (soprano)

16 de agosto: Anita Rachvelishvili (mezzosoprano)

13 de outubro: Maria Agresta (soprano)

 

Fotos cedidas por Grandes Vozes

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com