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“Ilumina Festival” traz Cultura a São Paulo

O milagre musical resultante de dez dias de verdadeira convivência entre novos talentos e músicos renomados.

 

Ainda me lembro da grata surpresa quando, no início de janeiro de 2018, recebi um e-mail da Cultura Artística anunciando uma série de concertos de câmara a se realizar no MASP. Em princípio não entendi do que se tratava, não entendi os títulos dos concertos, exceto um: “Winterrise: Jornada Solitária”. Nesse caso ficou bem claro que, naquela tarde de sábado, o renomado baixo Mathew Rose interpretaria Winterrise, de Schubert. Fui especificamente para esse evento.

Passados quatro anos, ainda me lembro da voz quente e profunda de Rose nos guiando pela gélida jornada solitária de Schubert. Terminado o concerto, pronta para ir embora, a equipe da Cultura Artística, que naquele quarto ano do Ilumina Festival participou da sua realização, me explicou do que se tratava e sugeriu que eu ficasse para o concerto da noite. Aceitei a sugestão, assisti ao concerto intitulado “Fronteira Final: jornada do amor” e voltei no dia seguinte para ver “Para onde vamos? Jornada da alma”.

Nesses dois concertos pude entender o espírito do Ilumina Festival. Descalços, literalmente com os pés no chão, os músicos entram e saem do palco, de modo a haver uma continuidade entre os números musicais. Misturando jovens músicos latino-americanos a solistas internacionais que já contam com renome e carreira sólida, a violista norte-americana Jennifer Stumm, diretora artística e idealizadora do evento, promove um verdadeiro milagre musical.

Como bem observou Stumm no concerto de encerramento da edição 2020 do festival, no último domingo, 12 de janeiro, na Sala São Paulo, o Ilumina não é apenas um festival, mas uma convivência. Os concertos que vemos em São Paulo durante três dias seguidos são resultado de uma semana de experiência musical em comunhão com a natureza, na Fazenda Ambiental Fortaleza, em Mococa. Ao todo, são dez dias de convivência, música e exercício da criatividade. A prova do êxito dos dias de retiro dos músicos pode ser conferida na agitada capital: para fazer música de câmara, não bastam talentos individuais, mas é preciso que haja entrosamento, cumplicidade, e é o que se verifica.

Os concertos da edição 2020 do Ilumina foram realizados no Theatro São Pedro, no Teatro de Contêiner Mungunzá e na Sala São Paulo (encerramento), e contaram com 24 jovens talentos latino-americanos e 12 solistas internacionais. Dentre esses solistas, não poderia deixar de destacar a fantástica violinista holandesa Liza Ferschtman, que, no concerto de sábado, no Theatro São Pedro, encabeçou dois momentos mágicos, talvez os dois pontos altos da edição 2020: With a Blue Dress On para 5 violinos, da compositora norte-americana Julia Wolfe, e o monumental Septeto Op. 20, de Beethoven, no ano que marca os 250 anos do nascimento do compositor.

A primeira peça abriu uma série dedicada a compositoras, quase todas americanas e jovens, com duas exceções: Hildegard von Bingen (1098-1179), da qual foi tocado um arranjo para violas de seu Laus Trinitati, e Rebecca Clarke (1886-1979), inglesa que imigrou para os Estados Unidos na época da Segunda Guerra Mundial e que teve sua Sonata para Viola e Piano de 1919 interpretada por Jennifer Stumm e Marianna Shirinyan.

Se o Septeto de Beethoven dispensa apresentações – basta dizer que foi tocado com tanta alma que adquiriu vida –, With a Blue Dress On tem a cara do Ilumina. O vigor característico de Ferschtman contagiou o grupo de violinistas (Ferschman, Tai Murray, Yura Lee e as jovens Monique Cabral e Maressa Portilho). As artistas não tocaram apenas violino (como se isso fosse pouco!), mas a música invadiu completamente seus corpos: sem deixar que o violino esmorecesse, bateram os pés conforme a música e, muitas vezes, cantando.

Na noite anterior, também no acolhedor Theatro São Pedro, o grande destaque havia ficado para o Sexteto de cordas em Si Bemol maior, Op. 18, de Brahms. Tendo o excelente Anthony Marwood no primeiro violino, o sexteto contou ainda com Tai Murray, Jennifer Stumm, Lars Anders Tomter, Christian Poltéra e, no violoncelo, o jovem brasileiro Guilherme Moraes. Entre o público pairava uma certeza: nunca haviam ouvido ao vivo essa bela peça de Brahms.

O lotado concerto de encerramento, na Sala São Paulo, foi dividido em duas partes: Ouvir e Escutar. Para Jennifer Stumm, no mundo em que vivemos hoje é importante lembrar que não basta ouvir o outro, mas também é preciso escutá-lo. Sem dúvida o ponto alto foi a Sonata para Violino e Piano N. 9, Op. 47 (Kreutzer), de Beethoven.

Como são a música e a convivência que orientam o Ilumina, e não as convenções, cada movimento foi executado por um violinista diferente. Desse modo, a ótima pianista Marianna Shirinyan acompanhou as vigorosas e virtuoses Tai Murray e Yura Lee nos movimentos extremos, e, no central, Anthony Marwood, que com naturalidade emitiu som limpo e preciso e um fraseado poético. Foi uma única sonata com três movimentos, três violinos, três vivências musicais, três temperamentos, permitindo ao público aplaudir à vontade, e com um bom motivo, após cada movimento.

Do concerto de encerramento, outra peça rara merece destaque: a divertida Sonata para Dois Clarinetes, de Poulenc. Além da deliciosa música, o destaque vem do fato de ter havido um equilibrado dueto entre um mestre e um já veterano estudante do Ilumina: Matthew Hunt e Victor Hugo Rego, respectivamente.

Se o meu primeiro contato com o Ilumina foi em 2018, foi no ano de 2019 que o projeto conquistou os corações “concertantes” de São Paulo: no dia 30 de abril do ano passado, pela temporada da TUCCA, o Ilumina se apresentou com ninguém menos que o pianista inglês Paul Lewis. Foi nessa noite que o público, que lotou a Sala São Paulo exclusivamente para ver Lewis tocar o Concerto para Piano N. 27, de Mozart, descobriu esse festival, se encantou com a coesão e a musicalidade do grupo, e se deliciou com os pizzicati de La Musica Notturna Delle Strade di Madrid N. 6, Op. 30, de Boccherini.

No domingo pela manhã, ainda sob o impacto do Septeto de Beethoven da véspera e já decidida a escrever algo sobre o Ilumina, durante a minha leitura matinal dos jornais encontrei, em texto de Vilma Arêas, publicado no caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo, a seguinte citação de Antônio Cândido: “[Afirmamos] que o próximo tem direito, sem dúvida, a certos bens fundamentais, como casa, comida, instrução, saúde, coisas que ninguém bem formado admite hoje em dia que sejam privilégio de minorias, como são no Brasil. Mas será que pensam que o seu semelhante pobre teria direito a ler Dostoiévski ou ouvir os quartetos de Beethoven?”.

No mesmo instante pensei no Ilumina: certamente foi isso o que Jennifer Stumm pensou quando, em 2015, deu início ao festival após ter constatado que na América do Sul havia muitos talentos musicais com pouca ou nenhuma chance de ter contato com músicos importantes no cenário internacional. Ela enxergou que também os jovens dos países pobres ou emergentes, distantes dos grandes centros culturais, tinham direito ao que existe de melhor. E, segundo o site do projeto (confira-o aqui), o trabalho não se encerra nos dez dias em que os músicos passam juntos. Na seção “Sobre Nós”, são apresentados os resultados práticos do festival: 74% dos participantes foram aceitos para estudar em tempo integral em importantes instituições, ou adquiriram novos trabalhos.

Também para o público das mais variadas classes sociais, que vai muito além daquele grupo habituado a frequentar concertos, o Ilumina traz a oportunidade de tomar contato com a cultura – e não só com o repertório tradicional: a variedade de estilos e épocas é uma característica marcante da programação apresentada. Enquanto secretários de cultura e dirigentes dos nossos teatros pregam a substituição da cultura pelo entretenimento para atrair público, o Ilumina enxerga que o público tem direito à cultura.

Sintetizando as ideias de Hannah Arendt a respeito da crise da cultura no mundo contemporâneo e do predomínio da diversão, com base no livro “Entre o Passado e o Futuro”, Celso Lafer explica, em “Hannah Arendt: pensamento, persuasão e poder”, que a diversão “se consome nas horas livres do tempo que sobra entre o trabalho e o descanso. A diversão se esgota no próprio metabolismo dos produtores e consumidores da indústria cultural, nada tendo a ver com a cultura, ligada ao ócio, isto é, a uma atitude de libertação do mundo: (…) que enseja o afastamento provisório do mundo das aparências e permite pensar”. De modo que a definição de cultura nada tem de pedante, de elitista: é aquilo que faz com que nos afastemos do mundo das aparências e aprendamos a pensar. É algo que ilumina.

 

Foto obtida em rede social do Festival.

Fabiana Crepaldi
Doutora em Física pela Unicamp. Frequentadora assídua de óperas e concertos, tem se dedicado ao estudo da história da ópera. Traduziu para o português o libreto da ópera “Tres Sombreros de Copa”, de Ricardo Llorca. Já fez cursos de canto e de curta duração sobre ópera.