Artigo

Imperdoável omissão

Minha casa vive cheia de  gente  da  música. De vez em quando, alguém se esquece de levar de volta um seu pertence.

Desta vez, alguém não levou de volta o livro “ÓPERA”, dos autores Alan Riding e Leslie Dunton-Downer, original em inglês traduzido pelo virtuose do assunto Clóvis Marques, editado no RJ (?) em 2010 por ZAHAR. O livro se intitula “guia ilustrado”, com “compositores, sinopses, cantores e montagens” e é dividido em partes: introdução à ópera, de Monteverdi a Mozart, a ópera italiana, a ópera germânica, a ópera francesa, russa, tcheca e mais. Quase todos os compositores e títulos importantes são citados.

Não há no entanto, no capítulo “a ópera italiana”, a menor referência nem a Carlos Gomes, nem a seu Guarany, nem a suas outras óperas, nem às suas importantes presença e influência, nem a seus estrondosos sucessos. Carlos Gomes foi o compositor de óperas italianas  mais representado na Scala, depois de Verdi, durante toda uma década referencial na história da ópera italiana.

Seu Guarany mereceu doze récitas na Scala em 1870, quinze em 1871 e, logo em seguida, percorreu o mundo todo. Sua Fosca mereceu mil e um elogios da crítica em 1873, seu Salvator Rosa recebeu  dezenove fulgurantes récitas na estreia em Genova em 1874 e abriu (!!) a temporada 1874/1875 da Scala com espetaculares quinze récitas. A opinião dos grandes musicólogos internacionais é unânime: Harold Rosenthal define Carlos Gomes como “O PRINCIPAL TRAÇO DE UNIÃO ENTRE A ÓPERA PÓS-ROMÂNTICA ITALIANA DE OBEDIÊNCIA VERDIANA E OS PRIMEIROS PASSOS DA JOVEM ESCOLA.” Notem bem: “O PRINCIPAL” e não UM dos principais (GUIDE  DE L´OPERA, FAYARD, PARIS, 1983).

John Warrack assina embaixo, na mesma obra. Julian Budden aponta primazias na obra de Carlos Gomes (The New Oxford History of Music, Milan, Feltrinelli, 1991), e o coloca ao lado de Ponchielli como elemento de ligação entre os dois citados períodos da ópera italiana. Rosenthal e Budden são tidos como alguns dos maiores musicólogos dos nossoa dias.

Se insistirmos em enumerar musicólogos e historiadores da música que colocam Carlos Gomes em posição de destaque na ópera italiana no citado período de transição (e mesmo depois) e as obras desses autores, a lista será longa demais, o que foge ao espírito deste pequeno artigo.

Vamos, no entanto, insistir em que a omissão de Carlos Gomes na evolução do melodrama italiano é imperdoável já no original em inglês do livro citado, e mais que imperdoável em uma edição feita no Brasil, traduzida por ilustre conhecedor do assunto. Com essa tradução do “guia” da ópera  da Zahar em mãos, o pobre leitor brasileiro lerá referências a compositores e óperas muito menos relevantes que Carlos Gomes e suas óperas. O noviço pensará que, em matéria de ópera, Carlos Gomes nunca existiu. Uma pena essa omissão, pois o livro é de agradável leitura, cheio de informações e de notáveis e belíssimas ilustrações, extraordinariamente bem traduzido e de excepcional aspecto gráfico.

“LA FOULE PROSTERNÉE LA REGARDE ETONÉE/ ET MURMURE TOUT BAS:VOYEZ,C´EST LA DÉESSE”. (LES PÊCHEURS  DE PERLES, BIZET/CORMON/CARRÉ.
MARCUS GÓES – ABRIL 2013

 

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Marcus Góes
Musicólogo, crítico de música e dança e pesquisador. Tem livros publicados também no exterior. Considerado a maior autoridade mundial sobre Carlos Gomes.