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Ilha barroca em SP

Theatro São Pedro apresenta a ópera Alcina, de Haendel, com direção musical de Luis Otavio Santos e direção cênica de William Pereira.

 

Uma ilha transformada em outro planeta. O Theatro São Pedro, em São Paulo, apresenta sua segunda montagem lírica de 2018: Alcina, uma ópera seria barroca do compositor alemão Georg Friedrich Haendel, cuja narrativa musical é baseada numa história do célebre poeta italiano Ludovico Ariosto (1474-1533), a partir do libreto de Antonio Fanzaglia. A estreia ocorre no dia 22 de junho, sexta-feira, às 20h, e há récitas em outras quatro datas: 24, 27 e 29 de junho, e 1º de julho.

A montagem dramática com linguagem pós-moderna tem direção e cenografia de William Pereira, e o maestro Luis Otavio Santos à frente da Orquestra do Theatro São Pedro – dois profissionais apaixonados pelo repertório barroco. O papel principal é interpretado pela soprano Marília Vargas, formada pela Schola Cantorum Basiliensis (Suíça) e também especialista na música historicamente informada.

O elenco reúne nomes brasileiros e internacionais, como a soprano Thayana Roverso (Morgana), a mezzo-soprano Carolina Faria (Bradamante), o tenor Caio Duran (Oronte), o contratenor israelense David Feldman (Ruggiero) e o barítono austríaco Norbert Steidl (Melisso).

 

Montagem

Nesta versão especialmente montada para o Theatro São Pedro, o diretor William Pereira tem como proposta trazer ao palco todo o frescor e encantamento inerentes à ópera barroca. “Quero que o público perceba a grande diferença cênica, teatral e musical que existe entre a ópera barroca – mais rara de ser ouvida no Brasil – em relação à ópera do século 19, mais frequente e aclamada por nosso público”, destaca.

A cenografia traz uma proposta neutra, com piso e paredes brancas. O ponto de partida é um espaço vazio representado pelo intenso branco, preenchido por um jogo de luzes coloridas, uma espécie de “cubo branco”, recurso muito característico em seus trabalhos. “Com ele retiro o descritivo e o figurativo e coloco o próprio enredo no foco da atenção”, completa. O diretor e cenógrafo utilizou como referência o trabalho do artista irlandês Brian O’Doherty, que questiona o espaço no qual a arte é exibida no livro Por dentro do cubo branco.

Esta nova linguagem contrapõe aos modelos tradicionais do barroco e submete a recursos modernos que dinamizam e dão novos ritmos à montagem, que não se mantém na linha da neutralidade. Os figurinos de Fábio Namatame dialogam com o cenário e remetem à cultura nipônica com os tradicionais quimonos. A iluminação de Mirella Brandi faz uso de neons com as cores invadindo os espaços cênicos.

Pelo lado musical, a montagem retoma de maneira criativa e engenhosa uma série de elementos das práticas instrumentais e vocais da primeira metade do século 18. Sob a direção musical de Luis Otávio Santos, a partitura de Haendel passa por um criterioso processo de interpretação, no qual o trabalho vocal evidencia o singular colorido da ópera séria barroca e os instrumentos modernos que integram a orquestra sinfônica soam de maneira diferenciada da tradicional, mais em sintoniza com a sonoridade elegante desse período.

Uma instrumentação mais vívida, essencial para esse estilo de repertório, que tem por característica a forte presença de recitativos, terá uma formação que inclui dois cravos e uma teorba, e Luis Otavio se dividindo entre a regência, o violino (nas árias) e o cravo (nos recitativos).

 

História

Toda a ação ocorre numa ilha feérica, domínio da feiticeira Alcina. Esta é conhecida não apenas pelos muitos amantes que teve ao longo de sua existência – jovens guerreiros conquistados pela força de sua magia –, mas também por condená-los a uma existência miserável quando deles se desafeiçoa, transformando-os em feras. A ópera se inicia quando Alcina já tem sob seu feitiço o cavaleiro Ruggiero, até então noivo da jovem Bradamante.

Baseado no poema épico Orlando furioso, de Ludovico Ariostos, a ópera estrou no Royal Opera House de Covent Garden, em Londres, em 1735.

 

Profissionais

Luis Otavio Santos, direção musical
Luis Otavio Santos, que também rege a Orquestra do Theatro São Pedro, é considerado um dos principais nomes da interpretação em música antiga do país. Maestro e violinista, ele é reconhecido internacionalmente por seu trabalho com música historicamente informada. Doutor em música pela Unicamp, obteve graduação e mestrado em Violino barroco pelo Conservatório de Haia (Holanda), com Sigiswald Kuijken. Seu CD Sonatas para violino de J. M. Leclair venceu o prêmio Diapason d’Or na França, em 2005. Em 2007, recebeu o título de Comendador da Ordem do Mérito Cultural, concedido pelo Ministério da Cultura. Foi diretor artístico nas 25 edições do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga de Juiz de Fora. Foi eleito pela revista Época um dos 100 brasileiros mais influentes de 2011. É fundador do Núcleo de Música Antiga da EMESP Tom Jobim.

William Pereira, direção e cenografia
Graduado em direção teatral pela ECA-USP, William Pereira estagiou em teatro lírico na English National Opera e na Royal Opera House, em Londres. Tem se destacado nas temporadas líricas e teatrais do país em espetáculos com grande repercussão de público e crítica. É ganhador dos prêmios Carlos Gomes, APCA, Governador do Estado e Shell. Tem no currículo trabalhos importantes, como as estreias mundiais das óperas A Tempestade, de Ronaldo Miranda; Olga, de Jorge Antunes; Onheama e Natividade, de J. G. Ripper. No teatro, dirigiu grandes sucessos, entre eles, O Burguês Fidalgo e Dom Juan, de Molière. No ano passado, dirigiu o programa duplo inédito com o balé Pulcinella e a ópera Arlecchino, de Igor Stravinksy e Ferruccio Busoni, respectivamente, no Theatro São Pedro.

Marília Vargas em “Alcina”

 

Elenco

Marília Vargas (Alcina), soprano
Marília Vargas debutou no Teatro Guaíra, aos 12 anos, como o Pastor na ópera Tosca, sob direção do maestro Alceo Bocchino. Estudou com Neyde Thomas, Montserrat Figueras, Christoph Prégardien, Silvana Bartoli e Barbara Bonney. Foi premiada nos concursos Bidu Sayão, Maria Callas, Friedl Wald Stifftung e Margherite Meyer. Uma das mais ativas e respeitadas sopranos de sua geração, a suíço-brasileira divide seu tempo entre concertos, masterclasses e festivais de música, que a levam regularmente a diversos países europeus, da América Latina, Japão e China. Possui extensa discografia como solista, e inúmeras gravações para rádio e TV brasileiras e europeias e seu trabalho mais recente é o CD Viagem Infinita, com o clarinetista Jairo Wilkens e a pianista Clenice Ortigara. Marília é também professora de Canto Lírico e da Oficina de Música Barroca da Escola Municipal de Música de São Paulo, professora de Canto Barroco na Escola de Música do Estado de São Paulo e preparadora vocal do Coral Jovem do Estado.

Thayana Roverso (Morgana), soprano
Iniciou seus estudos com o Benito Maresca em São Paulo e formou-se bacharel em Canto Lírico pela UniFiamFaam, sob orientação do barítono Carmo Barbosa. Durante a graduação, ingressou no Coral Collegium Musicum, no qual foi solista de obras como Dido & Aeneas (Purcell), Vespro della Beata Vergine (Monteverdi), entre outras, dirigidas pelo maestro Abel Rocha. Participou de diversos festivais como solista, estudou na Scuola Civica di Milano (Itália), foi solista da ópera Elisir d’Amore (Donizzetti) no Theatro São Pedro e com a orquestra Filarmônica Veneta na Itália. Participou de montagens com a Cia. Minaz de ópera onde interpretou papéis como a Rainha da Noite na ópera A Flauta Mágica (Mozart). Interpretou Ninetta na ópera La Finta Semplice (Mozart) no Teatro Sociale di Rovigo, e Musetta na ópera La Bohème (Puccini), com a Cia. de Ópera Curta. Com a Cia. Minaz foi solista de Carmina Burana (Orff).

Carolina Faria (Bradamante), mezzo-soprano
Reconhecida por seu timbre quente e escuro, expressividade e grande domínio cênico, Carolina Faria tem agradado a público e crítica, e construído uma carreira de serviço à arte e à educação brasileiras nos últimos doze anos. Vem atuando ao lado de alguns dos nossos maiores músicos, regentes e diretores cênicos nas melhores salas e casas de ópera brasileiras. Carolina possui vasto repertório em ópera, oratório, canção sinfônica, música de câmera e vanguarda, com especial ênfase à Música Brasileira Colonial e participação em gravações históricas. Têm destaque suas interpretações como Herodias em Salomé, de Strauss; Baba the Turk em The Rake’s Progress, de Stravinsky; Hermia em A Midsummer Night’s Dream, de Britten; Gymnasiast em Lulu, de Berg; Donna Elvira no Don Giovanni, de Mozart; e Carmen em La Tragédie de Carmen, entre outras.

David Feldman (Ruggiero), contratenor
O contratenor israelense David Feldman foi indicado ao Grammy 2017 na categoria melhor álbum vocal clássico. Graduou-se na Jerusalem Academy of Music and Dance e foi estudar na Schola Cantorum Basiliensis, na Suíça. Já se apresentou com vários ensembles internacionais, como La Cetra Barockorchester Basel, Vox Luminis, Profeti della Quinta, Ludovice Ensemble e Musica Temprana. Ele tem cantado em alguns dos mais prestigiados palcos, incluindo o Concertgebouw, em Amsterdã; o Konzerthaus, em Berlim; o Palau de la Musica Catalana, em Barcelona; e os festivais Oude Muziek Festival Utrecht, Festival de Musique Baroque d’Ambronay e Haendel Festspiele Göttingen. Além disso, tem se apresentado em diversas produções de rádio e televisão e gravado para a Pan Classics, Linn Records e Deutsche Grammophon.

Caio Duran (Oronte), tenor
Bacharel em canto pela Faculdade de Música Carlos Gomes, iniciou seus estudos com Benito Maresca e posteriormente com Isabel Maresca. Venceu o prêmio revelação no 9º Concurso de Canto Maria Callas. Em 2012, diplomou-se em Canto e Artes Cênicas pela Civica Scuola di Musica Claudio Abbado, em Milão. Cantou sob a direção de Roberto Duarte, Cláudio Cruz, Alex Klein, Patrick Fournillier, Luís Gustavo Petri e Sergio Monterisi, e com os diretores Livia Sabag, Carlos Harmuch, Cleber Papa, Enzo Dara, Mauro Wrona e Gianni Quaranta. Em 2017, diplomou-se pelo Opera Studio do Theatro Municipal de São Paulo, sob a direção de Gabriel Rhein-Schirato.

Norbert Steidl (Melisso), barítono
Nascido na Áustria em 1977, formou-se cantor na Universidade Mozarteum de Salzburg, na classe de Heiner Hopfner e Barbara Bonney. Trabalhou com regentes como Ricardo Muti, Josef Wallnig, Yoram David, Luis Otávio Santos, Emanuele Baldini e Abel Rocha. Seu repertório envolve papéis de óperas como Guglielmo em Così Fan Tutte, Papageno em A Flauta Mágica, Leporello em Don Giovanni, Geronimo em Il Matrimonio Inaspettato, Morales em Carmen, entre outros. Oratório como Messiah, de Haendel; paixões, cantatas e missas de Bach, Schütz, Haydn, Mozart, Schubert; e canções como Winterreise, de Schubert; Dichterliebe, de Schumann; Songs of Travel, de Vaughan Williams; e obras de Brahms, Mahler, Strauss, Berg, Sulzer e outros.

 

Fotos: Heloisa Bortz

 

SERVIÇO:

 

“Alcina”, ópera em três atos de G. F. Haendel

 

Orquestra do Theatro São Pedro

Com Marília Vargas (Alcina), Thayana Roverso (Morgana) e outros

Luis Otavio Santos, direção musical

William Pereira, direção cênica e cenografia

 

22, 27 e 29 de junho, às 20h; 24 de junho 1º de julho, às 17h

Theatro São Pedro (R. Barra Funda, 161, Barra Funda – São Paulo. Tel.: 11 3661-6600)

 

Ingressos: R$ 80 (plateia), R$ 50 (1º balcão) e R$ 30 (2º balcão), com meia-entrada para estudantes, pessoas com mais de 60 anos e professores da rede pública estadual, devidamente identificados

 

Capacidade: 636 lugares

 

Sugestão etária: acima de 14 anos

Duração: 180 minutos, com um intervalo de 20 minutos

 

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